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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A missão do jornalista


Interessante e instigador o artigo de Moisés Mendes para o jornal Zero Hora de domingo, 29 de setembro, na seção Opinião, acerca do livro da jornalista Sílvia BittencourtA Cozinha Venenosa - Um jornal contra Hitler. É um libelo e um aviso aos maus jornalistas que privilegiam a civilização do espetáculo e abandonam a sua missão de informar com seriedade. Serve perfeitamente para os ditos jornalistas da província... 

A cervejaria dos nazistas

moisesMOISÉS MENDES*
moises.mendes@zerohora.com.br
"Bebe-se e come-se na cervejaria Hofbräuhaus, em Munique, como num salão paroquial. Bancos e mesas são enormes, e todos sentam-se misturados, moradores e turistas. É como se a Alemanha subvertesse, naquela fuzarca, com brancos, pretos, amarelos, gente de todo jeito, sem separações, a ideia de um país à parte do resto do mundo _ como muitos pensaram que seria possível nos anos 30 e 40 do século 20. Tomei cerveja quente num caneco da Hofbräuhaus há 15 anos. Lembro bem do ambiente barulhento da cervejaria de quatro séculos, da fachada de arcos medievais.

Mas eu queria mesmo ter bebido em outra cervejaria, a Bürgerbräukeller, que não existe mais. Era a cervejaria de Hitler, onde ele discursava, onde se tornou líder do partido trabalhista, voltava todos os anos para comemorar uma tentativa de golpe contra o governo da Baviera e onde escapou de um atentado a bomba em 1939. Hoje há um hotel na área da cervejaria que alegrava os nazistas.

Hitler gostava de discursar em cervejarias, por onde andavam também os repórteres do Münchener Post. Os alemães devem o resgate da memória desses jornalistas a uma brasileira. A jornalista Sílvia Bittencourt, que mora desde 1991 em Heidelberg, escreveu A Cozinha Venenosa _ Um jornal contra Hitler (Editora Três Estrelas, Grupo Folha). Ainda não li o livro, mas já li tantas resenhas e entrevistas e conversei pela internet com Sílvia, que tenho a sensação de que estive muitas vezes na Bürgerbräukeller.

É um livro para comover a todos, mas para mexer mesmo com jornalistas jovens e veteranos em dúvida sobre a relevância do que se faz hoje, nessa feira de informações em que notícias sobre a espionagem de Obama disputam o mesmo espaço com notas sobre o casamento da mulher melancia ou o porco de duas cabeças.

Os repórteres do Münchener foram os primeiros a noticiar, em 1920, que um certo senhor Hitler andava impressionando os frequentadores dos fundos de uma cervejaria envolvidos na criação de um partido. Hitler tinha 30 anos, era cabo do Exército, pintava paisagens terríveis e estava ali, como infiltrado das forças armadas, para saber o que aqueles homens articulavam. O Münchener avisou que o partido e o militar que virou pregador defendiam ideias racistas. Hitler ainda era um militante miúdo.

Em 1923, o jornal publicou uma nota sobre o projeto de Hitler para o que seria, menos de 10 anos depois, o início da eliminação dos inimigos da pureza ariana _ judeus, ciganos, negros, pessoas com deficiência, homossexuais.

Num erro de avaliação, os repórteres comemoraram a prisão de Hitler, ainda em 1923, depois do fracasso da tentativa de golpe. Hitler saiu da cadeia, nove meses depois, e passou a perseguir o jornal. O Münchener _ uma cozinha de venenos, na definição do ditador _ foi destruído pelos nazistas. Alguns jornalistas fugiram e outros foram mortos, quando o cabo finalmente chegou ao poder.

O livro de Sílvia não foi feito só para jornalistas. Mas todo repórter deveria ler histórias edificantes com algum fundamento, para não confundir qualquer outra coisa parecida com jornalismo, com cara de jornalismo, que não é jornalismo.

A mais nobre missão do jornalista ainda é a mesma dos rapazes de Munique: remexer no que se camufla e se esconde e informar o que gente miúda ou graúda, como Hitler, Médici, Pinochet, Bolsonaro e Feliciano, tramavam ou tramam em cervejarias, quartéis, saunas e bordéis."

