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quarta-feira, 28 de março de 2012

Receita pra lavar palavra suja



Mergulhar a palavra suja em água sanitária.
depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza. Por exemplo a palavra vida.
Existem outras, e a palavra amor é uma delas,
que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente.
São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tira sujeira difícil, mas nada.
Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão.
Agora nunca vi palavra tão suja como perda.
Perda e morte na medida em que são alvejadas
soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura, que é capaz de esvaziar o vigor da língua.
O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho
em um amaciante de boa qualidade. Agora, se o que você quer é somente aliviar as palavras do uso diário, pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar.
O perigo neste caso é misturar palavras que mancham
no contato umas com as outras.
Culpa, por exemplo, a culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.
Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo, sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode, o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.
Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
sob o risco de perderem o sentido.
A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva,
produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.
Muito importante na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.
Conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos, que passeie
pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite, não a seu lado mas sobre seu corpo.
Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,
prolifera em toda sua possibilidade.
Se puder suportar essa convivência até não mais
perceber a presença dela, então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra LIMPA é uma palavra possível.
Viviane Mosé

A. p.a.l.a.v.r.a. n.e.c.e.s.s.á.r.i.a.



A palavra necessária é rara. E real o seu esplendor.

A palavra necessária é essencial porque única e unívoca em significante e significado.

Necessária é a palavra de conforto. A palavra de carinho. A palavra de solidariedade. Na medida e na hora certas. Morno alento para quem é sedento. Da palavra necessária.

Necessária também é a palavra dura. Severa. Áspera. Necessária para corrigir, recuperar, reencaminhar quem dela precisa e não sabe. Da palavra necessária. Dita com frio talento, se torna implemento para a retomada do fio.

A palavra necessária é composta de luz essencial. Clara, translúcida de sons e imagens e cores e valores imprescindíveis à vida.

Palavra às vezes morna às vezes fria mas duplamente necessária. Para autor e interlocutor.

Uma pergunta que não cala. Por que é tão rara a palavra necessária?

Por que é tão difícil de entoar a palavra necessária?

Falta vontade?

Falta coragem?

Ou já se acha descartável a palavra necessária?

Não. Criticamente analisando, a palavra necessária é vida válida. Vislumbre do por-vir. Horizonte.

Inválida é a omissão. O não-falar que invalida nossa vida, que a torna bruma, não brisa. Opaca, não lisa. Escura, não pura.

A palavra necessária é rio em desafio constante de seguir em frente, de encontrar gente.

A palavra necessária abomina o limitante. É cria-ativa. Magia polissêmica da linguagem universal, ordenada, harmônica, simbiótica, mística. Muito mais do que poema simétrico. Rítmico.

Muito mais do que rito. Real rima do eu que com o tu nos torna um só.

Imagem: Do blog Uma Pena que Eu Não Sou Burra, de Michelle Silva

terça-feira, 27 de março de 2012

A. p.a.l.a.v.r.a. d.e.s.n.e.c.e.s.s.á.r.i.a.


A palavra desnecessária é torpe, vil e abunda. Grassa e conspira. Consome quem constantemente a articula e escreve. Humilha os que a ouvem e leem.

A palavra desnecessária é fel. Fere fundo. Vilipendia o dia a dia. Faca afiada. Acerta fundo.

A palavra desnecessária é matriz da violência. Ferro que queima e teima. Dilacerando tudo.

Palavras desnecessárias nós ouvimos todos os dias. Até já nos acostumamos com elas. Não poderíamos. Palavras desnecessárias são um argumento contra a vida. Invalidam tudo.

E o pior é que, geralmente, quem fala a palavra desnecessária nem tem consciência do que está dizendo ou, quem sabe, é só o que sabe dizer...

Mas a palavra desnecessária ofende, machuca, diminui o Ser que a disse, diminui o Ser que somos, porque implica em dor, em espanto, em denso pranto mesmo não chorado a olhos vistos, represado.

Desnecessária é a palavra que afronta, que magoa, que atormenta. Tormenta de letras desfalcadas de sentido. Escuridão profunda. Funda gruta de terror eu sinto.

Desnecessária é a palavra que corrompe, que compele ao delito. Que afrouxa e rompe as amarras, caras teias que tecemos no tempo. Fios do céu ao chão se vão, subvertendo a mão que nos separa do conflito.

Desnecessária é a palavra que diz guerra, tortura, explosão, morte do irmão, sangue, aço retorcido, asa partida, torre desabada, sonho abandonado. Retumbante som.

Uma pergunta que não cala. Por que é tão falada a palavra desnecessária?

É por vontade?

É por maldade?

É por insensibilidade?

Ou já se acha descartada a palavra necessária?

Onde está escondida a palavra necessária?

Aquela que une, re-une e re-unifica e ressuscita os nossos sonhos. Aquela que soma e não divide. Aquela que atrai e aproxima. Aquela que cria, re-cria e revigora.

Onde está aquela palavra que dá vida?

Está aqui, aí, dentro de nós.

Vamos reaprender a falar a palavra necessária?

