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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Reaprendendo a arte de viver com arte



A frieza que ultimamente tem interferido na relação das pessoas é um mal do mundo moderno, onde não há mais tempo para nada, nem mesmo para construir relacionamentos, quanto mais melhorá-los. E as pessoas vivem e sobrevivem de relacionamentos. Temos conviver para manter o equilíbrio, crescer e existir mais humanamente.

Frieza, indiferença, descaso, distância, são palavras escritas com gelo. Cristalizam. Fazem parte de um vocabulário muito usado, não só com palavras, mas pelo olhar. Um olhar soturno, acinzentado, cor de treva. Se observarmos as pessoas, na rua, a maioria caminha rápido, passos largos, em aflição; não olham para os lados, não têm tempo, vão perder o ônibus, vão chegar atrasados ao trabalho, têm um compromisso, precisam correr... Olhos mortos, sem expressão, fixos apenas em medir a distância que as separa de seu destino, que é o mesmo, todos os dias.

 Ir e vir. Vir e ir. Sem parar. Trabalhar sem descanso porque há contas a pagar, porque há compromissos a cumprir, há tarefas a entregar. Nem lembramos mais que há um EU a cuidar, que há um TU a esperar, que a um NÓS a construir.

Nessas idas e vindas de dura e sistemática repetição deixamos de perceber o espetáculo diário que a vida nos oferece – abdicamos de nossa sensibilidade e nos refugiamos no tédio ou na queixa da mesquinhez e da crueldade do cotidiano, que nada nos dá, só tira.

Precisamos refletir e aceitar o desafio que se impõe se quisermos reaprender a viver. Precisamos aprender a viver com arte, a viver dentro da arte. Da arte de amar. Precisamos descobrir novos caminhos, diminuir o ritmo, apreciar as cores do dia, sentir a brisa batendo, leve, no nosso rosto, desfrutar o canto dos pássaros, sentir novos aromas, sorrir e perceber o outro que está ao nosso lado.

Viver com arte é enfrentar os desafios, é recuperar um tempo em que tudo era capaz de nos emocionar – o mar, o céu, os cheiros, os sons, as flores, o vento, os amores, os livros, os filmes, a música...

Este é o desafio de cada um - o do ampliar altura e largura da alma, enriquecendo o espírito porque a vida, muitas vezes trágica e sofrida, também pode ser engraçada, doce e divertida e, sempre, compartilhada! Aceitando o desafio, podemos voltar a cuidar do nosso EU, reencontrando aquele que nos espera para reconstruirmos o NÓS.

Na verdade, o que impede a aproximação é o medo. O medo da indiferença. O medo da frieza que vemos nos olhos dos outros, esquecendo que é a mesma que veem em nosso olhar. É o medo da dor, daquela dor que varre o mundo, que sacode a terra, que desfia os ventos, que nos invade, que nos divide, que nos diminui, que nos encerra...

Há que olhar mais fundo para compreender. Há que parar para enxergar. Há que ter sensibilidade para entender que o meu olhar de gelo que reflete o teu é apenas a armadura que esconde o calor, que cristaliza a lágrima escondida, represada, pronta a desaguar a um mínimo gesto, um sinal... desfazendo o olhar antártico criado apenas para proteção.

Palavras escritas com gelo podem ser transformadas, sim, em palavras escritas com fogo. Olhar de gelo também pode ser aquecido por generosidade, brandura, amor.

Às vezes, o gelo no olhar e na palavra é pura falta de exercício.

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