*Jornalista

sábado, 28 de setembro de 2013

O inquietante perfume de cravos


A escritora Arlete Gudolle Lopes acaba de lançar o seu primeiro livro – O inquietante perfume de cravos – Contos de amor e vida. Sim, são trinta histórias de amor e vida, contadas por alguém que ama a vida, que vive a vida plenamente, que conhece o êxtase e a dor de viver de forma intensa e apaixonada cuja sensibilidade se derrama para além de qualquer limite, incontida, irrepresável. E daí, escreve, pinta e borda e arma a teia com seus fios de seda para tecer narrativas, às vezes luz, às vezes só sombras. Porém, tanto no lume quanto na escuridão, as cores são berrantes, não há lugar para o meio-tom. Vermelho e negro, como a capa que envolve, amorosa e lindamente, o livro.

Pois bem, o primeiro grande valor dessa obra reside, justamente, na coragem de expor sentimentos e sensações os mais diversos, conforme manda a mente que comanda a mão e eles surgem, aos borbotões, sem pedir licença e inundam e transbordam e sufocam o leitor mais desavisado que, ao mergulhar na leitura, não pensava nem tencionava reconhecer-se com tanta profundidade e similitude nas páginas de um livro de contos. Daí a estranheza primeira e a não menos importante segunda e óbvia constatação: Madalena, Waleska, César Augusto, Maria Cecília, Maria Júlia, Estêvão, Lindalva, José Francisco, Elenice, Maria Helena, Eduardo, Aléksia, Narciso, Hanna, Mayara, Milena, Adeline, José Antônio, Ana Lúcia, Luís Artur, Fábio, Lharissa, Maciel, Pedro Henrique, Solange, Liana, Márcia Cristina, Marco Antônio, Daisy, Katherine, Rafaela, Maria Regina, Fabíola, Frederico, João Vicente, Ana Maria, Maria Teresa, Clarisse e Anita, Natália, Henrique, Luís Afonso, Ivanna, Vanessa, Cármen Valéria, João Vicente, Moisés, Guilherme, Carmine, Valéria, Jackeline, Carlos Afonso, Daniele... sou eu, somos nós, transubstanciados nos milhares de matizes das palavras de Arlete, que vive e sabe ler a realidade de cada um e de todos, captando os conflitos universais da alma humana com engenho e arte!

Essa formidável avalanche de emoções se faz acompanhar de outro grande e importantíssimo valor – o literário, que encontra na forma e no estilo outro transbordamento, já que a autora é especialista na língua e faz uso do vernáculo com maestria, construindo histórias primorosas, de urdidura engenhosa, milimetricamente planejadas, observando a estrutura desse gênero narrativo tão difícil de compor que é o conto. Arlete faz com que exista algo especial na representação daquele recorte da vida que gera o conto – o flagrante de um determinado instante que, pela novidade, pela surpresa, pelo inusitado, pelo trágico ou pelo cômico de uma situação, possa interessar e prender o leitor. Dona de uma expressão verbal incomum, Arlete oferece, ainda, ao leitor, a possibilidade de ampliar e qualificar significativamente o vocabulário, apropriando-se de termos que não são utilizados no linguajar cotidiano, além de propor a discussão de temas atualíssimos e polêmicos que tensionam as relações pessoais na sociedade contemporânea.

Há uma passagem, no conto Cartas de amor, de rara beleza, que compara os seres humanos com as borboletas. É pura prosa poética, como quase todo o livro, uma alegoria brilhante e encantadora que faz jus ao subtítulo – Contos de Amor e Vida, que mostra como a existência é fugaz se não for vivida apaixonadamente:

“Existe, em cada pessoa, um pouco de borboleta. Há seres que nascem crisálidas e vão se transformando aos poucos, embelezando-se quando mais se aprimoram a sua essência. Outros nascem belos, coloridos, radiantes, até que vão murchando. Lentamente. Do seu constante definhar, deles, só resta o casulo, o lado mais feio do belo inseto, que nasce e morre junto aos passantes distraídos, num rápido bater de asas. Tal como a metamorfose que sofre a borboleta, viver é um fato e um ato de renovação permanente. Morre antes quem não aceita viver intensamente em vida ou se recusa a aceitar o bom e o ruim, o alegre e o triste, o crime e o perdão. Tudo misturado, formando o amálgama trivial de que somos feitos: nervos, fibras, carne e osso, sangue, suor e lágrimas. A carcaça pode não ser bela se o interior é radiante. A palavra pode ser cruel se for dita com a mordaz intenção de ferir. Um olhar mais penetrante, um sorriso inesperado, uma atitude compreensiva ou uma palavra sussurrada ao vento podem contribuir para a cura de corações dilacerados. Um bom dia proferido com ênfase pode ser de bálsamo a quem se sente só mesmo estando rodeado de faces que riem, mas se mantêm inexpressivas, murchas, desprovidas da seiva da vida...”

