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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Leon


Morava naquele prédio há pouco tempo e, como acontece nas cidades grandes, não conhecia os vizinhos, com quem cruzava, eventualmente, nos corredores, saudando-os com um cumprimento cordial. Não sei exatamente quando comecei a notar uma presença que, aos poucos, foi se tornando marcante, talvez pela inusitada estampa da pessoa, talvez pelo seu procedimento sistemático. Ele morava no fundo do corredor, no mesmo andar.

Era um velhinho, cabelos brancos, abundantes, ondulados, bem penteados. A barba igualmente branca, maçãs do rosto rosadas, sorriso comedido e uns olhinhos... hum! pra lá de matreiros, que se sobrepunham aos óculos de armação redondinha! Vestia roupas comuns, simples, mas que lhe caiam perfeitamente, escondendo o ventre algo proeminente.

Eu saía para o trabalho, todos os dias a mesma hora, geralmente apressada, cheia de anotações mentais, preocupada com a agenda diária a ser cumprida. A primeira vez que o vi, entramos juntos no elevador. Cumprimentei-o e sorri. Ele apertou o botão e notei que segurava um saco de tecido em uma das mãos. Dobradinho. Descemos. Agradeci quando abriu a porta e saímos, cada qual para o seu lado. E assim sucederam-se os dias. Olá! Bom-dia! Como vai? Que dia lindo! Como está frio! Será que ainda vai chover muito?

Raramente o via quando voltava do trabalho, já que não tinha horário. Uma noite, já bem tarde, ao entrar no prédio, vi que ele também aguardava o elevador. Desta vez, devolvi a gentileza, apertando o botão do nosso andar, porque ele trazia o saco, que segurava com as duas mãos. Parecia pesado e ele, cansado.

Fiquei extremamente curiosa com aquela situação que virava rotina e indaguei ao porteiro quem era aquela figura. – Ah! É o Seu Leão. Desde que veio morar aqui, é assim... Saco vai vazio, vem cheio. É boa gente, sempre sozinho, a esposa já se foi, faz tempo. Não sei o que ele faz, não dá entrada pra conversa... Acho que é aposentado.

Na manhã seguinte, na mesma hora, no mesmo corredor, cumprimentei-o: - Bom-dia, Seu Leão! Ele sorriu e respondeu, com um sorrizinho travesso:- Bom-dia, mas não é Leão; é Lé-on, disse ele, fazendo questão de pronunciar o "e" bem aberto. - Ah! Como o Tolstoi, brinquei... – Isso! É o Jesus que me chama de Leão... - E a senhora, qual é o seu nome? – Sou Maria. – Lindo nome, como a Mãe do Nosso Senhor. Concordei e nos despedimos.

Assim foi, por meses. Na correria antes das festas de fim de ano, me dei conta que naquele dia não tinha me deparado com o Leon. Lendo as notícias na internet, uma, em especial, chamou minha atenção: “Idoso atropelado num cruzamento no centro – carregava saco cujo conteúdo ficou espalhado na rua”. Leon Pinheiro está hospitalizado no Divina Providência e chama por Maria... Li as últimas palavras já com a certeza de que a Maria era eu e voei para lá, com o coração na mão.

- Sou a Maria que o Seu Leon Pinheiro chama.

- É parente? – Não, sou vizinha. Ele não tem ninguém.

– Entre, então, porque ele não para de chamá-la!

Leon, deitado no leito, tinha cara de desespero profundo; a perna engessada. Quase não podia falar. Quando me viu, serenou, ensaiou um sorriso dolorido e puxou algo debaixo do travesseiro. – É a chave do apartamento. Entra lá e saberá o que fazer. Desde o dia em que pronunciou o meu nome, sabia que podia contar contigo. Saí e disse que voltaria, mesmo ainda em dúvida de que missão me havia sido delegada.

Entrei silenciosamente no apartamento de Leon. Tudo imaculadamente limpo. Fui de aposento em aposento, até me deparar com um quarto cheio de sacos. Sacos cheios! Um, dois, três... 365 sacos! Em cada um, havia a anotação, em letra caprichosamente traçada: Para os meninos do Presídio Central; para as meninas do Lar de Miriam; para as crianças do Hospital Santa Casa; para as vovós do Asilo Padre Cacique... E assim fui lendo, como pude, as mais de três centenas de bilhetinhos, porque as lágrimas teimavam em cair, embaçando a minha visão...E em todos, uma assinatura: Papai Noel. Claro! Papai Le-on!

Pedi ajuda a amigos, parentes, vizinhos, para que os sacos de Papai Leon chegassem, sãos e salvos, ao seu destino. Ao retirar o último, notei que um pequeno saco tinha ficado no chão e me abaixei para pegá-lo. Parecia vazio. Também tinha um bilhetinho: Para Maria, do Papai Noel. Abri, curiosa, e dentro encontrei outro saco, igual aos de Leon. Entendi a mensagem – ele tinha me tornado parceira de sua missão, antes mesmo de saber que não poderia completá-la sem a minha ajuda.

No dia de Natal, fui visitar Leon e o encontrei sorridente, recuperando as energias. Já o tinha avisado da missão cumprida. Fui desejar-lhe Feliz Natal e mostrar que a parceria havia sido aceita – levei 365 sacos, iguais aos dele, pronta para imitá-lo na mais gloriosa jornada que alguém pode empreender – a da solidariedade!


Desejo a todos um feliz e abençoado Natal e que em seus corações reservem um espaço para a solidariedade – seja a de um sorriso, a de um aperto de mão, a de um abraço ou a de uma pequena lembrança que traduza o seu carinho para quem nada tem. Também sou Maria. Nivia Maria, como minha bisavó, minha avó e minha mãe. Também conheci um Leon, meu pai, Luiz Carlos. Eles me ensinaram a ser solidária. A historinha fica por conta da minha emoção e da arte maravilhosa de juntar as palavras, dando-lhes um sentido. E escrevendo-as com amor. Todas as palavras que eu juntar ainda vão ser poucas para traduzir o agradecimento a todos vocês, queridos amigos, que me brindaram, neste ano, com o melhor presente que alguém que escreve pode receber – a sua atenciosa leitura!

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