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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Vamos dizer adeus à caligrafia?*


Será que o ato de escrever sobre o papel, com caneta ou lápis, está com os seus dias contados? Tendo em vista o avanço da tecnologia, cada vez mais utilizada, parece que sim. Até as máquinas de escrever foram definitivamente aposentadas (a última fábrica fechou, há poucos dias...), com o advento do computador e da impressora.

É uma pena.

Sempre gostei de usar o lápis, bem macio. Deixa a letra mais bonita. Ou canetas à tinta. Não vou abandonar o hábito.

De qualquer maneira, leiam a interessante matéria publicada na Revista Piauí:

*Por Bernardo Esteves 

“No dia 27 de julho encerrou-se mais um acampamento de caligrafia promovido pela empresa americana Noble of Indiana. Na tradição dos acampamentos de verão, os alunos fizeram exercícios para estar com a letra melhor no retorno das aulas, em setembro. Só que desta vez, eles não precisarão mais de uma boa caligrafia, pois o estado de Indiana aboliu o ensino da escrita cursiva, aquela com as letras emendadas umas às outras.
 
No memorando que anunciou a decisão, o Departamento de Educação de Indiana liberou as escolas do ensino da letra cursiva para que possam se concentrar em “áreas mais importantes do currículo” Na prática há, agora, a determinação para que os alunos sejam proficientes no uso do teclado – sinal de que o avanço dos teclados de computadores, laptops, tablets e celulares é inexorável e proporcional ao recuo de canetas e lápis.

O caso de Indiana não é exceção: 44 estados americanos já adotaram o currículo que desobriga os estudantes de ter uma boa caligrafia. No Brasil, o Ministério da Educação determina a “exigência de qualidade da produção escrita do aluno” no que se refere “tanto aos aspectos textuais como à apresentação gráfica”. Ou seja, ao não entrar em detalhes, cada escola faz o que bem entende com a caligrafia. Mas, na prática, o ensino e a exigência da boa caligrafia são generalizados.

O anúncio do fim da letra cursiva em Indiana provocou no Brasil senão uma onda senão de protestos, ao menos de lamentos e nostalgia. As lamúrias têm um precedente ilustre. “A escrita mecanizada priva a mão da dignidade no domínio da palavra escrita e degrada a palavra, tornando-a um simples meio para o tráfego da comunicação” queixou, há quase 70 anos, o filósofo Martin Heidegger. “Ademais, a escrita mecanizada tem a vantagem de ocultar a caligrafia e, portanto, o caráter do indivíduo”. Heidegger reclamava, numa palestra que fez em 1942, da adoção progressiva das máquinas de escrever.

A letra cursiva, porém, sobreviveu às máquinas de escrever manuais, (que só agora, em 2011, deixaram de ser fabricadas) como resistira antes ao advento da prensa mecânica. Tanta resiliência se deve à sua agilidade e praticidade. Escrever à mão é simples e barato. Não há necessidade de máquinas, de energia elétrica ou baterias, de suportes complicados. Basta papel e caneta.

Os jovens americanos nunca escreveram tanto quanto hoje, mas já não se valem dos meios tradicionais. Segundo um estudo realizado no ano passado pela Nielsen, o adolescente americano manda e recebe, todo mês, em média 3.300 mensagens de textos por celular (um SMS para cada nove segundos de vigília, caso ele durma oito horas por noite). O fim do ensino da letra cursiva reflete esses novos hábitos – um dia também foi preciso tirar do currículo a marcenaria para os meninos e a costura para as meninas.
As crianças que deixarem de aprender letra cursiva pagarão um custo cognitivo, ao menos segundo alguns estudiosos. Pesquisas indicam que a escrita manual estimularia os processos de memorização e representação verbal. Por ironia, um desses estudos mais recentes vem da própria Universidade de Indiana. Feito com crianças em idade pré-escolar, ele sugere que a prática do desenho de letras estimula a atividade cerebral em regiões ligadas ao processamento visual.


