Acompanhando Interface Ativa!

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Estrela de um novo dia

Caros e caras, queridos e queridas, voltei! Aqui, nas Águas Claras em que habito, tudo sereno, tranquilo e transparente! Vocês já sabem, quando há um fato relevante eu apareço para conversar um pouquinho e o último dia do ano é uma data que não pode passar em branco no calendário humano. Mesmo que os humanos passem o ano inteiro desfazendo sua humana condição de seres criados para o bem. Acho que é para isso que os dias existem e se sucedem – para que a flor da vida desabroche uma vez mais e se espalhe, com o vento, o perfume que nos faz renascer e nos reconhecermos como iguais que somos, apesar de todas as diferenças, desinteligências e distâncias. Na verdade, somos um e somos o todo, uma grande estrela brilhante que se divide constantemente e gera milhões de pequenos cristais que cintilam intensamente, no céu da existência. Não podemos viver separados.

O último dia do ano tem uma virtude especial que nos convida à reflexão – não sobre o que de bom fizemos, que isso é praxe, é da obrigação. Mas, sim, sobre o que deixamos de fazer, por preguiça, por desídia, por acomodação, por arrogância. A quantas pessoas magoamos com nossa indiferença, com a nossa ausência, com a nossa falta de tato e de sensibilidade? Quantos amigos deixamos de ouvir porque não encontramos tempo nem ocasião para consolá-los em suas aflições cotidianas? Quantas vezes deixamos de abraçar e acarinhar nossos pais, filhos, irmãos e companheiros porque o ritmo alucinante de nossa jornada não nos permitiu pararmos um instante que proporcionasse aconchego e intimidade, entendimento e partilha?

Eis aí, caros e caras, queridos e queridas, a oportunidade! Uns minutos de meditação, hoje, podem ser preciosos para que amanhã, na aurora do ano novo, numa venturosa e encantadora manhã, fresca, clara e luzidia, nos permitamos um novo recomeço... Somos abençoados por contarmos com mais um dia, com mais um ano, para preenchermos a nossa vida e a dos que nos cercam com o que realmente importa – amor, solidariedade, esperança, trabalho, justiça, paz e harmonia.

Então, estes são os meus presentes de Ano Novo para vocês – amor, solidariedade, esperança, trabalho, justiça, paz e harmonia. São presentes do meu coração de estrela, Strellitziah. Strellitziah K. Dent. Faz algum tempo, um certo compositor fez uma canção para mim (ele nem sabe disso...). Na verdade, apossei-me dela, porque é linda. Hoje, eu a dedico a todos vocês, como um mimo, ao raiar do Ano Novo. É Estrela, de Gilberto Gil:

Há de surgir
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê sorrir
Há de apagar
Uma estrela no céu 
Cada vez que ocê chorar

O contrário também
Bem que pode acontecer
De uma estrela brilhar
Quando a lágrima cair
Ou então 
De uma estrela cadente se jogar
Só pra ver
A flor do seu sorriso se abrir

Hum!
Deus fará
Absurdos
Contanto que a vida
Seja assim
Sim
Um altar
Onde a gente celebre
Tudo o que Ele consentir



*Strellitziah K. Dent é consultora para assuntos sentimentais, vidente, astróloga, guru & assemelhados. Absolutamente do bem.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Leon


Morava naquele prédio há pouco tempo e, como acontece nas cidades grandes, não conhecia os vizinhos, com quem cruzava, eventualmente, nos corredores, saudando-os com um cumprimento cordial. Não sei exatamente quando comecei a notar uma presença que, aos poucos, foi se tornando marcante, talvez pela inusitada estampa da pessoa, talvez pelo seu procedimento sistemático. Ele morava no fundo do corredor, no mesmo andar.

Era um velhinho, cabelos brancos, abundantes, ondulados, bem penteados. A barba igualmente branca, maçãs do rosto rosadas, sorriso comedido e uns olhinhos... hum! pra lá de matreiros, que se sobrepunham aos óculos de armação redondinha! Vestia roupas comuns, simples, mas que lhe caiam perfeitamente, escondendo o ventre algo proeminente.

Eu saía para o trabalho, todos os dias a mesma hora, geralmente apressada, cheia de anotações mentais, preocupada com a agenda diária a ser cumprida. A primeira vez que o vi, entramos juntos no elevador. Cumprimentei-o e sorri. Ele apertou o botão e notei que segurava um saco de tecido em uma das mãos. Dobradinho. Descemos. Agradeci quando abriu a porta e saímos, cada qual para o seu lado. E assim sucederam-se os dias. Olá! Bom-dia! Como vai? Que dia lindo! Como está frio! Será que ainda vai chover muito?

Raramente o via quando voltava do trabalho, já que não tinha horário. Uma noite, já bem tarde, ao entrar no prédio, vi que ele também aguardava o elevador. Desta vez, devolvi a gentileza, apertando o botão do nosso andar, porque ele trazia o saco, que segurava com as duas mãos. Parecia pesado e ele, cansado.

Fiquei extremamente curiosa com aquela situação que virava rotina e indaguei ao porteiro quem era aquela figura. – Ah! É o Seu Leão. Desde que veio morar aqui, é assim... Saco vai vazio, vem cheio. É boa gente, sempre sozinho, a esposa já se foi, faz tempo. Não sei o que ele faz, não dá entrada pra conversa... Acho que é aposentado.

Na manhã seguinte, na mesma hora, no mesmo corredor, cumprimentei-o: - Bom-dia, Seu Leão! Ele sorriu e respondeu, com um sorrizinho travesso:- Bom-dia, mas não é Leão; é Lé-on, disse ele, fazendo questão de pronunciar o "e" bem aberto. - Ah! Como o Tolstoi, brinquei... – Isso! É o Jesus que me chama de Leão... - E a senhora, qual é o seu nome? – Sou Maria. – Lindo nome, como a Mãe do Nosso Senhor. Concordei e nos despedimos.

Assim foi, por meses. Na correria antes das festas de fim de ano, me dei conta que naquele dia não tinha me deparado com o Leon. Lendo as notícias na internet, uma, em especial, chamou minha atenção: “Idoso atropelado num cruzamento no centro – carregava saco cujo conteúdo ficou espalhado na rua”. Leon Pinheiro está hospitalizado no Divina Providência e chama por Maria... Li as últimas palavras já com a certeza de que a Maria era eu e voei para lá, com o coração na mão.

- Sou a Maria que o Seu Leon Pinheiro chama.

- É parente? – Não, sou vizinha. Ele não tem ninguém.

– Entre, então, porque ele não para de chamá-la!

Leon, deitado no leito, tinha cara de desespero profundo; a perna engessada. Quase não podia falar. Quando me viu, serenou, ensaiou um sorriso dolorido e puxou algo debaixo do travesseiro. – É a chave do apartamento. Entra lá e saberá o que fazer. Desde o dia em que pronunciou o meu nome, sabia que podia contar contigo. Saí e disse que voltaria, mesmo ainda em dúvida de que missão me havia sido delegada.

Entrei silenciosamente no apartamento de Leon. Tudo imaculadamente limpo. Fui de aposento em aposento, até me deparar com um quarto cheio de sacos. Sacos cheios! Um, dois, três... 365 sacos! Em cada um, havia a anotação, em letra caprichosamente traçada: Para os meninos do Presídio Central; para as meninas do Lar de Miriam; para as crianças do Hospital Santa Casa; para as vovós do Asilo Padre Cacique... E assim fui lendo, como pude, as mais de três centenas de bilhetinhos, porque as lágrimas teimavam em cair, embaçando a minha visão...E em todos, uma assinatura: Papai Noel. Claro! Papai Le-on!

Pedi ajuda a amigos, parentes, vizinhos, para que os sacos de Papai Leon chegassem, sãos e salvos, ao seu destino. Ao retirar o último, notei que um pequeno saco tinha ficado no chão e me abaixei para pegá-lo. Parecia vazio. Também tinha um bilhetinho: Para Maria, do Papai Noel. Abri, curiosa, e dentro encontrei outro saco, igual aos de Leon. Entendi a mensagem – ele tinha me tornado parceira de sua missão, antes mesmo de saber que não poderia completá-la sem a minha ajuda.

No dia de Natal, fui visitar Leon e o encontrei sorridente, recuperando as energias. Já o tinha avisado da missão cumprida. Fui desejar-lhe Feliz Natal e mostrar que a parceria havia sido aceita – levei 365 sacos, iguais aos dele, pronta para imitá-lo na mais gloriosa jornada que alguém pode empreender – a da solidariedade!


Desejo a todos um feliz e abençoado Natal e que em seus corações reservem um espaço para a solidariedade – seja a de um sorriso, a de um aperto de mão, a de um abraço ou a de uma pequena lembrança que traduza o seu carinho para quem nada tem. Também sou Maria. Nivia Maria, como minha bisavó, minha avó e minha mãe. Também conheci um Leon, meu pai, Luiz Carlos. Eles me ensinaram a ser solidária. A historinha fica por conta da minha emoção e da arte maravilhosa de juntar as palavras, dando-lhes um sentido. E escrevendo-as com amor. Todas as palavras que eu juntar ainda vão ser poucas para traduzir o agradecimento a todos vocês, queridos amigos, que me brindaram, neste ano, com o melhor presente que alguém que escreve pode receber – a sua atenciosa leitura!

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A graça da coisa


“A Graça da Coisa” é o título do novo livro de Martha Medeiros, uma cronista de mão cheia, sensível e perspicaz, mestra em perceber pequenos detalhes da vida cotidiana e, com eles, escrever deliciosas histórias. Como bem coloca Fabrício Flores Fernandes, doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp e pós-doutor pela UFPI, “são necessárias sensibilidade e perspicácia para desentranhar um tema aparentemente banal e é essencial o domínio das técnicas da escrita para transfigurar esse acontecimento e materializá-lo em arte”. Pois é, Martha faz arte com a palavra, utilizando temas do cotidiano, como na crônica abaixo, publicada no Caderno Donna de ZH no dia 22 de setembro, em que a autora propõe um modo de viver mais leve, sem o cerceamento do politicamente correto que vige em todos os nossos atos. Vale a pena ler:
A GRAÇA DA COISA


“Tem quem não consiga enxergá-la de jeito nenhum, o que para mim é o mesmo que nascer sem um pé ou sem uma orelha. Quem não vê a graça da coisa, vive com um pedaço faltando. Nada que impeça o sujeito de acordar, trabalhar, viajar, mas é chato. 

A graça da coisa está em quase tudo, só que é preciso ter um olhar aberto e curioso para percebê-la, pois nem sempre ela fica evidente. Às vezes, exige leitura de entrelinhas, bom manejo da ironia, benevolência com o sarcasmo. É onde está a graça da coisa. Mas, por sorte, ela não costuma ficar escondida. E até é bem exibida. 

Um filme B, daqueles que é puro lixo, pode se tornar Cult se for assistido sem emburramento por uma plateia a fim de diversão. 

Um amigo resolve colocar os pés na cozinha pela primeira vez e o resultado é a pior massa grudenta da história. Que tal um sarau lá em casa para a gente cantar as músicas de acampamento dos nossos 16 anos? Sim, ao violão, todos bem desafinados. 

Ela ronda por aí, nas aparentes roubadas que se tornam inesquecíveis por motivar tantas gargalhadas. 

O que impede a graça da coisa de circular mais livremente é o excesso de seriedade que tomou conta do mundo. Esse tal de politicamente correto, então, é um inimigo declarado da graça. E os que não se desapegam do próprio ego também. Eles ficam de um lado, se achando, e ela fica de outro, boquiaberta: qual o sentido de se dar tanta importância? 

A graça da coisa está justamente nas desimportâncias. 

Quanto menos obsessão por elogios, por cargos e por poder, mais livres ficamos para reparar nas pequenas nuances por trás das afetações. Em tudo na vida há uma centelha de inocência que corrompe nossa rigidez e permite a entrada de uma alegria descompromissada e renovadora. A graça da coisa não tem assento reservado em camarote Vip nem lugar no pódio dos campeões, ela é simplesmente a piada espontânea surgida nos bastidores. 

Há que se zombar da vida maluca que levamos e procurar a graça da coisa em nossas fracassadas investidas amorosas, nos erros em que nos viciamos, nas discussões de relação que sempre se repetem, nas tentativas de aparentarmos sabedoria, nas rugas que tentamos suprimir puxando a pele com as mãos em frente ao espelho, em nossos defeitos favoritos, nas reprises das brigas familiares, no nosso saudosismo meio brega, no nosso vocabulário do tempo do onça. Em tudo há uma graça infantil, uma consciência comovente das nossas impossibilidades. É só desempinar o nariz.“

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A missão do jornalista


Interessante e instigador o artigo de Moisés Mendes para o jornal Zero Hora de domingo, 29 de setembro, na seção Opinião, acerca do livro da jornalista Sílvia BittencourtA Cozinha Venenosa - Um jornal contra Hitler. É um libelo e um aviso aos maus jornalistas que privilegiam a civilização do espetáculo e abandonam a sua missão de informar com seriedade. Serve perfeitamente para os ditos jornalistas da província... 

A cervejaria dos nazistas

moisesMOISÉS MENDES*
moises.mendes@zerohora.com.br
"Bebe-se e come-se na cervejaria Hofbräuhaus, em Munique, como num salão paroquial. Bancos e mesas são enormes, e todos sentam-se misturados, moradores e turistas. É como se a Alemanha subvertesse, naquela fuzarca, com brancos, pretos, amarelos, gente de todo jeito, sem separações, a ideia de um país à parte do resto do mundo _ como muitos pensaram que seria possível nos anos 30 e 40 do século 20. Tomei cerveja quente num caneco da Hofbräuhaus há 15 anos. Lembro bem do ambiente barulhento da cervejaria de quatro séculos, da fachada de arcos medievais.

Mas eu queria mesmo ter bebido em outra cervejaria, a Bürgerbräukeller, que não existe mais. Era a cervejaria de Hitler, onde ele discursava, onde se tornou líder do partido trabalhista, voltava todos os anos para comemorar uma tentativa de golpe contra o governo da Baviera e onde escapou de um atentado a bomba em 1939. Hoje há um hotel na área da cervejaria que alegrava os nazistas.

Hitler gostava de discursar em cervejarias, por onde andavam também os repórteres do Münchener Post. Os alemães devem o resgate da memória desses jornalistas a uma brasileira. A jornalista Sílvia Bittencourt, que mora desde 1991 em Heidelberg, escreveu A Cozinha Venenosa _ Um jornal contra Hitler (Editora Três Estrelas, Grupo Folha). Ainda não li o livro, mas já li tantas resenhas e entrevistas e conversei pela internet com Sílvia, que tenho a sensação de que estive muitas vezes na Bürgerbräukeller.

É um livro para comover a todos, mas para mexer mesmo com jornalistas jovens e veteranos em dúvida sobre a relevância do que se faz hoje, nessa feira de informações em que notícias sobre a espionagem de Obama disputam o mesmo espaço com notas sobre o casamento da mulher melancia ou o porco de duas cabeças.

Os repórteres do Münchener foram os primeiros a noticiar, em 1920, que um certo senhor Hitler andava impressionando os frequentadores dos fundos de uma cervejaria envolvidos na criação de um partido. Hitler tinha 30 anos, era cabo do Exército, pintava paisagens terríveis e estava ali, como infiltrado das forças armadas, para saber o que aqueles homens articulavam. O Münchener avisou que o partido e o militar que virou pregador defendiam ideias racistas. Hitler ainda era um militante miúdo.

Em 1923, o jornal publicou uma nota sobre o projeto de Hitler para o que seria, menos de 10 anos depois, o início da eliminação dos inimigos da pureza ariana _ judeus, ciganos, negros, pessoas com deficiência, homossexuais.

Num erro de avaliação, os repórteres comemoraram a prisão de Hitler, ainda em 1923, depois do fracasso da tentativa de golpe. Hitler saiu da cadeia, nove meses depois, e passou a perseguir o jornal. O Münchener _ uma cozinha de venenos, na definição do ditador _ foi destruído pelos nazistas. Alguns jornalistas fugiram e outros foram mortos, quando o cabo finalmente chegou ao poder.

O livro de Sílvia não foi feito só para jornalistas. Mas todo repórter deveria ler histórias edificantes com algum fundamento, para não confundir qualquer outra coisa parecida com jornalismo, com cara de jornalismo, que não é jornalismo.

A mais nobre missão do jornalista ainda é a mesma dos rapazes de Munique: remexer no que se camufla e se esconde e informar o que gente miúda ou graúda, como Hitler, Médici, Pinochet, Bolsonaro e Feliciano, tramavam ou tramam em cervejarias, quartéis, saunas e bordéis."

*Jornalista

sábado, 28 de setembro de 2013

O inquietante perfume de cravos


A escritora Arlete Gudolle Lopes acaba de lançar o seu primeiro livro – O inquietante perfume de cravos – Contos de amor e vida. Sim, são trinta histórias de amor e vida, contadas por alguém que ama a vida, que vive a vida plenamente, que conhece o êxtase e a dor de viver de forma intensa e apaixonada cuja sensibilidade se derrama para além de qualquer limite, incontida, irrepresável. E daí, escreve, pinta e borda e arma a teia com seus fios de seda para tecer narrativas, às vezes luz, às vezes só sombras. Porém, tanto no lume quanto na escuridão, as cores são berrantes, não há lugar para o meio-tom. Vermelho e negro, como a capa que envolve, amorosa e lindamente, o livro.

Pois bem, o primeiro grande valor dessa obra reside, justamente, na coragem de expor sentimentos e sensações os mais diversos, conforme manda a mente que comanda a mão e eles surgem, aos borbotões, sem pedir licença e inundam e transbordam e sufocam o leitor mais desavisado que, ao mergulhar na leitura, não pensava nem tencionava reconhecer-se com tanta profundidade e similitude nas páginas de um livro de contos. Daí a estranheza primeira e a não menos importante segunda e óbvia constatação: Madalena, Waleska, César Augusto, Maria Cecília, Maria Júlia, Estêvão, Lindalva, José Francisco, Elenice, Maria Helena, Eduardo, Aléksia, Narciso, Hanna, Mayara, Milena, Adeline, José Antônio, Ana Lúcia, Luís Artur, Fábio, Lharissa, Maciel, Pedro Henrique, Solange, Liana, Márcia Cristina, Marco Antônio, Daisy, Katherine, Rafaela, Maria Regina, Fabíola, Frederico, João Vicente, Ana Maria, Maria Teresa, Clarisse e Anita, Natália, Henrique, Luís Afonso, Ivanna, Vanessa, Cármen Valéria, João Vicente, Moisés, Guilherme, Carmine, Valéria, Jackeline, Carlos Afonso, Daniele... sou eu, somos nós, transubstanciados nos milhares de matizes das palavras de Arlete, que vive e sabe ler a realidade de cada um e de todos, captando os conflitos universais da alma humana com engenho e arte!

Essa formidável avalanche de emoções se faz acompanhar de outro grande e importantíssimo valor – o literário, que encontra na forma e no estilo outro transbordamento, já que a autora é especialista na língua e faz uso do vernáculo com maestria, construindo histórias primorosas, de urdidura engenhosa, milimetricamente planejadas, observando a estrutura desse gênero narrativo tão difícil de compor que é o conto. Arlete faz com que exista algo especial na representação daquele recorte da vida que gera o conto – o flagrante de um determinado instante que, pela novidade, pela surpresa, pelo inusitado, pelo trágico ou pelo cômico de uma situação, possa interessar e prender o leitor. Dona de uma expressão verbal incomum, Arlete oferece, ainda, ao leitor, a possibilidade de ampliar e qualificar significativamente o vocabulário, apropriando-se de termos que não são utilizados no linguajar cotidiano, além de propor a discussão de temas atualíssimos e polêmicos que tensionam as relações pessoais na sociedade contemporânea.

Há uma passagem, no conto Cartas de amor, de rara beleza, que compara os seres humanos com as borboletas. É pura prosa poética, como quase todo o livro, uma alegoria brilhante e encantadora que faz jus ao subtítulo – Contos de Amor e Vida, que mostra como a existência é fugaz se não for vivida apaixonadamente:

“Existe, em cada pessoa, um pouco de borboleta. Há seres que nascem crisálidas e vão se transformando aos poucos, embelezando-se quando mais se aprimoram a sua essência. Outros nascem belos, coloridos, radiantes, até que vão murchando. Lentamente. Do seu constante definhar, deles, só resta o casulo, o lado mais feio do belo inseto, que nasce e morre junto aos passantes distraídos, num rápido bater de asas. Tal como a metamorfose que sofre a borboleta, viver é um fato e um ato de renovação permanente. Morre antes quem não aceita viver intensamente em vida ou se recusa a aceitar o bom e o ruim, o alegre e o triste, o crime e o perdão. Tudo misturado, formando o amálgama trivial de que somos feitos: nervos, fibras, carne e osso, sangue, suor e lágrimas. A carcaça pode não ser bela se o interior é radiante. A palavra pode ser cruel se for dita com a mordaz intenção de ferir. Um olhar mais penetrante, um sorriso inesperado, uma atitude compreensiva ou uma palavra sussurrada ao vento podem contribuir para a cura de corações dilacerados. Um bom dia proferido com ênfase pode ser de bálsamo a quem se sente só mesmo estando rodeado de faces que riem, mas se mantêm inexpressivas, murchas, desprovidas da seiva da vida...”

Por fim, há outra peculiaridade marcante em O inquietante perfume de cravos que o torna ainda mais saboroso e encantador – a forma como a obra tem chegado até o leitor, diretamente das mãos da autora, através de uma “visita cultural” agendada! Poder-se-ia até pensar que é uma estratégia de marketing, mas trata-se de uma atitude racional para que o livro se viabilize economicamente e possa ser degustado por muitas pessoas, afinal, a Terra dos Poetas ainda carece de mais livrarias, quiosques e pontos de venda de livros. A ideia e sua consecução são magníficas, acompanhadas, sempre, de uma boa conversa, afeto e muito calor humano!

Et bien sûr, estamos sedentos por mais histórias, Mme. Gudolle Lopes! 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O segredo dos gaúchos


Existe um povo que canta mais do que fala. E fala palavras que ninguém entende.

Existe um povo que se veste de maneira estranha. Homens usam calças largas, botas e chapéus engraçados. Além do lenço amarrado ao pescoço... Mulheres usam vestidos compridos, rodados e cheios de frufrus, mesmo durante o dia. Nem as crianças escapam da inusitada indumentária.

O mais intrigante é que tais vestes são usadas com orgulho e tornam, homens e mulheres, muito elegantes, altaneiros, garbosos. É a tal da pilcha. Será esse o segredo?

Curiosidades a marcar os costumes heterodoxos desse povo são inúmeras. Um exemplo claro é um pequeno porongo que abriga um pozinho verde, onde se coloca água quente para obtenção de um líquido fumegante, sorvido através de um canudo de prata e ouro, cheio de pedras brilhantes...Um grupo de pessoas se reúne para tomá-lo, coletivamente, entre conversas ininteligíveis, gritos e risadas. Talvez aí resida o segredo dessa gente, um pozinho verde, que as torna alegres, amistosas, cheias de vida e de saúde. Deve ser muito bom o tal do pó, porque toneladas d’água são usadas, todos os dias do ano, para o ritual. E o nome da coisa é chimarrão, e o pozinho precioso é erva-mate, para quem nunca ouviu falar.

Interessante ressaltar que esse povo ama as suas tradições, não se envergonha de demonstrar amor pela terra em que vive. Gosta de dançar em grandes galpões, ao som de gaitas e violões, chegando a fazer pó no chão batido, que precisa ser molhado para baixar a polvadeira, de hora em hora. É bom lembrar que o traje é imperativo! Minissaia, calça de brim e tênis, nem pensar! Impressionante a resistência desses casais. Começam a dançar às sete da noite e só param quando a manhã já é desabrochada. Deve ser muito bom! Será que aí mora o tal segredo?

Comida então, nem se fala. É pura extravagância! Imagine que cavam um buraco no chão, tocam fogo e assam carne o dia inteiro. E comem o dia inteiro! É por isso que o rebanho, por estas bandas, nunca para de crescer! Tudo por um bom churrasco... Já entendi qual é o segredo!


Por essas razões e por muitas mais é que o povo gaúcho tornou-se ímpar. Por suas peculiaridades que fazem a diferença. Pelo orgulho com que demonstra suas origens. O sotaque, a vestimenta, o chimarrão, o bailado, o churrasco são apenas manifestações externas. Não falemos de guerras, façanhas ou conquistas... Falemos de amor à terra e solidariedade! Brilhante é a alma, forte o sentimento, absoluta e profunda a paixão... eis o segredo dos gaúchos!

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Juízo Final: você sabe quem está julgando?

Publicado no jornal O Globo de 18 de setembro de 2013

ROBERTO DA MATTA
"Escrevo no domingo e sem onisciência, não sei se vamos ter ou não ter os tais embargos infringentes que promovem o esquecimento e revogam os crimes. Embargos que algumas almas brasileiras estão certas de que terão o direito de invocar até mesmo no Juízo Final. Aliás, por que não ter também embargos no futebol, na pobreza, na fome e quando sabemos do roubo do nosso dinheiro por autoridades que embargam, como malfeitos triviais, crimes da mais alta gravidade?
Sem saber o futuro, comento a sessão do STF que terminou num empate significativo. Acompanhei os argumentos do ministro Marco Aurélio Mello rebatidos pelo ministro Luiz Roberto Barroso com requintada veemência ─ esse estilo nacional de matar com luvas de pelica ─ que faz parte de nosso modelo de discussão entre autoridade que vem sendo sufocado por um avassalador viés igualitário.
Entre nós, o culpado é a vítima. É a mulher que compele ao estupro; é a criança que demanda a surra. O ladrão do dinheiro público (que rouba, mas faz) e o populista convencido de que sabia como transformar o Brasil e que articula um plano para comprar o Congresso Nacional, traindo a democracia, como foi o caso desse “mensalão”, são sempre vitimas indefesas, sujeitos à fúria da multidão. “Mensalão”, aliás, é um eufemismo. O que ocorreu foi uma deslealdade para com o direito de competir pelo poder. Violou-se a promessa de honrar os cargos concedidos pelo povo em eleições livres.
Por mais que um regime legal ajude os poderosos. ele não anula os crimes. Não foi o STF que produziu o mensalão, foram as manobras delinquentes dos membros da cúpula governamental petista que, descobertas, acionaram o Supremo. Esse tribunal moralmente soberano e isento (no sentido de ter consciência dos seus conflitos de interesse) que é, além de tudo ─ e esse é um ponto crucial da dinâmica institucional brasileira ─, o limite e a fonte central da nossa legitimidade democrática. O STF é (ou seria) o ponto final de que, mesmo no Brasil, há uma fronteira definitiva entre a malandragem e a traição aos princípios democráticos.
Como proceder quando os crimes não foram cometidos por indivíduos sem eira ou beira, mas pela própria elite no poder? A isonomia é a maior dificuldade de um sistema relacional ─ uma sociedade grávida de hierarquias e de brutais desigualdades formais e informais entre seus membros. Entre nós a lei é relativa. Temos uma inconcebível multidão de polícias, leis e regimes jurídicos. O crime sai da curva dependendo do seu autor. Para tanto, nossos legisladores regram sem a preocupação com contradições, criando as brechas que são o apanágio de quem tem bons advogados e possui sólidos laços com o poder.
Marco Aurélio Mello denunciou com seu saber e para a minha perplexidade que “o sistema não fecha”. Optou pelo bom senso. Bom senso que tem a ver com o serviço que presta aos seus semelhantes, sem o que nem ele nem o STF teriam legitimidade. Já o ministro Barroso segue no rumo oposto. Ele rejeita as “manchetes” e a opinião pública, mas ─ em compensação ─ personaliza inconscientemente os valores do velho familismo brasileiro. Pois, imaginando que individualizava, deu um exemplo tirado do fundo do nosso patrimonialismo. E se forem réus o seu filho, pai ou irmão ─ perguntou ─ como você decidiria ao saber que há um recurso? Para o egrégio ministro Barroso, a resposta seria um seco e óbvio a favor do réu. Pouco se vê, penso eu que nada entendo de Direito, uma tese que tão claramente abandona a avaliação dos crimes e focaliza a vulnerabilidade dos réus diante do fantasma de uma multidão.
Interpretar não é fácil. Primeiro, porque não há nenhuma multidão pedindo o sangue dos mensaleiros os quais tiveram amplo direito de defesa. Depois porque o que se busca já faz tempo é isenção e justiça. Essa justiça nacional que tarda e, lamentavelmente, falha quando aplicada aos poderosos.
Fazer justiça é realizar o duro esforço de discernir o valor englobante. No caso em pauta, o valor englobante vai ser conjunto de delitos que originou o caso, o qual é tanto mais grave quanto mais ele implicou pessoas com papéis públicos de suma responsabilidade, como a chefia da Casa Civil da Presidência da República; ou vai ser uma norma formal e ambígua? Essa é a questão.
Se houver adiamento confirma-se o peso do “você sabe com quem está falando?” no STF. Na cartilha do personalismo que aristocratiza e distingue, contra a lei universal que iguala e nivela; iremos despir um quesito muito mais grave e vergonhoso: o “você sabe quem está julgando?” Se for a elite política, vale tudo; se for uma pessoa comum, condene-se sem embargos.
PS: Essa crônica é para a Lívia Barbosa."
Meu comentário: Admiro cada vez mais o sociólogo Roberto da Matta, um homem do seu tempo, que conhece profundamente a alma brasileira e, por isso, sabe avaliar com precisão assombrosa todas as atitudes, quer dos poderosos, quer do mais simples homem do povo. Vale a pena ler!

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A arte de escrever e falar bem


É incrível como as pessoas desprezam a arte de escrever e falar bem. Há algum tempo, José Saramago disse, do alto de seu talento e experiência: "Hoje, existe uma espécie de menosprezo por essa coisa tão simples que antes era falar com propriedade. Quando eu era trabalhador, sempre tinha as ferramentas limpas e em bom estado. Não conheço uma ferramenta mais rica e capaz que o idioma. E isso significa que se deve ser elegante na dicção. Falar bem é um sinal de pensar bem". Acrescento, ainda, que escrever bem é uma condição inarredável para a credibilidade, a liderança e o sucesso de qualquer profissional, seja político, médico, jornalista, advogado, engenheiro, matemático ou professor de Português.

É lamentável que não se dê importância a algo tão elementar. Mais ainda quando sabemos que a comunicação move o mundo e quem não habilitar-se com competência não tem chance, está fadado à mediocridade e ao desaparecimento. Precisamos ser capazes de convencer e não de vencer. Vence-se normalmente com a força e convence-se habitualmente com as palavras e a razão. Escrever e falar bem são armas de altíssimo calibre que diferenciam um sujeito na multidão. Acrescentam poder.

E não nos damos conta de que existe, ainda, uma habilidade muito maior em significância - a de saber escutar. Como muito bem falou Bolívar, "quem manda deve ouvir, ainda que sejam as mais duras verdades e, depois de ouvidas, deve aproveitar-se delas para corrigir os erros". Por suposto, aí está a chave do desenvolvimento do ser humano ao longo de sua história. Pelo menos daquelas pessoas que têm sensibilidade para perceber o alcance desta competência.

Escrever e falar bem, assim como saber ouvir credenciam o sujeito a desenvolver outra habilidade preciosa – ter olhos para ver além do horizonte, percebendo antecipadamente o que se desenha. Há mais tempo Saramago escreveu, em seu Memorial do Convento, “O mundo de cada um é os olhos que tem”.

Atentem, ainda, para uma situação peculiar: há pessoas que são especialistas em usar a palavra para expressar o que pensam e dispõem de espaço qualificado na mídia, que atinge milhões de pessoas. São formadores de opinião – cultos, sensatos, experientes, equilibrados e por isso, acreditados. Também leio o que escrevem e os admiro, às vezes por sua coragem, outras por sua ousadia e sempre por sua capacidade de bem escrever e ordenar racionalmente as ideias. É o que chamo de arte do texto.

Porém, há certos dias em que lhes lastimo o pensamento infeliz grafado numa palavra mal-dita. Quem escreve para muitos e sabe que atinge milhões de leitores não pode se dar ao luxo de perder a temperança e a lucidez, externando opiniões que geram máxima polêmica e ainda provocam sofrimento em quem é atingido pela palavra mal-posta. Ainda mais quando o escrevente se arvora em mago e adivinho, tratando de antecipar decisões em curso. Aí, senhores do belo texto, lhes retiro toda a brilhatura e lhes casso os elogios abundantes, sobrando apenas a atenuante de que também vivem sob a humana condição de errar e são tão passíveis de erro como nós, simples aprendizes, na arte de escrever e de viver.

De outra parte, quem escreve mal e se esconde nos meandros da soberba e da arrogância, acreditando-se poderoso, utilizando o veículo de comunicação como escora de sua prepotência, este, pode esperar, que a sua hora vai chegar. É certo e veloz o castigo para quem se arvora em ser dono da verdade, tudo pode antecipar e o faz, através do poder da palavra, que os torna arrogantes, insensíveis, inatingíveis. Não o castigo dos molestados pelo poder da palavra, mas o castigo interior, da própria vida, o castigo da alma, aquele que nos faz menores como pessoas.

Então, senhores da palavra, moderação, humildade e modéstia são qualidades sempre bem-vindas e que constantemente devem ser exercitadas, ainda mais nesse ofício tão exposto e árduo que é o de comentar sobre a vida e sobre os viventes! Para quem escreve, palavra é arma. Dependendo do combate e dos detratores, faca de dois gumes.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

70ª SOEA e 8° CNP


Estamos participando, em Gramado, RS, da 70ª SOEA – Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia e do 8° CNP – Congresso Nacional de Profissionais, que acontece de 09 a 14 de setembro, no Serra Park, uma realização do CONFEA e do CREA-RS. O evento é grandioso e conta com a participação de mais de 3.600 profissionais das áreas de engenharia, agronomia, geologia, geografia, meteorologia e atividades afins, vindos de todos os estados brasileiros.

A delegação de Santiago é composta pelos engenheiros civis Gustavo Peixoto, inspetor regional do CREA; Carlos Juarez Vaz, inspetor-adjunto e Sissi Jaqueline Flores da Silva; o engenheiro florestal e presidente da SEAGROS João Mayer Lara, o engenheiro agrônomo Vulmar Leite, conselheiro do CREA e o geólogo Nilo Espíndola.


Credenciada como jornalista, tenho acesso a todos os eventos que acontecem no Serra Park. Ontem, à tarde, assisti palestra do ex-governador Germano Rigotto, que falou sobre Os Desafios do Atual Cenário Econômico Brasileiro, tema que ele já havia desenvolvido recentemente, no dia 19 de junho, no Ideias na Mesa, do Centro Empresarial de Santiago. Rigotto falou sobre as estratégias competitivas de desenvolvimento que devem ser adotadas para que o Brasil possa firmar-se como grande potência no cenário econômico internacional, superando crises e buscando soluções de gestão competente e competitiva.


Ao anoitecer, na abertura oficial do evento, aconteceu show do Guri de Uruguaiana, que continua fazendo grande sucesso com a variação criativa do tema Canto Alegretense, criação da família Fagundes que completa 30 anos em 2013 e tornou-se um hino do Rio Grande. Agora, todo mundo sabe onde fica o Alegrete...


Na cerimônia oficial de abertura, foram homenageados profissionais da área de Engenharia e da Agronomia que se destacaram por seu trabalho e contribuíram para o desenvolvimento do país. Foi condecorado, in memoriam, o engenheiro militar Luiz Carlos Prestes, o revolucionário Cavaleiro da Esperança, representado por sua filha, Anita Leocádia Prestes, que foi aplaudidíssima pela plateia e emocionou os presentes com o seu discurso, representando todos os agraciados.


Hoje, 10 de setembro, pela manhã, a primeira palestra foi proferida pelos engenheiros Raul Tadeu Bergmann, diretor da Associação dos Engenheiros da Petrobras e de Fernando Siqueira, vice-presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras, que falaram sobre o Pré-Sal – Oportunidade para a Redenção do Brasil, assunto atualíssimo, palpitante que enseja muitas discussões no sentido de que é necessário preservar essa riqueza incalculável nas mãos dos brasileiros, evitando que os lucros advindos da exploração do pré-sal caiam nas mãos de conglomerados de empresas estrangeiras. Ainda há muito a fazer, em termos de regulação, advertiram os palestrantes, que são engenheiros aposentados da Petrobras.


Mas a melhor palestra do dia esteve a cargo do ministro recentemente aposentado do Supremo Tribunal Federal, Dr. Carlos Ayres Brito, que lotou as dependências do Auditório Master e a todos encantou com a sua sabedoria, brilho pessoal e simpatia. Ayres Brito falou sobre o tema A Ética nas Relações Humanas, Políticas e Profissionais. Exemplo de postura ética o ex-ministro deu na denominada parábola das garças, contando que, quando morava em Aracaju, de seu apartamento situado no 15° andar de um prédio, entre o mar e o mangue, podia divisar e observar o cotidiano de bandos de garças que, ao entardecer, pousavam delicadamente no ninhal do brejo que era seu dormitório, zelando para que sua alvacenta plumagem jamais tocasse no mangue e ficasse maculada pela lama do substrato. Da mesma maneira, ao alçarem voo, pela manhã, o mesmo cuidado tomavam as brancas aves de não se sujarem, conservando as penas imaculadas... Assim, disse o ministro-poeta, lembrando que agir com ética significa, para os homens, detentores de poder ou simples viventes, jamais agirem de maneira a enlamear os seus valores morais e éticos. Lembrou, também, que não há corrupção somente na área política, o povo também é corrupto e corruptor...