E a usar a borracha mental para apagar aquela que nos faz morrer um pouco cada vez que a pronunciamos, fadando-a ao lixo, escória, cinza da palavra, alijando-a do dicionário humano Ser que somos.

terça-feira, 13 de março de 2012

Ao piano, Ana Luiza Saldanha Andres



Ana Luiza Saldanha Andres interpreta La Cumparsita, na audição anual da Academia Harmonia Musical, em dezembro de 2011. 


sexta-feira, 9 de março de 2012

Infinitamente Mulher


Eis aí, minha crônica publicada no livro Infinitamente Mulher, lançado ontem, em evento comemorativo ao Dia Internacional da Mulher, na Estação do Conhecimento, em Santiago, RS. Na ocasião, 55 escritoras santiaguenses receberam o diploma de Mulher Nota 1000, promoção já tradicional do Centro Materno Infantil. O livro foi editado numa parceria entre a Casa do Poeta de Santiago e o Centro Materno Infantil.

Profissão: cronista

“O mundo de cada um é os olhos que tem”. O mestre Saramago definiu muito bem, nesta frase, o tamanho do mundo de quem tem olhos para ver e vê. De minha parte, quando escolhi o jornalismo, defini uma missão – ser os olhos dos meus leitores. Quis, sempre, abrir-lhes os olhos e alargar-lhes os caminhos. E sempre exerci a profissão com o cuidado máximo de escrever apenas o que vi ou o que me foi dito por pessoas idôneas e dignas de confiança.

É claro que nem sempre passamos a verdade para o leitor. Muitas vezes escrevemos a verdade ou o interesse do interlocutor, dependendo do tipo de matéria veiculada. Daí, para estabelecer a verdade, depende do bom profissional a vontade de descobri-la, desvelá-la e publicá-la. E isso nem sempre é possível já que no jornalismo da província as empresas sobrevivem à mercê das verbas publicitárias advindas de quem detém o poder.

Assim, para fugir do círculo vicioso que não raro acaba em mediocridade, pela asfixia da vontade autoral, preferi me manifestar através de colunas escritas no jornal e, mais recentemente, no blog Interface Ativa. Minhas crônicas sempre retrataram o que vi e ouvi, o que me surpreendeu e me indignou. O que li, o que senti e o que sonhei. Buquê de palavras, às vezes facas, às vezes flores.

Sei que a relevância da crônica depende dos olhos de quem a lê e neste ponto, sou privilegiada, pois sempre tive e continuo tendo o retorno carinhoso dos leitores. Não há nada mais gratificante e mais prazeroso do que ouvir de alguém que nem se conhece um comentário elogioso ou a simples menção de que um texto meu recebeu um novo olhar nesta cidade que ainda tem tão poucos olhos para ver o mundo.

Pois a crônica, filha, irmã e amiga, é gestada na folha em branco e nasce, quase sempre, entre sofrimento e gozo, envolta neste desvelamento da condição humana que se chama literatura, minha paixão. Escrever é muito mais que encadear palavras e traduzir opiniões. Escrever é colocar a própria vida no papel. Sei que não posso mudar o mundo, mas inválida é a omissão, o não-falar que invalida a nossa vida, que a torna bruma, não brisa. Opaca, não lisa.

O mestre português da palavra ainda ensinou: “Se podes enxergar, vê. Se podes ver, repara.” Eu vejo. Eu quero reparar. E a palavra é meu instrumento. Profissão: cronista!

quinta-feira, 1 de março de 2012

Infinitamente Mulher



No próximo dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher, a Casa do Poeta de Santiago e o Centro Materno Infantil, órgão vinculado à Prefeitura Municipal, lançam um livro reunindo 55 escritoras da Terra dos Poetas, durante o evento Mulher Nota Mil, que acontecerá na Estação do Conhecimento, a partir das 18h, entre diversas atrações. O livro se chama "Infinitamente Mulher" e traz contos, crônicas poesias, com trabalhos de

Adriana Madrid (capa)

Gisélle Kolinski Ribeiro (apresentação)

Tainã Steinmetz(diagramação)
Aldorete Martins
Aline de Souza
Amanda Benvegnu dos Santos
Ana Paula Milani
Ana Paula Sangói
Ana Rauber
Andressa Vieira Obem
Ângela Genro
Angélica Erd
Antonia Nery Vanti
Arlete Tusi Cossentino
Arlete Gudolle Lopes
Ayda Bochi Brum
Camila Jornada
Camilla Cruz
Clarissa Guerra
Cláudia Inês Larre
Deise Pinto Marchezan
Delina Porto Guarize
Diessica Carlosso Boff
Eduarda da Silva Bittencout
Enadir Vielmo
Érica Bassin Fumaco
Erilaine Perez
Fátima Friedriczewski
Fernanda Alberti
Gabriela Alberti
Heloísa Flôres
Iára Marlene Mezetti
Ilma Bernardi
Indiara Silva
Janaína Vargas
Jocimari Nascimento
Juliana Rigon
Lígia Rosso
Lilian Ferraz Zanella
Lise Fank
Louise Garcia Machado
Luana Almeida Teles
Luana Diello
Maiara Jantsch
Marla Gavioli Ramos
Marlene Brasil Brandão
Naíse Quartieri
Nara Bachinski
Nathália Nunes Cogo
Nivia Andres
Nuraciara Xavier
Rozelaine Aparecida Martins
Sandra Ivanisk
Sandra Siqueira
Tais Cattelan Boff
Tassiane Kother do Canto
Tatiana Vier
Thays Stefanon Rodrigues
Therezinha Lucas Tusi


Foi uma honra participar da publicação, juntamente com escritoras tão talentosas e, especialmente, as amigas Naíse Quartieri, Arlete Gudolle Lopes, Lígia RossoHeloísa Flôres, Tatiana Vier e Therezinha Lucas Tusi.

Logo que o livro for lançado oficialmente, postarei a crônica que escrevi aqui, no Interface Ativa!