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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Revisitando Drummond...


... no dia em que completaria 110 anos!


Reconhecimento do Amor

Amiga, como são desnorteantes
Os caminhos da amizade.
Apareceste para ser o ombro suave
Onde se reclina a inquietação do forte
(Ou que forte se pensa ingenuamente).
Trazias nos olhos pensativos
A bruma da renúncia:
Não querias a vida plena,
Tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida,
Não pedias nada,
Não reclamavas teu quinhão de luz.
E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda.

Descansei em ti meu feixe de desencontros
E de encontros funestos.
Queria talvez - sem o perceber, juro -
Sadicamente massacrar-se
Sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam
Desde a hora do nascimento,
Senão desde o instante da concepção em certo mês perdido na História,
Ou mais longe, desde aquele momento intemporal
Em que os seres são apenas hipóteses não formuladas
No caos universal

Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
Sua espada coruscante, seu formidável
Poder de penetrar o sangue e nele imprimir
Uma orquídea de fogo e lágrimas.

Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu
Em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria.
Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso.
Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor
Que trazias para mim e que teus dedos confirmavam
Ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro,
O Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,
Quando - por esperteza do amor - senti que éramos um só.

Amiga, amada, amada amiga, assim o amor
Dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo
Com o olhar pervagante e larga ciência das coisas.
Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos,
E a pura essência em que nos transmutamos dispensa
Alegorias, circunstâncias, referências temporais,
Imaginações oníricas,
O vôo do Pássaro Azul, a aurora boreal,
As chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos,
Todas as imposturas da razão e da experiência,
Para existir em si e por si,
À revelia de corpos amantes,
Pois já nem somos nós, somos o número perfeito: UM.

Levou tempo, eu sei, para que o Eu renunciasse
à vacuidade de persistir, fixo e solar,
E se confessasse jubilosamente vencido,
Até respirar o júbilo maior da integração.
Agora, amada minha para sempre,
Nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar
A melodia, a paisagem, a transparência da vida,
Perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.


Carlos Drummond de Andrade

LULA, O OCASO?


Mauro Pereira: ‘Lula saiu da eleição municipal bem menor do que entrou’