Instado a falar sobre a AP 470, popularmente conhecida como mensalão, o ex-ministro eximiu-se de opinar, justificando que o julgamento ainda não acabou, restando, ainda, a análise dos embargos infringentes e que a sua tarefa encerrou quando deixou o tribunal, por motivo da aposentadoria compulsória. Quando perguntado se poderia candidatar-se a cargo eletivo, disse que não pretende concorrer a nada. Escolheu ser juiz, cumpriu a sua missão e agora, tem um escritório de pareceres jurídicos e faz palestras por todo Brasil e no exterior.



Enfim, quando fala Ayres Brito, as palavras também viram poesia e o tempo voa. Foi muito prazeroso ouvi-lo.


O presidente da SEAGROS Santiago, engenheiro florestal João Mayer Lara (dir.),
durante o evento que acontece em Gramado

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Reflexões


Martha Medeiros, escritora festejada e excelente cronista de Zero Hora, nos ofereceu, certa vez, no Caderno dominical Donna, um texto comovente por sua profundidade e sutileza, suscitando uma série de indagações - O último a lembrar de nós. Martha faz referência ao livro de Amós OzRimas da Vida e da Morte, em que o autor comenta, a certa altura da narrativa: "A gente vive até o dia em que morre a última pessoa que lembra de nós. Pode ser um filho, um neto, um bisneto ou um admirador, mas enquanto essa pessoa viver, mesmo a gente já tendo morrido, viveremos através da lembrança dele. Só quando essa pessoa morrer, a última que ainda lembra de nós, é que morreremos em definitivo, para sempre. Estaremos tão mortos como se nunca tivéssemos existido."

Esta crônica deve ter mexido com a sensibilidade de muitas pessoas, não só com a minha, por suposto. O que fazemos para preservar a memória das pessoas a quem amamos e já partiram? Lembramos delas constantemente, só no nosso coração, onde estão instaladas para sempre, ou fazemos questão de lembrá-las aos filhos, sobrinhos, netos, bisnetos, amigos comuns e admiradores?

Lendo a crônica da Martha, lembrei-me de meu pai e de como fazemos questão, em família, de perpetuar sua memória, de tão boas lembranças, ações e atitudes. Só um de meus nove sobrinhos conheceu o Avô Luiz - a Marcela, ainda muito pequena, tinha só três anos quando ele faleceu. Mas todos sabem como o avô era, o que ele fazia, do que ele gostava, o que ele nos ensinava. Sabem mais - podem sentir a felicidade que o avô teria se pudesse conhecê-los e conviver com eles, tal a força do amor deste homem a quem tivemos a honra de chamar de Pai! Talvez seja por isso que, mesmo de maneira inconsciente, frequentemente me refiro a ele, em meus textos, exaltando suas qualidades e relembrando alguns momentos marcantes de nossa convivência...

Martha, em seu texto, também refere que grandes músicos, cineastas, escritores e gente que se notabiliza por alguma razão específica conseguem uma "imortalidade estendida", mas serão sempre lembrados "por sua imagem pública, não mais a privada - não mais a lembrança da voz ao acordar, da risada, do bom humor ou do mau humor, não mais daquilo que lhe personificava a intimidade..."

E fiquei a pensar. Nós somos mesmo muito passageiros, efêmeros, medíocres - Vivemos num mundo cheio de competição e violência e dele não vamos levar nada. Muitos não vão deixar nem mesmo alguma lembrança do que foram na intimidade, porque não tiveram tempo de construí-la.


E você, o que está fazendo por sua memória? Vivendo a vida em todo o seu esplendor, compartilhando bons e maus momentos, exercitando a solidariedade e a compaixão, lutando bravamente contra a injustiça, ajudando a construir a paz e a harmonia? Ou prefere que as folhas do seu livro permaneçam intocadas?

domingo, 9 de junho de 2013

Concerto Especial n° 24, Op. 733



Ontem à noite vivemos momentos de enlevo e encantamento no Concerto Especial n° 24 Op. 733, promovido pelo Clube de Música Amigos de Beethoven, no Auditório da Escola Cristóvão Pereira. Tivemos o privilégio de ouvir música da melhor qualidade, executada por artistas que amam o que fazem e, principalmente, têm prazer em dividir e compartilhar o seu talento com a comunidade, de forma gratuita e generosa.

Juliano Fank Saldanha e Ana Luiza Saldanha Andres (piano); Diogo Bonatto Cardoso (violão); Andrea Loreto Peres (flauta); André Peixoto Isaia (violino) e o barítono Guilherme Rosa, que encantou a todos com a sua preciosa voz, foram os festejados concertistas!

Santiago e sua gente merecem mais oportunidades de fruir cultura da melhor qualidade como a que tivemos ontem!

Temos que agradecer ao Clube de Música Amigos de Beethoven essa rara e magnífica ocasião! Parabéns, também, à direção da Escola Cristóvão Pereira por ceder o espaço para a realização do concerto!

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A cerca da natimorta campanha do governo para edulcorar a vida das prostitutas, vale a pena ler:


“Há frases, versos, ditos, cujo autor não tem ideia de como se tornam necessárias para definir os tempos. Uma que repito muito – et pour cause – são os versos de Bilac: 

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! Não verás nenhum país como este!

Não verás mesmo. Alguém já viu algum governo no mundo incentivar a prostituição? Até mesmo na Suécia dos anos 70, quando a prostituta era vista como uma espécie de terapeuta ou assistente social, os suecos não foram tão longe. Nos países escandinavos, na Alemanha e Holanda, as moças gozam de uma série de proteções. Daí a terem sua profissão louvada como fórmula de chegar à felicidade, vai uma longa distância.

Il nous faut de l’audace, encore de l’audace, toujours de l’audace – dizia Danton – como condição de salvação da França. No Brasil, audácia é o que não falta. Lemos nos jornais de ontem que o ministério da Saúde lançou uma campanha nas redes sociais para reduzir o estigma em torno da prostituição. Uma das peças diz: "Eu sou feliz sendo prostituta" e tem profissionais do sexo como protagonistas. 

Composto por vídeos e banners – dizem os jornais – o material é fruto da oficina de profissionais do sexo realizada em março passado em João Pessoa, que tem como mote "Sem vergonha de usar camisinha". Elaborada para marcar o Dia Internacional das Prostitutas, sábado passado, a campanha - que retrata positivamente a profissão - foi bem recebida por feministas e grupos que trabalham com prevenção. Só faltou perguntar às moças o que pensam do que pensam os que por elas pretendem pensar.

Não tenho nada contra a prostituição. Pelo contrário, sempre defendi o ofício. Sempre mantive bom comércio com elas e sempre que pude as tratei com carinho. Até hoje, algumas amigas daqueles dias - já aposentadas da “noite”, como diziam – ainda me telefonam para rememorar o tempos passados. Naquela época de bordéis, era de praxe namorar um pouco antes de ir aos finalmentes. Hoje, o ofício taylorizou-se. Marca-se encontro por telefone, sem o vis-à-vis, com hora de entrada e saída do quarto. 

Faltou assessoria ao ministério da Saúde. Afinal, poderia ter citado defensores ilustres da profissão. Falando delas, já dizia Demóstenes: "Casamos para ter filhos legítimos; temos concubinas para o vulgar trabalho doméstico; e hetairas para o prazer do amor".

Ao fazer o panegírico de Sólon, que regulamentou a milenar profissão, disse Filemón: "Com semelhante instituição, tiveste em mira, apenas, a saúde e a tranqüilidade do povo, localizando nos prostíbulos estatais as mulheres que compraste para a satisfação pública."

Era a época das hetairas, cujo convívio era buscado pelos atenienses, como parte de suas formações. Péricles, ainda jovem, reunia-se com amigos em suas casas, para debater e aprender. Acabou se ligando a uma delas, Aspásia, e só não casou com ela porque era meteca de Mileto.

Lá, na distante Grécia, elas foram cultuadas como intelectuais e tornaram mais brilhantes os dias de Platão e Sócrates. São Tomás e Agostinho reconheciam sua utilidade pública, ao compará-las às cloacas de um castelo: sem a cloaca, o castelo se torna sujo e infecto. 

Mais para nossos dias, o rei Ludwig da Baviera nomeou Margaret Trautmann como ministra da Cultura e das Artes. Esta senhora, longe de ser uma acadêmica, administrava um bordel em Munique. Quando o ministro da Justiça mandou fechar a casa, Trautmann pediu uma entrevista ao rei. Alegou que sua casa era um ponto de encontro de poetas e artistas, nobres e políticos, que lá se reuniam para cultivar o espírito, claro que sempre na boa companhia de suas pupilas. Ludwig não hesitou. Ordenou a reabertura do bordel e a nomeou ministra.
 

Delas disse o marquês de Sade: "Eis as mulheres verdadeiramente amáveis, felizes e respeitáveis criaturas que a opinião infama e a volúpia coroa, e que, muito mais necessárias à sociedade do que as recatadas, têm a coragem de sacrificar, para servi-la, a consideração que esta sociedade ousa negar-lhes injustamente".

Daí a achar que a profissão pode levar à felicidade são outros quinhentos. A maioria delas leva vida sofrida e poucas são as que têm sucesso na vida. Há uma diferença abissal entre a pobre coitada que vende seu corpo na rua e a profissional que pode dar-se ao luxo de selecionar sua clientela. Mesmo esta talvez não se sinta muito bem em sua pele ao ter de entregar-se a seus clientes. Eu as conheço de perto. Nenhuma delas deseja legar a profissão à filha.

O PT parece ter aderido à defesa de uma sexualidade antes tida como imoral. Ainda este ano, foi distribuído a 13 Estados do país o chamado kit gay – elaborado em 2010 -, um pacote de seis revistas de histórias em quadrinhos (HQ) com foco no público adolescente, estimulando a opção pelo homossexualismo. Uma espécie daqueles antigos “catecismos” do Carlos Zéfiro, só que desta vez com a chancela oficial do Estado.

Que as pessoas sejam homossexuais ou curtam sexo pago, nada contra. Ocorre que, ao promover comportamentos sexuais, o PT está incorrendo na antiga mania da Santa Madre Igreja, ao pretender ditar como se comportar na cama. Só que no sentido contrário da Santa Madre. Se os católicos pregavam a castidade e o papai-mamãe, os petistas são mais ecléticos. Para as autoridades da Saúde e da Educação, agora vale tudo.

Mas o governo petista é tão dinâmico que mal deixa tempo ao cronista para escrever uma crônica. Ante a grita geral, o ministro da Saúde recuou. "Enquanto eu for ministro, não acho que seja uma mensagem a ser passada pelo ministério da Saúde", disse ainda ontem Alexandre Padilha.

Seja como for, espanta ver o governo, nestes dias de Aids e tráfico sexual, estimulando a prostituição e o homossexualismo. Em março passado, no Dia Internacional da Mulher, dona Dilma manifestava a intenção de intensificar o combate contra os “crimes monstruosos do tráfico sexual”. Nas tribunas internacionais, o Brasil quer afastar a imagem – promovida inclusive pelas embaixadas brasileiras – de paraíso sexual. Para o público interno, o governo faz – ou tentou fazer – a apologia do homossexualismo e da prostituição.

Ora, isto é questão de foro íntimo. Estados nada têm a ver com que o cidadão prefere na cama. Deve ser influência muçulmana, nestes dias em que as esquerdas estão aderindo ao Islã. Da Igreja Católica, cujos sacerdotes se especializaram no consumo de jovens efebos, já não é. 

Parodiando Juca Chaves: tenho a vida que eu sempre quis, sou prostituta mas eu sou feliz. Esta parece ser a visão do PT. Pelo menos, afasta a imagem do mensalão. Enquanto isso, a Associação de Prostitutas do Estado de Minas Gerais (Aprosmig) oferece há dois meses cursos gratuitos de inglês para facilitar o trabalho com os turistas durante os eventos esportivos da Copa.

Criança! Não verás.. 

Janer Cristaldo