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sábado, 30 de junho de 2012

O cinismo e seus requintes


Filosofia surgida na Grécia antiga, o cinismo caracterizava-se pelo desprezo às convenções sociais e a procura da felicidade através de uma vida reta e virtuosa, liberta da servidão dos costumes e instituições humanas. Com o tempo, o termo adquiriu conotação pejorativa, pela contradição verificada entre o ideal ascético divulgado e o hedonismo vivido. O cinismo despreza todas as fórmulas da decência e da ética e parece que tem aumentado muito o seu séquito de seguidores nos tempos atuais. No Brasil, então, nem se fala! Os nossos políticos exibem um cinismo profundo cada vez que precisam defender-se, negando até mesmo a própria realidade que, muitas vezes, aparece, escancarada.

Os cínicos são malandros da pior espécie, hábeis e ousados, experientes na arte de mentir e encontrar desculpas para o seu ultrajante comportamento, mesmo que lhes seja impossível ocultar a verdade, porém, sempre há um jeitinho, uma manobra, um acordo de compadres, geralmente celebrado com o apoio de seus pares, sejam do governo ou da oposição, mostrando que o corporativismo reina nas instâncias do poder e, como sempre, uma mão lava a outra...

Certo é que o cinismo demonstrado pelos políticos corrobora a máxima, mais cínica ainda, de que “a mentira muitas vezes contada, se transforma em verdade” ou, “a acusação, muitas vezes negada, inocenta o acusado”. Está claro que nada vai mudar esse inferno ético e moral em que vivemos enquanto não for afastada, definitivamente, a certeza da impunidade, o mal do século (ou do milênio), alegria e inspiração dos corruptos.

Pior mesmo é perceber que esse festival de cinismo e frouxidão moral acabou por contaminar toda a sociedade. Decência, honradez, honestidade, lealdade e competência já não são consideradas qualidades que podem levar uma pessoa ao sucesso, seja em que seara for. Agora, oportunismo, hipocrisia, esperteza, má-fé e mais uma lista infindável de safadezas, estas sim, são atributos que asseguram carreira meteórica, por mais inexpressivo que seja o cidadão. O que vale é o pendor para a venalidade, considerada uma competência sine qua non para o êxito de qualquer empreendimento.

Como parece impossível combater a corrupção e bastante difícil acabar com a impunidade na atual conjuntura, parece que o combate à retórica do cinismo passa por conservarmos, a todo custo, uma mídia livre e autônoma, que privilegie a liberdade de informação e continue denunciando os cínicos de plantão e de ofício. Entretanto, percebo, desolada, que aquela mídia combativa e incorruptível até há pouco tempo está sucumbindo, em troca de um punhado de moedas, assegurada pela veiculação de anúncios institucionais, gordos financiamentos para expansão e rolagem sine die de dívidas. Bem poucos resistem e continuam autônomos, éticos e honrados. Prefiro continuar nesta trincheira e me nego a usar o véu do cinismo fundamentalista que está contaminando o último bastião da democracia.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Do amor e de amar



Do amor e de amar se fala muito e se faz pouco.

Do amor e de amar se mercantiliza o sentir.

Quando se quer bem o melhor presente é o do apreço, aquele que não tem preço, nem forma, mas é perfeito em sentimento, brilho, luz e cor.

Quando se quer bem o melhor presente é o respeito, o cuidado, a consideração que somados querem dizer amor, significam vida e plenificação do Ser que somos.

Amar pode dar certo, só impõe uma condição essencial – a disponibilidade. Por sermos tão indisponíveis, tão centrados, tão egoístas, jogamos fora oportunidades para conhecer e viver o amor. Podemos até conhecê-lo, mas se continuarmos focados no Eu jamais chegaremos ao Nós, porque desconsideramos o Tu.

Amar é sinônimo de compartilhar, dividir, com-por, com-prazer, com-pactuar, co-habitar, contribuir para a realização do outro, sem cobrar o investimento, que vem em dobro em sentimento.

Amar é uma arte que a poucos é dado saber o segredo. O amor que vive e sobrevive para sempre é acompanhado permanentemente por respeito mútuo, admiração, cordialidade, gentileza, companheirismo, entrega, superação, aceitação. Senão, não é amor.

Por isso, o amor é raro.

Por isso, o amor é caro.

Por isso o amor é tão procurado – tarefa para a vida inteira, porque de construção lenta para ser duradouro. É como uma joia artesanalmente lapidada, por mãos inspiradas. Mãos que amam tanto quanto a alma e o corpo amam.

Por ser tão raro, o amor dificilmente é reconhecido e facilmente é confundido.

Amar não é ser proprietário de quem se ama. Amar não impõe regras nem proibições. O amor não aprisiona nem acorrenta. Por amar não se manda conta ao parceiro, cobrando pelo sentimento, pela dedicação, pela companhia.

Se a recíproca não existe se desfaz a sociedade. É isso que comumente não aceitamos. Amar não se conjuga no singular. Somente no plural. A rejeição nos faz sofrer e perder as fronteiras da realidade. As tentativas, todas, são vãs quando só um ama. Essa percepção é dolorida, mas necessária para que possamos manter a autoestima, a dignidade e o respeito por nós mesmos, enquanto pessoas.

No Dia dos Namorados, que tal reservar alguns momentos para refletirmos um pouquinho sobre a nossa maneira de ser no amor e no amar? Sempre é tempo para buscarmos transformação que qualifique o nosso bem-querer!

sábado, 2 de junho de 2012

Alguma poesia...


Procure os seus caminhos,
mas não magoe ninguém nessa procura.
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz,
Revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças,
Mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!