MAURO PEREIRA
Mais uma vez, Lula irá se beneficiar de louros que não são só dele.Tomo por óbvio que muito se falará sobre a sua participação na eleição de Haddad como prefeito de São Paulo e creditarão a vitória do candidato petista à sua popularidade. O deus de Marta será a personagem principal de mais uma empulhação, pois, lá no seu íntimo, ele sabe que, se Haddad dependesse do seu apoio solitário, não passaria do primeiro turno.
Analisada ainda sob o calor do resultado, a vitória de Fernando Haddad induzirá os mais afoitos a pressupor que foi uma vitória pessoal de Lula, porém, uma análise mais serena demonstrará que o apoio do ex-presidente foi importante, mas que passou distante de ser fundamental. Se, entre uma baixaria e outra, ele não tivesse rastejado até Paulo Maluf, nem exigido o desembarque descarado do governo federal na campanha, por exemplo, a possibilidade de ele e Haddad assistirem à definição do segundo turno da eleição paulistana no conforto de seus lares seria pra lá de razoável.
Outro fator que não pode ser desconsiderado foi a conjunção perversa da péssima avaliação da administração de Kassab pela maioria da população com a rejeição absurda de José Serra junto ao eleitorado. Essa somatória sinistra foi muito mais preponderante na derrota do candidato tucano do que o apoio de Lula na vitória petista. Mesmo com o eleitorado dando visíveis sinais de que queria mudanças no comando da prefeitura de São Paulo, Lula teve que se aliar ao diabo para que seu candidato não ficasse pelo meio do caminho e naufragasse ainda na primeira etapa da disputa.
No segundo turno, mais do que simplesmente aliar-se ao diabo, mudou-se de mala e cuia para o inferno e de suas profundezas colocou em prática o seu jeito sórdido de fazer campanha. Ainda assim, apesar do imenso leque abrigando as mais diferentes lideranças apoiando seu candidato, conseguiu impor pouco mais de 10% de vantagem a um adversário cuja rejeição, acrescida pela desídia dos aliados, já havia derrotado com antecedência. Se redobrarmos a atenção, perceberemos que a rejeição a Lula se mostrou tão vigorosa quanto a imposta a Serra.
No âmbito nacional, então, tivemos a oportunidade de ver a arrogância lulista reduzida a pó. Derrotas desmoralizantes como as de Recife, onde fez prevalecer sua vontade enfiando goela abaixo do partido o nome de sua preferência para disputar a prefeitura da capital pernambucana, e a de Porto Alegre, cujo Estado é governado por um petista, ambas no primeiro turno, já demonstravam que seu propalado fascínio sobre o eleitorado experimentava um declínio irreversível, tendência que se consolidou nos fracassos de Manaus, onde disse no palanque que vencer o candidato tucano lhe dava um prazer especial e de Salvador, onde, acumpliciado com a presidente Dilma Rousseff, tentou, mais do que vencer, desmoralizar e humilhar seu antagonista. As respostas dos eleitores dessas duas capitais foram devastadoras. Há que se destacar, também, o simbolismo negativo que envolve a derrocada em Diadema, reduto histórico do orgulho petista.
Por mais que queiram superdimensionar a vitória em São Paulo, ela será incapaz de aplacar a frustração pelos naufrágios de Recife, Salvador, Porto Alegre, Manaus e, principalmente, Diadema. Sozinha, não se fará suficiente para mascarar a curva descendente que já se manifesta com alguma vitalidade na popularidade de Lula. A presença de Paulo Maluf no palanque festivo de Haddad cantando “olê, olê, olê, olá…, Lula, Lula” dispensa maiores comentários. Seria constrangedor se eles se dessem ao hábito de constranger-se.
Uns têm Lula como deus. Outros, como diabo. Particularmente, não o acho nem um nem outro. Eu o tenho somente como um embusteiro oportunista que a sorte, tudo indica, está se cansando de bafejar. O novo quadro político que as urnas desenharam não torna ilícita a conclusão de que as eleições municipais encerradas domingo último mostraram que Lula saiu delas bem menor do quando entrou.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Mulheres e Práticas de Saúde: Medicina e Fé no Universo Feminino



Nesta terça-feira, dia 23, às 18h30min, Santiago recebe a exposição "Mulheres e Práticas de Saúde: Medicina e Fé no Universo Feminino", que ficará em exposição na Estação do Conhecimento. A realização é do Museu de História da Medicina e do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul juntamente com sua Delegacia Regional. Visitação até o dia 1º de novembro, de segunda a sexta-feira das 8h às 12h e das 13h30 às 17h. Sábados das 17h às 19h.

A exposição 

Montada pela primeira vez em 2008 na sede do Museu, em Porto Alegre, a exposição recentemente passou a ser itinerante. Após algumas passagens por pontos da capital, a exposição agora viaja pelo interior do RS. Este ano a exposição já esteve em Bagé, Cachoeira do Sul, Pelotas e São Gabriel. Depois de Santiago, encerra o ano em São Borja. 

O público poderá conhecer por meio de dois documentários - "Fé" e "Vida" - as histórias das benzedeiras e parteiras retratadas pelo fotodocumentarista Felipe Henrique Gavioli a partir das entrevistas feitas pelo historiador Éverton Quevedo. Além dos depoimentos, são expostas as fotos e biografias dessas mulheres e de médicas que são referência em suas áreas da medicina. Também compõem a mostra as histórias das três primeiras médicas mulheres a formarem-se no Brasil, todas gaúchas. A primeira delas, Rita Lobato, foi também a primeira vereadora.

Mais informações sobre a exposição em 
www.muhm.org.br/mulheres

Fonte: jornalista Letícia Castro. Setor de Comunicação. Museu de História da Medicina do RS