Por fim, há outra peculiaridade marcante em O inquietante perfume de cravos que o torna ainda mais saboroso e encantador – a forma como a obra tem chegado até o leitor, diretamente das mãos da autora, através de uma “visita cultural” agendada! Poder-se-ia até pensar que é uma estratégia de marketing, mas trata-se de uma atitude racional para que o livro se viabilize economicamente e possa ser degustado por muitas pessoas, afinal, a Terra dos Poetas ainda carece de mais livrarias, quiosques e pontos de venda de livros. A ideia e sua consecução são magníficas, acompanhadas, sempre, de uma boa conversa, afeto e muito calor humano!

Et bien sûr, estamos sedentos por mais histórias, Mme. Gudolle Lopes! 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O segredo dos gaúchos


Existe um povo que canta mais do que fala. E fala palavras que ninguém entende.

Existe um povo que se veste de maneira estranha. Homens usam calças largas, botas e chapéus engraçados. Além do lenço amarrado ao pescoço... Mulheres usam vestidos compridos, rodados e cheios de frufrus, mesmo durante o dia. Nem as crianças escapam da inusitada indumentária.

O mais intrigante é que tais vestes são usadas com orgulho e tornam, homens e mulheres, muito elegantes, altaneiros, garbosos. É a tal da pilcha. Será esse o segredo?

Curiosidades a marcar os costumes heterodoxos desse povo são inúmeras. Um exemplo claro é um pequeno porongo que abriga um pozinho verde, onde se coloca água quente para obtenção de um líquido fumegante, sorvido através de um canudo de prata e ouro, cheio de pedras brilhantes...Um grupo de pessoas se reúne para tomá-lo, coletivamente, entre conversas ininteligíveis, gritos e risadas. Talvez aí resida o segredo dessa gente, um pozinho verde, que as torna alegres, amistosas, cheias de vida e de saúde. Deve ser muito bom o tal do pó, porque toneladas d’água são usadas, todos os dias do ano, para o ritual. E o nome da coisa é chimarrão, e o pozinho precioso é erva-mate, para quem nunca ouviu falar.

Interessante ressaltar que esse povo ama as suas tradições, não se envergonha de demonstrar amor pela terra em que vive. Gosta de dançar em grandes galpões, ao som de gaitas e violões, chegando a fazer pó no chão batido, que precisa ser molhado para baixar a polvadeira, de hora em hora. É bom lembrar que o traje é imperativo! Minissaia, calça de brim e tênis, nem pensar! Impressionante a resistência desses casais. Começam a dançar às sete da noite e só param quando a manhã já é desabrochada. Deve ser muito bom! Será que aí mora o tal segredo?

Comida então, nem se fala. É pura extravagância! Imagine que cavam um buraco no chão, tocam fogo e assam carne o dia inteiro. E comem o dia inteiro! É por isso que o rebanho, por estas bandas, nunca para de crescer! Tudo por um bom churrasco... Já entendi qual é o segredo!


Por essas razões e por muitas mais é que o povo gaúcho tornou-se ímpar. Por suas peculiaridades que fazem a diferença. Pelo orgulho com que demonstra suas origens. O sotaque, a vestimenta, o chimarrão, o bailado, o churrasco são apenas manifestações externas. Não falemos de guerras, façanhas ou conquistas... Falemos de amor à terra e solidariedade! Brilhante é a alma, forte o sentimento, absoluta e profunda a paixão... eis o segredo dos gaúchos!

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Juízo Final: você sabe quem está julgando?

Publicado no jornal O Globo de 18 de setembro de 2013

ROBERTO DA MATTA
"Escrevo no domingo e sem onisciência, não sei se vamos ter ou não ter os tais embargos infringentes que promovem o esquecimento e revogam os crimes. Embargos que algumas almas brasileiras estão certas de que terão o direito de invocar até mesmo no Juízo Final. Aliás, por que não ter também embargos no futebol, na pobreza, na fome e quando sabemos do roubo do nosso dinheiro por autoridades que embargam, como malfeitos triviais, crimes da mais alta gravidade?
Sem saber o futuro, comento a sessão do STF que terminou num empate significativo. Acompanhei os argumentos do ministro Marco Aurélio Mello rebatidos pelo ministro Luiz Roberto Barroso com requintada veemência ─ esse estilo nacional de matar com luvas de pelica ─ que faz parte de nosso modelo de discussão entre autoridade que vem sendo sufocado por um avassalador viés igualitário.
Entre nós, o culpado é a vítima. É a mulher que compele ao estupro; é a criança que demanda a surra. O ladrão do dinheiro público (que rouba, mas faz) e o populista convencido de que sabia como transformar o Brasil e que articula um plano para comprar o Congresso Nacional, traindo a democracia, como foi o caso desse “mensalão”, são sempre vitimas indefesas, sujeitos à fúria da multidão. “Mensalão”, aliás, é um eufemismo. O que ocorreu foi uma deslealdade para com o direito de competir pelo poder. Violou-se a promessa de honrar os cargos concedidos pelo povo em eleições livres.
Por mais que um regime legal ajude os poderosos. ele não anula os crimes. Não foi o STF que produziu o mensalão, foram as manobras delinquentes dos membros da cúpula governamental petista que, descobertas, acionaram o Supremo. Esse tribunal moralmente soberano e isento (no sentido de ter consciência dos seus conflitos de interesse) que é, além de tudo ─ e esse é um ponto crucial da dinâmica institucional brasileira ─, o limite e a fonte central da nossa legitimidade democrática. O STF é (ou seria) o ponto final de que, mesmo no Brasil, há uma fronteira definitiva entre a malandragem e a traição aos princípios democráticos.
Como proceder quando os crimes não foram cometidos por indivíduos sem eira ou beira, mas pela própria elite no poder? A isonomia é a maior dificuldade de um sistema relacional ─ uma sociedade grávida de hierarquias e de brutais desigualdades formais e informais entre seus membros. Entre nós a lei é relativa. Temos uma inconcebível multidão de polícias, leis e regimes jurídicos. O crime sai da curva dependendo do seu autor. Para tanto, nossos legisladores regram sem a preocupação com contradições, criando as brechas que são o apanágio de quem tem bons advogados e possui sólidos laços com o poder.
Marco Aurélio Mello denunciou com seu saber e para a minha perplexidade que “o sistema não fecha”. Optou pelo bom senso. Bom senso que tem a ver com o serviço que presta aos seus semelhantes, sem o que nem ele nem o STF teriam legitimidade. Já o ministro Barroso segue no rumo oposto. Ele rejeita as “manchetes” e a opinião pública, mas ─ em compensação ─ personaliza inconscientemente os valores do velho familismo brasileiro. Pois, imaginando que individualizava, deu um exemplo tirado do fundo do nosso patrimonialismo. E se forem réus o seu filho, pai ou irmão ─ perguntou ─ como você decidiria ao saber que há um recurso? Para o egrégio ministro Barroso, a resposta seria um seco e óbvio a favor do réu. Pouco se vê, penso eu que nada entendo de Direito, uma tese que tão claramente abandona a avaliação dos crimes e focaliza a vulnerabilidade dos réus diante do fantasma de uma multidão.
Interpretar não é fácil. Primeiro, porque não há nenhuma multidão pedindo o sangue dos mensaleiros os quais tiveram amplo direito de defesa. Depois porque o que se busca já faz tempo é isenção e justiça. Essa justiça nacional que tarda e, lamentavelmente, falha quando aplicada aos poderosos.
Fazer justiça é realizar o duro esforço de discernir o valor englobante. No caso em pauta, o valor englobante vai ser conjunto de delitos que originou o caso, o qual é tanto mais grave quanto mais ele implicou pessoas com papéis públicos de suma responsabilidade, como a chefia da Casa Civil da Presidência da República; ou vai ser uma norma formal e ambígua? Essa é a questão.
Se houver adiamento confirma-se o peso do “você sabe com quem está falando?” no STF. Na cartilha do personalismo que aristocratiza e distingue, contra a lei universal que iguala e nivela; iremos despir um quesito muito mais grave e vergonhoso: o “você sabe quem está julgando?” Se for a elite política, vale tudo; se for uma pessoa comum, condene-se sem embargos.
PS: Essa crônica é para a Lívia Barbosa."
Meu comentário: Admiro cada vez mais o sociólogo Roberto da Matta, um homem do seu tempo, que conhece profundamente a alma brasileira e, por isso, sabe avaliar com precisão assombrosa todas as atitudes, quer dos poderosos, quer do mais simples homem do povo. Vale a pena ler!

