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sexta-feira, 22 de abril de 2011

O Coelhinho da Páscoa existe?


PÁSCOA PARA INGLÊS E NÃO INGLÊS*

"- O Coelhinho da Páscoa existe?

- Existe sim.

- Mas eu o vi chegando de van.

- ............................................
- E?

- Tem muito ovo para entregar, e o serviço de entrega dá uma força.
Esta mãe enfrenta um de seus primeiros desafios. Estimular a imaginação, sem a qual o filho não suporta a infância e nem a vida adulta. Ela consegue fazer isto porque teve outra mãe que fez o mesmo com ela. Pode não ter sido quem a pôs no mundo e sim uma substituta, que a carregou mundo afora. Mas o mundo está no tempo e, tempos depois, muda o diálogo:

- O Coelhinho da Páscoa existe?

- Na tua opinião?

- Eu acho que não.
- (Silêncio acompanhado de colo).

- (Silêncio acompanhado de lágrimas).
Esta mãe enfrenta agora um novo desafio. Estimular a aceitação da realidade, sem a qual o filho não suporta a infância e nem a vida adulta.

Em nenhum outro papel do teatro humano existe um paradoxo tão pesado. Um psicanalista meio poeta, chamado Winnicott, disse-o primeiro e melhor. Ele era inglês e defendi duas funções para as mães; a primeira era iludir o seu bebê. Sem esta ilusão, a criança não se torna criativa e capaz de enfrentar a realidade. Depois, cabe à mesma mãe desiludir. Sem esta desilusão, a criança também não pode encarar a vida como ela é.
Mãe e filho jamais serão os mesmos depois desses diálogos. Mas vão estar aptos a viver no livre trânsito entre acolher o que é e reinventar o que não pode ser. Uma espécie de negociação entre a realidade e a imaginação, já que uma não vive sem a outra.

Haja talento, e teve psicanalista dizendo que é impossível. Chamava-se Freud e não era inglês. Mas, para ele pouco importava a impossibilidade de ser mãe e pai. Fazia-se o possível, como de resto, e o possível já seria suficiente para justificar com sobras a existência humana. Certa feita, ao conversar com um poeta alemão, foi firme ao dizer que a sombra da morte tornava a vida ainda mais iluminada.
Outro poeta abordou o mesmo tema, antes e melhor. Ele disse: A thing of beauty is a joy for ever. Mal traduzindo, significa que uma coisa linda é um tesouro para sempre. Este, sim, era inglês.

No meio de tantas belezas, deu-me vontade de dizer que a vida é para ser degustada entre o que oferece e a busca de algo mais. É para inglês e não inglês viver. É imaginar entre os vãos da falta. Na Páscoa e no resto do ano."
*Celso Gutfreind, in Zero Hora, pág. 2, terça-feira, 19 de abril de 2011

O ato corriqueiro de ler o jornal todos os dias às vezes é interrompido por alguma surpresa, não raro chocante, mais desagradável do que a maioria das notícias que nos impactam. Da mesma maneira, temos surpresas agradáveis, como a bela crônica de Celso Gutfreind (interino da página dois do jornal Zero Hora, no dia 20), tratando de um assunto bastante profundo, como a necessidade do ser humano ser estimulado, em sua criatividade, através da fantasia dos contos de fadas, Coelhinho da Páscoa, Papai Noel e congêneres, para poder suportar infância e a vida adulta. Da mesma forma, há o desafio de fazer a criança aceitar a realidade. Para isso concorrem mães, pais, avós, tios e todos aqueles dispostos a investirem na qualidade de vida mental de seus pequenos.

Um comentário:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nivia Andres!
Para enfrentar as atribuições e atribulações do cotidiano tenho uma válvula de escape, que é dar asas a imaginação, pedindo ao Max os sais centuplicado, que me dão vigor e ideias para continuar neste maltratado e fascinante mundo, além é claro de ter uma amiga singular, a Dona Miquelina...
Caloroso abraço! Saudações maximinianas e miquelinaianas!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP