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quinta-feira, 5 de maio de 2011

A arte de escrever e falar bem

É incrível como as pessoas desprezam a arte de escrever e falar bem. Há algum tempo, José Saramago disse, do alto de seu talento e experiência: "Hoje, existe uma espécie de menosprezo por essa coisa tão simples que antes era falar com propriedade. Quando eu era trabalhador, sempre tinha as ferramentas limpas e em bom estado. Não conheço uma ferramenta mais rica e capaz que o idioma. E isso significa que se deve ser elegante na dicção. Falar bem é um sinal de pensar bem".

Acrescento, ainda, que escrever bem é uma condição inarredável para a credibilidade, a liderança e o sucesso de qualquer profissional, seja político, médico, jornalista, advogado, engenheiro, matemático ou professor de Português. É lamentável que não se dê importância a algo tão elementar. Mais ainda quando sabemos que a comunicação move o mundo e quem não habilitar-se com competência não tem chance, está fadado à mediocridade e ao desaparecimento. Precisamos ser capazes de convencer e não de vencer. Vence-se normalmente com a força e convence-se habitualmente com as palavras e a razão.

Escrever e falar bem são armas de altíssimo calibre que diferenciam um sujeito na multidão. Acrescentam poder. E não nos damos conta de que existe, ainda, uma habilidade muito maior em significância - a de saber escutar. Como muito bem falou Bolívar, "quem manda deve ouvir, ainda que sejam as mais duras verdades e, depois de ouvidas, deve aproveitar-se delas para corrigir os erros". Por suposto, aí está a chave do desenvolvimento do ser humano ao longo de sua história. Pelo menos daquelas pessoas que têm sensibilidade para perceber o alcance desta competência. Escrever e falar bem, assim como saber ouvir credenciam o sujeito a desenvolver outra habilidade preciosa – ter olhos para ver além do horizonte, percebendo antecipadamente o que se desenha. Há mais tempo Saramago escreveu, em seu Memorial do Convento, “O mundo de cada um é os olhos que tem”.

Atentem, ainda, para uma situação peculiar: há pessoas que são especialistas em usar a palavra para expressar o que pensam e dispõem de espaço qualificado na mídia, que atinge milhões de pessoas. São formadores de opinião – cultos, sensatos, experientes, equilibrados e por isso, acreditados. Também leio o que escrevem e os admiro, às vezes por sua coragem, outras por sua ousadia e sempre por sua capacidade de bem escrever e ordenar racionalmente as idéias. É o que chamo de arte do texto. Porém, há certos dias em que lhes lastimo o pensamento infeliz grafado numa palavra mal-dita. Quem escreve para muitos e sabe que atinge milhões de leitores não pode se dar ao luxo de perder a temperança e a lucidez, externando opiniões que geram máxima polêmica e ainda provocam sofrimento em quem é atingido pela palavra mal-posta. Ainda mais quando o escrevente se arvora em mago e adivinho, tratando de antecipar decisões em curso. Aí, senhores do belo texto, lhes retiro toda a brilhatura e lhes casso os elogios abundantes, sobrando apenas a atenuante de que também vivem sob a humana condição de errar e são tão passíveis de erro como nós, simples aprendizes, na arte de escrever e de viver.

De outra parte, quem escreve mal e se esconde nos meandros da soberba e da arrogância, acreditando-se poderoso, utilizando o veículo de comunicação como escora de sua prepotência, este, pode esperar, que a sua hora vai chegar. É certo e veloz o castigo para quem se arvora em ser dono da verdade, tudo pode antecipar e o faz, através do poder da palavra, que os torna arrogantes, insensíveis, inatingíveis. Não o castigo dos molestados pelo poder da palavra, mas o castigo interior, da própria vida, o castigo da alma, aquele que nos faz menores como pessoas.

Então, senhores da palavra, moderação, humildade e modéstia são qualidades sempre bem-vindas e que constantemente devem ser exercitadas, ainda mais nesse ofício tão exposto e árduo que é o de comentar sobre a vida e sobre os viventes! Para quem sabe escrever, palavra é arma. Dependendo do combate e dos detratores, faca de dois gumes.

5 comentários:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nivia Andres!
Admiro sobremaneira sua maravilhosa verve, que sempre nos brinda com crônicas imperdíveis!!!!
A Senhora também tem outra qualidade, que torna patente sua lisura, transparência e respeito aos seus incontáveis leitores(as), que é nunca, jamais, em tempo algum, utilizar o nefasto recurso do plágio ou então criar marionetes para inflar seu imperdível espaço cibernético!
Caloroso abraço! Saudações transparentes ou melhor dizendo desmascaradas!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP

Rafael Nemitz disse...

Inspirador texto Nívia. Tão útil nos dias atuais. Tomei a liberdade de copiá-lo e arquivá-lo. Obrigado pelos ensinamentos, pela colaboração.

Abraços.

Michele Wesz Andres disse...

Belíssimo texto, Nívia. Parabéns!
Grande abraço!

Cristina disse...

Também gostei demais do seu texto Nivia. Serve-nos de lição e reflexão sobre o quanto a palavra é importante para construir ou destruir, dependendo da mente que a usa..
Sua palavra é sempre sensata e bem aplicada, Nivia....
Nota 1000!!!
um beijo grande

MACAU BANGKOK O MAR DO POETA disse...

Ilustre Jornalista Nivía Andres,
Adorei seu texto e me revi um pouco nele.
Sendo eu um português, nascido no Alentejo, cidade de Évora, e vivendo na Ásia fez 47 anos, tenho imenso orgulho de ainda falar correctamente a língua de Camões, mas na ortografia estou ficando ultrapassado.
Feliz Dia do Buda.
Abraço amigo.
PS - Em Macau, um jornalista português, publicou ontem, no Jornal Tribuna de Macau, um artigo com o título O BANHO DE BUDA, e descreveu desta forma: "Buda (tal Cristo) é um estado e não uma pessoa, tendo ficado representado (para a maioria das pessoas) em Sidarta Guatama (563-483 a.n.e.)"
Discordo completamente com este pensamento, e como tal escrevi, e publiquei em meu parco blog, um vasto artigo sobre a vida do Lord Buda.
Abraço amigo