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A arte de escrever e falar bem


É incrível como as pessoas desprezam a arte de escrever e falar bem. Há algum tempo, José Saramago disse, do alto de seu talento e experiência: "Hoje, existe uma espécie de menosprezo por essa coisa tão simples que antes era falar com propriedade. Quando eu era trabalhador, sempre tinha as ferramentas limpas e em bom estado. Não conheço uma ferramenta mais rica e capaz que o idioma. E isso significa que se deve ser elegante na dicção. Falar bem é um sinal de pensar bem". Acrescento, ainda, que escrever bem é uma condição inarredável para a credibilidade, a liderança e o sucesso de qualquer profissional, seja político, médico, jornalista, advogado, engenheiro, matemático ou professor de Português.

É lamentável que não se dê importância a algo tão elementar. Mais ainda quando sabemos que a comunicação move o mundo e quem não habilitar-se com competência não tem chance, está fadado à mediocridade e ao desaparecimento. Precisamos ser capazes de convencer e não de vencer. Vence-se normalmente com a força e convence-se habitualmente com as palavras e a razão. Escrever e falar bem são armas de altíssimo calibre que diferenciam um sujeito na multidão. Acrescentam poder.

E não nos damos conta de que existe, ainda, uma habilidade muito maior em significância - a de saber escutar. Como muito bem falou Bolívar, "quem manda deve ouvir, ainda que sejam as mais duras verdades e, depois de ouvidas, deve aproveitar-se delas para corrigir os erros". Por suposto, aí está a chave do desenvolvimento do ser humano ao longo de sua história. Pelo menos daquelas pessoas que têm sensibilidade para perceber o alcance desta competência.

Escrever e falar bem, assim como saber ouvir credenciam o sujeito a desenvolver outra habilidade preciosa – ter olhos para ver além do horizonte, percebendo antecipadamente o que se desenha. Há mais tempo Saramago escreveu, em seu Memorial do Convento, “O mundo de cada um é os olhos que tem”.

Atentem, ainda, para uma situação peculiar: há pessoas que são especialistas em usar a palavra para expressar o que pensam e dispõem de espaço qualificado na mídia, que atinge milhões de pessoas. São formadores de opinião – cultos, sensatos, experientes, equilibrados e por isso, acreditados. Também leio o que escrevem e os admiro, às vezes por sua coragem, outras por sua ousadia e sempre por sua capacidade de bem escrever e ordenar racionalmente as ideias. É o que chamo de arte do texto.

Porém, há certos dias em que lhes lastimo o pensamento infeliz grafado numa palavra mal-dita. Quem escreve para muitos e sabe que atinge milhões de leitores não pode se dar ao luxo de perder a temperança e a lucidez, externando opiniões que geram máxima polêmica e ainda provocam sofrimento em quem é atingido pela palavra mal-posta. Ainda mais quando o escrevente se arvora em mago e adivinho, tratando de antecipar decisões em curso. Aí, senhores do belo texto, lhes retiro toda a brilhatura e lhes casso os elogios abundantes, sobrando apenas a atenuante de que também vivem sob a humana condição de errar e são tão passíveis de erro como nós, simples aprendizes, na arte de escrever e de viver.

De outra parte, quem escreve mal e se esconde nos meandros da soberba e da arrogância, acreditando-se poderoso, utilizando o veículo de comunicação como escora de sua prepotência, este, pode esperar, que a sua hora vai chegar. É certo e veloz o castigo para quem se arvora em ser dono da verdade, tudo pode antecipar e o faz, através do poder da palavra, que os torna arrogantes, insensíveis, inatingíveis. Não o castigo dos molestados pelo poder da palavra, mas o castigo interior, da própria vida, o castigo da alma, aquele que nos faz menores como pessoas.

Então, senhores da palavra, moderação, humildade e modéstia são qualidades sempre bem-vindas e que constantemente devem ser exercitadas, ainda mais nesse ofício tão exposto e árduo que é o de comentar sobre a vida e sobre os viventes! Para quem escreve, palavra é arma. Dependendo do combate e dos detratores, faca de dois gumes.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

70ª SOEA e 8° CNP


Estamos participando, em Gramado, RS, da 70ª SOEA – Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia e do 8° CNP – Congresso Nacional de Profissionais, que acontece de 09 a 14 de setembro, no Serra Park, uma realização do CONFEA e do CREA-RS. O evento é grandioso e conta com a participação de mais de 3.600 profissionais das áreas de engenharia, agronomia, geologia, geografia, meteorologia e atividades afins, vindos de todos os estados brasileiros.

A delegação de Santiago é composta pelos engenheiros civis Gustavo Peixoto, inspetor regional do CREA; Carlos Juarez Vaz, inspetor-adjunto e Sissi Jaqueline Flores da Silva; o engenheiro florestal e presidente da SEAGROS João Mayer Lara, o engenheiro agrônomo Vulmar Leite, conselheiro do CREA e o geólogo Nilo Espíndola.


Credenciada como jornalista, tenho acesso a todos os eventos que acontecem no Serra Park. Ontem, à tarde, assisti palestra do ex-governador Germano Rigotto, que falou sobre Os Desafios do Atual Cenário Econômico Brasileiro, tema que ele já havia desenvolvido recentemente, no dia 19 de junho, no Ideias na Mesa, do Centro Empresarial de Santiago. Rigotto falou sobre as estratégias competitivas de desenvolvimento que devem ser adotadas para que o Brasil possa firmar-se como grande potência no cenário econômico internacional, superando crises e buscando soluções de gestão competente e competitiva.


Ao anoitecer, na abertura oficial do evento, aconteceu show do Guri de Uruguaiana, que continua fazendo grande sucesso com a variação criativa do tema Canto Alegretense, criação da família Fagundes que completa 30 anos em 2013 e tornou-se um hino do Rio Grande. Agora, todo mundo sabe onde fica o Alegrete...


Na cerimônia oficial de abertura, foram homenageados profissionais da área de Engenharia e da Agronomia que se destacaram por seu trabalho e contribuíram para o desenvolvimento do país. Foi condecorado, in memoriam, o engenheiro militar Luiz Carlos Prestes, o revolucionário Cavaleiro da Esperança, representado por sua filha, Anita Leocádia Prestes, que foi aplaudidíssima pela plateia e emocionou os presentes com o seu discurso, representando todos os agraciados.


Hoje, 10 de setembro, pela manhã, a primeira palestra foi proferida pelos engenheiros Raul Tadeu Bergmann, diretor da Associação dos Engenheiros da Petrobras e de Fernando Siqueira, vice-presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras, que falaram sobre o Pré-Sal – Oportunidade para a Redenção do Brasil, assunto atualíssimo, palpitante que enseja muitas discussões no sentido de que é necessário preservar essa riqueza incalculável nas mãos dos brasileiros, evitando que os lucros advindos da exploração do pré-sal caiam nas mãos de conglomerados de empresas estrangeiras. Ainda há muito a fazer, em termos de regulação, advertiram os palestrantes, que são engenheiros aposentados da Petrobras.


Mas a melhor palestra do dia esteve a cargo do ministro recentemente aposentado do Supremo Tribunal Federal, Dr. Carlos Ayres Brito, que lotou as dependências do Auditório Master e a todos encantou com a sua sabedoria, brilho pessoal e simpatia. Ayres Brito falou sobre o tema A Ética nas Relações Humanas, Políticas e Profissionais. Exemplo de postura ética o ex-ministro deu na denominada parábola das garças, contando que, quando morava em Aracaju, de seu apartamento situado no 15° andar de um prédio, entre o mar e o mangue, podia divisar e observar o cotidiano de bandos de garças que, ao entardecer, pousavam delicadamente no ninhal do brejo que era seu dormitório, zelando para que sua alvacenta plumagem jamais tocasse no mangue e ficasse maculada pela lama do substrato. Da mesma maneira, ao alçarem voo, pela manhã, o mesmo cuidado tomavam as brancas aves de não se sujarem, conservando as penas imaculadas... Assim, disse o ministro-poeta, lembrando que agir com ética significa, para os homens, detentores de poder ou simples viventes, jamais agirem de maneira a enlamear os seus valores morais e éticos. Lembrou, também, que não há corrupção somente na área política, o povo também é corrupto e corruptor...

Instado a falar sobre a AP 470, popularmente conhecida como mensalão, o ex-ministro eximiu-se de opinar, justificando que o julgamento ainda não acabou, restando, ainda, a análise dos embargos infringentes e que a sua tarefa encerrou quando deixou o tribunal, por motivo da aposentadoria compulsória. Quando perguntado se poderia candidatar-se a cargo eletivo, disse que não pretende concorrer a nada. Escolheu ser juiz, cumpriu a sua missão e agora, tem um escritório de pareceres jurídicos e faz palestras por todo Brasil e no exterior.



Enfim, quando fala Ayres Brito, as palavras também viram poesia e o tempo voa. Foi muito prazeroso ouvi-lo.


O presidente da SEAGROS Santiago, engenheiro florestal João Mayer Lara (dir.),
durante o evento que acontece em Gramado