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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A República da língua presa




Desde logo vou avisando: não trata esse singelo escrito do pequeno problema de articulação do órgão muscular móvel, situado na boca, que serve para sentir os sabores, deglutir e articular sons, apresentado por alguns políticos que se movem com grande relevo no cenário nacional e internacional, conhecido, erroneamente, como língua presa. Tecnicamente, o nome da deficiência é língua flácida e pode ser corrigida por um bom especialista em fonoaudiologia, se o vivente quiser...

Afastando a digressão, voltemos à questão prioritária que enseja a discussão desejada – a dificuldade de expressão verbal e escrita que apresentam os brasileiros, como usuários da Língua Portuguesa, para comunicar pensamentos, desejos e emoções. O idioma pátrio encontra-se, permanentemente, atrás das grades e, até mesmo assassinado, morto e enterrado por gente que nunca fez questão de fazer o dever de casa. Há exceções óbvias, quem nunca teve oportunidade de estudar, por miséria extrema, possui atenuantes...

É certo, também, que as políticas governamentais de Educação têm redundado em fracasso  e não são prioridade, até mesmo porque um povo inculto, inerte e acrítico pode ser mais facilmente dominado – aceita tudo, nada questiona!

Vejam bem, quem deveria fornecer exemplos de virtude vocabular são as personagens que ora nos representam na seara política, já que de suas mãos e mentes é gerado e conformado o arcabouço legal que move o país.

E justamente os políticos são os maiores criminosos do vernáculo, pois que o ferem de morte constantemente, sem a menor cerimônia, a sangue frio, com requintes de crueldade. O maior problema é que as excelências sequer conseguem articular convenientemente a palavra-chave de sua ação política – a proposta de solução para os “problemas” que o país enfrenta. Daí, é um tal de “poblema”, “probrema”, “plobema” “pobrema”...Pobres de nós! Parafraseando Dadá Maravilha, o homem-gol, ora transitando no cenário nacional como palestrante motivacional, para essa problemática, por enquanto, não há solucionática...

Aliás, um ex-mandatário-mor da nação, durante seus mandatos, prestou relevante desserviço ao povo na medida em que não perdia oportunidade de repudiar boas e saudáveis práticas de leitura, afirmando que não lia jornais porque lhe causavam azia; que não estudou porque não viu necessidade, glamurizando o fato de um operário, um homem humilde, sem estudo, ter chegado à presidência da República. Ora, não é demérito ser humilde, simples, sem posses. Denigre sua imagem quem faz a apologia da ignorância, da mediocridade. Melhor e mais apropriado seria o estímulo, pelo exemplo pessoal e através de ações e iniciativas governamentais, da importância da educação sistemática e continuada, para que os conterrâneos possam adquirir habilidades e competências que os façam crescer pessoal e profissionalmente. Ganham os indivíduos, enriquece a nação! 

Não podemos esquecer que a situação do Brasil é aflitiva no que tange à Educação, já que ainda são altas as taxas de analfabetismo e, mesmo os estudantes que adquiriram as habilidades de ler e escrever são considerados analfabetos funcionais pois sequer conseguem formular uma frase completa, resolver um problema de ordem matemática que exija algum raciocínio lógico ou interpretar textos sem maior complexidade. Se “O Cara” tivesse utilizando o seu carisma e os altos índices de popularidade que amealhou para estimular o povo a pensar, através da educação, teríamos melhor sorte... Sua discípula e sucessora não faz melhor, ao desprezar os inevitáveis e graves prejuízos de uma greve de docentes do combalido ensino superior, ora em curso, prefere concentrar esforços para a entrada da Venezuela no Mercosul. Questão de prioridade...

Assim, nossa República continua com a língua presa, sem direito a habeas-corpus ou progressão de pena, pois crime hediondo não dá direito à liberdade condicional...


Arte: Cristina Fonseca

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