Fernando Pessoa

Reaprendendo a arte de viver com arte



A frieza que ultimamente tem interferido na relação das pessoas é um mal do mundo moderno, onde não há mais tempo para nada, nem mesmo para construir relacionamentos, quanto mais melhorá-los. E as pessoas vivem e sobrevivem de relacionamentos. Temos conviver para manter o equilíbrio, crescer e existir mais humanamente.

Frieza, indiferença, descaso, distância, são palavras escritas com gelo. Cristalizam. Fazem parte de um vocabulário muito usado, não só com palavras, mas pelo olhar. Um olhar soturno, acinzentado, cor de treva. Se observarmos as pessoas, na rua, a maioria caminha rápido, passos largos, em aflição; não olham para os lados, não têm tempo, vão perder o ônibus, vão chegar atrasados ao trabalho, têm um compromisso, precisam correr... Olhos mortos, sem expressão, fixos apenas em medir a distância que as separa de seu destino, que é o mesmo, todos os dias.

 Ir e vir. Vir e ir. Sem parar. Trabalhar sem descanso porque há contas a pagar, porque há compromissos a cumprir, há tarefas a entregar. Nem lembramos mais que há um EU a cuidar, que há um TU a esperar, que a um NÓS a construir.

Nessas idas e vindas de dura e sistemática repetição deixamos de perceber o espetáculo diário que a vida nos oferece – abdicamos de nossa sensibilidade e nos refugiamos no tédio ou na queixa da mesquinhez e da crueldade do cotidiano, que nada nos dá, só tira.

Precisamos refletir e aceitar o desafio que se impõe se quisermos reaprender a viver. Precisamos aprender a viver com arte, a viver dentro da arte. Da arte de amar. Precisamos descobrir novos caminhos, diminuir o ritmo, apreciar as cores do dia, sentir a brisa batendo, leve, no nosso rosto, desfrutar o canto dos pássaros, sentir novos aromas, sorrir e perceber o outro que está ao nosso lado.

Viver com arte é enfrentar os desafios, é recuperar um tempo em que tudo era capaz de nos emocionar – o mar, o céu, os cheiros, os sons, as flores, o vento, os amores, os livros, os filmes, a música...

Este é o desafio de cada um - o do ampliar altura e largura da alma, enriquecendo o espírito porque a vida, muitas vezes trágica e sofrida, também pode ser engraçada, doce e divertida e, sempre, compartilhada! Aceitando o desafio, podemos voltar a cuidar do nosso EU, reencontrando aquele que nos espera para reconstruirmos o NÓS.

Na verdade, o que impede a aproximação é o medo. O medo da indiferença. O medo da frieza que vemos nos olhos dos outros, esquecendo que é a mesma que veem em nosso olhar. É o medo da dor, daquela dor que varre o mundo, que sacode a terra, que desfia os ventos, que nos invade, que nos divide, que nos diminui, que nos encerra...

Há que olhar mais fundo para compreender. Há que parar para enxergar. Há que ter sensibilidade para entender que o meu olhar de gelo que reflete o teu é apenas a armadura que esconde o calor, que cristaliza a lágrima escondida, represada, pronta a desaguar a um mínimo gesto, um sinal... desfazendo o olhar antártico criado apenas para proteção.

Palavras escritas com gelo podem ser transformadas, sim, em palavras escritas com fogo. Olhar de gelo também pode ser aquecido por generosidade, brandura, amor.

Às vezes, o gelo no olhar e na palavra é pura falta de exercício.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Um pouco de silêncio



“Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade. Sob a pressão de ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações. Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam conosco nem nos interessam.

Não há perdão nem anistia para os que ficam de fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço de sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência.

O normal é ser atualizado, produtivo e bem-informado. É indispensável circular, estar enturmado. Quem não corre com a manada praticamente nem existe, se não se cuidar botam numa jaula: um animal estranho.

Acuados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo – ou em trilhas determinadas – feito hâmsteres que se alimentam de sua própria agitação.

Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo, ameaça quem leva um susto cada vez que examina sua alma.
...

Além do desgosto pela solidão, temos horror à quietude. Logo pensamos em depressão: quem sabe terapia ou antidepressivo? Criança que não brinca ou salta nem participa de atividades frenéticas está com algum problema.

O silêncio nos assusta por retumbar no vazio dentro de nós. Quando nada nos move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais espiam coisas incômodas e mal resolvidas, ou se enxerga outro ângulo de nós mesmos. Nos damos conta de que não somos apenas figurinhas atarantadas correndo entre casa, trabalho e bar, praia ou campo.

Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado, algo além desse que paga contas, trama, ganha dinheiro, e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!) vai morrer. Quem é esse que afinal sou eu? Quais seus desejos e medos, seus projetos e sonhos?

No susto que essa ideia provoca, queremos ruído, ruídos. Chegamos em casa e ligamos a televisão antes de largar a bolsa ou a pasta. Não é para assistir a um programa: é pela distração.

Silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconcerto nosso. Com medo de ser quem – ou o que – somos, adia-se o defrontamento com nossa alma sem máscaras.

Mas, se a gente aprende a gostar um pouco de sossego, descobre – em si e no outro – regiões nem imaginadas, questões fascinantes e não necessariamente ruins.

Nunca esqueci a experiência de quando alguém botou a mão no meu ombro de criança e disse:

- Fica quietinha, um momento só, escuta a chuva chegando.

E ela chegou intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela a gente se refaz para voltar mais inteiro ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores.

Então, por favor, me dêem isso: um pouco de silêncio bom para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos.”

Lya Luft, in Pensar é transgredir, Record, 13ª edição, 2008