Mas a substituição da escrita manual pela digitação não assusta o neurocientista Roberto Lent, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Não há grande diferença entre traduzir ideias em símbolos com movimentos cursivos ou através da percussão de teclas”, ele disse. “Ambas são atividades motoras e envolvem grupos neuronais diferentes da mesma área do cérebro”. Para Lent, as implicações culturais da mudança são mais preocupantes do que as fundo biológico. “Será interessante para a humanidade não saber mais escrever?”, pergunta.

A digitalização da escrita tem benefícios indiscutíveis em alguns campos. É louvável a extinção da tradicional letra feia dos médicos. A medida poupa pacientes e farmacêuticos de quiproquós caligráficos de consequências às vezes funestas. Que o diga a família de um paciente encaminhado ao pronto-socorro de Belo Horizonte por conta de um corte que precisou ser suturado. Para prevenir infecções o médico receitou-lhe o antibiótico Keflin. Diante dos garranchos à sua frente o enfermeiro não hesitou em lhe aplicar uma dose de Quelicin, que induz a paralisia muscular, usado em casos de entubação. O paciente não resistiu.

É previsível que os profissionais da caligrafia se incluam entre as viúvas da letra cursiva. O professor Antônio de Franco Neto, que dirige uma tradicional escola paulistana de caligrafia, deplora o abandono do ensino de sua disciplina. Mas garante que a procura por suas aulas nunca esteve tão alta. Entre seus alunos estão vestibulandos e concurseiros de letra feia, e também garçons e outros profissionais que precisam se comunicar por escrito. Para ele, não há caso perdido. “Em dois meses deixo qualquer pessoa com a letra bonita”, promete.

Segundo De Franco, tem crescido o número de alunos que querem se capacitar para a prática profissional da caligrafia, preenchendo convites de casamento, diplomas e certificados. Este nicho tem sido ocupado por gente como Mariana Allves, que arredonda o orçamento de casa com trabalhos caligráficos. Em junho, ela fez uma capa de livro e preencheu 500 convites de casamento. “Tirei mais de 1 um mil reais, foi um mês extraordinário”, disse.

Profissionais que vivem da análise da escrita alheia tampouco se veem ameaçados. Na avaliação do advogado Judá Jessé de Bragança Soares, trabalho é o que não falta para peritos grafotécnicos como ele. “A perícia normalmente é feita mais sobre as assinaturas do que sobre os textos escritos”.

Mesmo para a grafologia, disciplina que alega depreender traços do caráter de um indivíduo a partir de sua escrita, a perspectiva profissional é favorável. “O mercado é bem amplo”, disse a grafóloga Elisabeth Romar. A principal demanda por exames grafológicos vem dos departamentos de recursos humanos. Os recrutadores querem saber se os candidatos a emprego têm criatividade, equilíbrio, liderança e espírito de equipe. Acreditam que a análise de um texto de 20 linhas escrito numa folha sem pautas é capaz de esclarecer a questão. Heidegger concordaria.”
Fonte: Revista Piauí, n° 59

Um comentário:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nivia Andres!
Padeci sobremaneira nos bancos escolares por conta da minha letra horrível... Ainda na contemporaneidade sinto calafrios quando me deparo com cadernos de caligrafia... É evidente que no exercício do meu árduo/fascinante ofício instigo meus amados regidos a utilizarem letra cursiva, mas não os deixo traumatizados, quando me deparo com regidos que têm letra feia. Se quiserem usar letra bastão aceito. O que importa é ter desenvoltura para externar as ideias, seja com letra cursiva ou bastão. Não posso negar que admiro quando me deparo com textos escritos com letra cursiva bonita, mas não podemos negar que o mundo cibernético veio para transformar vertiginosamente a interação com nossos semelhantes. Convém enfatizar que os diversos portadores de textos que circulam na sociedade não são em sua grande maioria com letra cursiva.
Calorosas saudações legíveis!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP