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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Gente do Céu!


Minha irmã Nina Rosa me enviou este texto interessantíssimo, do desembargador Breno Beutler Júnior, acerca das origens da expressão TCHÊ, que os gaúchos adoram usar:

“DE ONDE VEM O TCHÊ?

Sotaques e regionalismos na hora de falar são conhecidos desde os tempos de Jesus. Todos na casa do sumo sacerdote reconheceram Pedro como discípulo de Jesus pelo seu Jeito "Galileu" de se expressar.

No Brasil também existem muitos regionalismos. Quem já não ouviu um gaúcho dizer: "Barbaridade, tchê"? Ou de modo mais abreviado, "bah, tchê"?

Essa expressão, própria dos irmãos do sul, tem um significado muito curioso.

Para conhecê-lo, é preciso falar um pouquinho do espanhol, do qual os gaúchos herdaram seu "tchê".

Há muitos anos, antes da descoberta do Brasil, o latim marcava acentuada presença nas línguas européias como o francês, espanhol e o português. Além disso, o fervor religioso era muito grande entre a população mais simples.

Por essa razão, a linguagem falada no cotidiano era dominada por expressões religiosas como: "vá com Deus", "queira Deus que isso aconteça", "juro pelo céu que estou falando a verdade", e assim por diante.

Uma forma comum das pessoas se referirem a outra era usando interjeições também religiosas como: "Ô, criatura de Deus, por que você fez isso"? Ou "menino do céu, onde você pensa que vai"? Muita gente especialmente no interior ainda fala desse jeito.

Os espanhóis preferiam abreviar algumas dessas interjeições e, ao invés de exclamar "gente do céu", falavam apenas Che! (se lê tchê) que era uma abreviatura da palavra caelestis (se lê tchelestis) e significa "do céu". Eles usavam essa expressão para expressar espanto, admiração, susto. Era talvez uma forma de apelar a Deus na hora do sufoco. Mas também serviam dela para chamar pessoas ou animais.

Com a descoberta da América, os espanhóis trouxeram essa expressão para as colônias latino-americanas. Aí os gaúchos, que eram vizinhos dos argentinos, acabaram importando-a para a sua forma de falar.

Portanto exclamar "tchê" ao se referir a alguém significa considerá-lo alguém "do céu". Que bom seria se todos nos tratássemos assim. Considerando uns aos outros como gente do céu.”

domingo, 24 de abril de 2011

O afogado mais bonito do mundo


Um conto de Rubem Alves:

"SOU ANTROPÓFAGO. DEVORO livros. Quem me ensinou foi Murilo Mendes: livros são feitos com a carne e o sangue dos que os escreveram. Os hábitos de antropófago determinam a maneira como escolho livros.

Só leio livros escritos com sangue. Depois que os devoro deixam de pertencer ao autor. São meus porque circulam na minha carne e no meu sangue.

É o caso do conto "O afogado mais bonito do mundo", de Gabriel García Márquez. Ele escreveu. Eu li e devorei. Agora é meu. Eu o reconto.
É sobre uma vila de pescadores perdida em um nenhum lugar, o enfado misturado com o ar, cada novo dia já nascendo velho, as mesmas palavras ocas, os mesmos gestos vazios, os mesmos corpos opacos, a excitação do amor sendo algo de que ninguém mais se lembrava...

Aconteceu que, num dia como todos os outros, um menino viu uma forma estranha flutuando longe no mar. E ele gritou. Todos correram. Num lugar como aquele até uma forma estranha é motivo de festa. E ali ficaram na praia, olhando, esperando. Até que o mar, sem pressa, trouxe a coisa e a colocou na areia, para o desapontamento de todos: era um homem morto.

Todos os homens mortos são parecidos porque há apenas uma coisa a se fazer com eles: enterrar. E naquela vila o costume era que as mulheres preparassem os mortos para o sepultamento. Assim, carregaram o cadáver para uma casa, as mulheres dentro, os homens fora. E o silêncio era grande enquanto o limpavam das algas e liquens, mortalhas verdes do mar.

Mas, repentinamente, uma voz quebrou o silêncio. Uma mulher balbuciou: "Se ele tivesse vivido entre nós, ele teria de ter curvado a cabeça sempre ao entrar em nossas casas. Ele é muito alto...".

Todas as mulheres, sérias e silenciosas, fizeram sim com a cabeça.
De novo o silêncio profundo, até que outra voz foi ouvida. Outra mulher... "Fico pensando em como teria sido a sua voz... Como o sussurro da brisa? Como o trovão das ondas? Será que ele conhecia aquela palavra secreta que, quando pronunciada, faz com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque no cabelo?"

E elas sorriram e olharam umas para as outras.
De novo o silêncio. E, de novo, a voz de outra mulher... "Essas mãos... Como são grandes! Que será que fizeram? Brincaram com crianças? Navegaram mares? Travaram batalhas? Construíram casas? Essas mãos: será que elas sabiam deslizar sobre o rosto de uma mulher, será que elas sabiam abraçar e acariciar o seu corpo?"

Aí todas elas riram que riram, suas faces vermelhas, e se surpreenderam ao perceber que o enterro estava se transformando numa ressurreição: um movimento nas suas carnes, sonhos esquecidos, que pensavam mortos, retornavam, cinzas virando fogo, desejos proibidos aparecendo na superfície de sua pele, os corpos vivos de novo e os rostos opacos brilhando com a luz da alegria.
Os maridos, de fora, observavam o que estava acontecendo e ficaram com ciúmes do afogado, ao perceberem que um morto tinha um poder que eles mesmos não tinham mais. E pensaram nos sonhos que nunca haviam tido, nos poemas que nunca haviam escrito, nos mares que nunca tinham navegado, nas mulheres que nunca haviam desejado.

 A história termina dizendo que finalmente enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma..."

* O afogado mais bonito do mundo, do escritor colombiano Gabriel García Márquez, foi escrito em 1968 e publicado em 1972 na coleção de contos intitulada A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada.

Epístolas Paulianas

EPÍSTOLAS PAULIANAS 
 CONVERSANDO COM A MINHA AMIGA,
 DONA MIQUELINA, NO PERÍODO PASCAL

Diadema, minha amada cidade, 24 de abril de 2011.

Meu telefone portátil vibrou!!! Preciso dizer quem era?!... Claro que era a minha amiga, a Dona Miquelina (huhum...)!!!

Ela disse-me que como ouviu rumores transmitidos pela sua prestimosa copeira, a Hermenegilda (que ainda continua na condição de “noiva” do bombeiro Godofredo), dando conta que este reles escrevinhador outonal tem a intenção de versar sobre a Páscoa e como sabe que sou incrédulo resolveu dizer-me que não aguenta mais a hipocrisia que impera nas relações sociais, neste período pascali, porque todos externam votos de vida nova, mas nada muda após a Páscoa, porque os pertencentes a espécie Homo Sapiens continuam agindo pautados pela maledicência, inveja, entreveros, arrogância, egoísmo, infâmia...

Apesar destas considerações a Dona Miquelina ainda não perdeu a fé e permanece na condição de beata zelosa... Todas às quartas-feiras vai, à tarde, à Cripta da Catedral da Sé, com o escopo de desfiar o “Santo Rosário”, rogando a intercessão do poderoso Cacique Tibiriça e da Nossa Senhora de Guadalupe, para que tornem seus semelhantes não pautados pelos sentimentos perniciosos supra citados, porque acredita piamente na misericórdia divina e no poder da oração [sic] (coitada da Dona Miquelina, até quando continuará com este viés de explicar o inexplicável através do mito?!...).

Seu garboso e vigoroso marido, o Coronel Epaminondas Albuquerque Pinto Pacca, Comandante de um Batalhão do Corpo de Bombeiros, localizado na cidade de São Paulo-SP, já organizou uma festa para os infantes desvalidos da Vila Brasilândia, onde a minha amiga é voluntária de uma Entidade Assistencial e no sábado de Aleluia, depois de malhar o Deputado Jair Bolsanaro, digo, Judas, entregará ovos de Páscoa para os pequeninos desamparados e terá como auxiliar, o bombeiro Godofredo, que chegará triunfalmente dirigindo um veículo do Batalhão e, ao avistar os petizes, acionará as possantes e roliças mangueiras do veículo, que expelirão jatos de água para cima para o júbilo da gurizada!!!!... É evidente que a copeira Hermenegilda prepará suas imperdíveis e suculentas rosquinhas!!!! Aliás, falando nas rosquinhas da Hermenegilda, o bombeiro Godofredo, nunca, jamais, em tempo algum, se priva delas e quase todos os dias se deleita com elas  reiteradas vezes  e, mesmo assim, está sempre de prontidão para mais rosquinhas...

A ligação foi interrompida de supetão!!!
Por Dionísio, sempre que sou aparelho da Dona Miquelina fico exaurido e, algumas vezes,  desmemoriado, e só recupero minhas reminiscências quando clamo:

Max!!!!!!!!!!!! Traga meus sais centuplicados!!!!!!!!!!

Até breve...

João Paulo de Oliveira
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*João Paulo de Oliveira, 58, pertence a uma das mais antigas famílias do Grande ABC, com raízes na Freguesia de São Bernardo. Andreense de nascimento, é professor e leciona na Escola Municipal Anita Catarina Malfatti, em Diadema, na Região do ABC Paulista. Ocupa também o cargo de Coordenador Pedagógico na EMEF Professora Amélia Rodrigues de Oliveira, na Prefeitura de São Paulo. Além de Pedagogo é Mestre em Educação e pós-graduando em História. Especializa-se no estudo da árvore genealógica familiar. Visite seu blog, Celulóide Secreto, Outro viés, em http://joaopauloinquiridor.blogspot.com Contatos com o articulista pelo e-mail professor.ms.joaopaulo@gmail.com
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sábado, 23 de abril de 2011

Feliz Páscoa!

A todos os amigos e amigas, leitores e leitoras, desejo que tenham uma PÁSCOA feliz e abençoada! Que, em seus corações e mentes, encontrem sempre espaço para a amizade, o amor, a solidariedade e a compaixão. E coragem, para começar, a cada dia, uma VIDA nova!

Chuchu


Segundo ensina o dicionário, chuchu, do francês antilhano chou-chou, é uma trepadeira cucurbitácea, de nome científico Sechium edule, de fruto verde e comestível. Na linguagem popular, pessoa muito bonita, graciosa; muito querida, ou que é a favorita, a mais mimada.

Vocês devem estar achando que estou louca ao falar de chuchu em plena época de Páscoa, afinal, até prova em contrário, chocolates são feitos com cacau...

Pois bem, explico. O Chuchu a que me refiro não era um legume. Era um digno representante da família Leporidae cujos membros são popularmente conhecidos como coelhos! No mais, confere com o dicionário, era lindo, fofinho, gracioso, elegante e transformou-se em favorito, no mais mimado...

Nossa história com o Chuchu começou quando minha irmã Nina ganhou aquele coelhinho branco de seus amigos e o trouxe para o apartamento. Na época, morávamos em Santa Maria, para estudar.

Logo nos primeiros dias de convivência nos apaixonamos por ele. E também tivemos prejuízos avantajados. Mesas, cadeiras, vassouras, sapatos foram solenemente roídos pelo láparo esfomeado que, nas horas de solidão, era o rei do pedaço. Nada escapava de seus dentões serrilhados...Não pensem que o deixávamos à míngua. Comia à farta, uma feira inteira por dia...

Seguidamente havia um conselho da tribo, para discutir o banimento do Chuchu, por prejuízo mobiliário e econômico, mas o danadinho sempre ganhou todas as questões, somente advogando com o olhar pidão...Resistir, quem havia de?

Assim, em pouco tempo, tornou-se o rei do apartamento 44, altos do Cine Glória, nossa feliz morada na cidade universitária...Por algum tempo, o reino dele era a área de serviço; depois, tomou de assalto a casa inteira, quando adquiriu comportamento de gente, respeitando o código de conduta estabelecido: Não roer, não lamber, não mastigar roupas, móveis e utensílios, não fazer xixi no sofá nem nos cantinhos. Comportar-se com um bom menino, obediente e educado. Um gentle rabbit!

Quando chegávamos da aula, Chuchu nos esperava na porta, confortavelmente instalado nos peleguinhos de lustrar. Daí, pulava no meu colo, no sofá, para assistir televisão, olhar fixo e interessado. Adorava o Programa da Xuxa (que assistia sozinho, diga-se de passagem, batendo a patinha ao ritmo do ilariê...desconfio que suspeitava ser parente da moça!) e as novelas, principalmente a das oito. Creio até que suspirava, nos momentos mais emocionantes dos folhetins televisivos...Nos intervalos, fazia o seu show e merecia aplausos – como a sala era ampla, dividida em dois ambientes, Chuchu descia do sofá, engatava uma primeira, ganhava velocidade e deslizava até encontrar a parede, batendo a cabecinha, de propósito...Voltava vendo estrelas, com cara de malandro. Se deixássemos, repetia a façanha, até cansar. Depois, dormia, invariavelmente, no nosso colo. Acordado, como guri obediente, seguia a dormir em sua casinha.

Nossa vida com Chuchu fluiu agradável, por vários meses. Quando chegaram as férias, afastamos a possibilidade de levá-lo para Santiago, pois a mãe não o aceitaria. Tinha cachorro, gato e caturrita (que assobiava o hino nacional inteiro!) na casa...

Então, a Nina confabulou com um colega que tinha sítio e acertou a permanência do Chuchu na temporada de férias. Despedidas chorosas... mas, fazer o quê? Foi-se o Chuchu, rumo à serra, com mochila e peleguinho...

Ao retornarmos à Santa Maria, rapidamente minha irmã foi ter com o tal amigo, para combinar o resgate do Chuchu. Voltou desconsolada e furiosa. O Chuchu, lindo e fofo, havia virado refeição, segundo o depoimento do gajo assassino. Até hoje não sabemos se o Chuchu, de fato, virou comida ou fugiu (que de bobo não tinha nada...), mas o resto, podem acreditar, é tudo verdade!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O Coelhinho da Páscoa existe?


PÁSCOA PARA INGLÊS E NÃO INGLÊS*

"- O Coelhinho da Páscoa existe?

- Existe sim.

- Mas eu o vi chegando de van.

- ............................................
- E?

- Tem muito ovo para entregar, e o serviço de entrega dá uma força.
Esta mãe enfrenta um de seus primeiros desafios. Estimular a imaginação, sem a qual o filho não suporta a infância e nem a vida adulta. Ela consegue fazer isto porque teve outra mãe que fez o mesmo com ela. Pode não ter sido quem a pôs no mundo e sim uma substituta, que a carregou mundo afora. Mas o mundo está no tempo e, tempos depois, muda o diálogo:

- O Coelhinho da Páscoa existe?

- Na tua opinião?

- Eu acho que não.
- (Silêncio acompanhado de colo).

- (Silêncio acompanhado de lágrimas).
Esta mãe enfrenta agora um novo desafio. Estimular a aceitação da realidade, sem a qual o filho não suporta a infância e nem a vida adulta.

Em nenhum outro papel do teatro humano existe um paradoxo tão pesado. Um psicanalista meio poeta, chamado Winnicott, disse-o primeiro e melhor. Ele era inglês e defendi duas funções para as mães; a primeira era iludir o seu bebê. Sem esta ilusão, a criança não se torna criativa e capaz de enfrentar a realidade. Depois, cabe à mesma mãe desiludir. Sem esta desilusão, a criança também não pode encarar a vida como ela é.
Mãe e filho jamais serão os mesmos depois desses diálogos. Mas vão estar aptos a viver no livre trânsito entre acolher o que é e reinventar o que não pode ser. Uma espécie de negociação entre a realidade e a imaginação, já que uma não vive sem a outra.

Haja talento, e teve psicanalista dizendo que é impossível. Chamava-se Freud e não era inglês. Mas, para ele pouco importava a impossibilidade de ser mãe e pai. Fazia-se o possível, como de resto, e o possível já seria suficiente para justificar com sobras a existência humana. Certa feita, ao conversar com um poeta alemão, foi firme ao dizer que a sombra da morte tornava a vida ainda mais iluminada.
Outro poeta abordou o mesmo tema, antes e melhor. Ele disse: A thing of beauty is a joy for ever. Mal traduzindo, significa que uma coisa linda é um tesouro para sempre. Este, sim, era inglês.

No meio de tantas belezas, deu-me vontade de dizer que a vida é para ser degustada entre o que oferece e a busca de algo mais. É para inglês e não inglês viver. É imaginar entre os vãos da falta. Na Páscoa e no resto do ano."
*Celso Gutfreind, in Zero Hora, pág. 2, terça-feira, 19 de abril de 2011

O ato corriqueiro de ler o jornal todos os dias às vezes é interrompido por alguma surpresa, não raro chocante, mais desagradável do que a maioria das notícias que nos impactam. Da mesma maneira, temos surpresas agradáveis, como a bela crônica de Celso Gutfreind (interino da página dois do jornal Zero Hora, no dia 20), tratando de um assunto bastante profundo, como a necessidade do ser humano ser estimulado, em sua criatividade, através da fantasia dos contos de fadas, Coelhinho da Páscoa, Papai Noel e congêneres, para poder suportar infância e a vida adulta. Da mesma forma, há o desafio de fazer a criança aceitar a realidade. Para isso concorrem mães, pais, avós, tios e todos aqueles dispostos a investirem na qualidade de vida mental de seus pequenos.

Parece, mas não é...

O jornal Zero Hora de hoje, 22, traz na seção Almanaque Gaúcho, capitaneada, atualmente, pelo interino, Mauro Toralles, uma pequena história:
 O VELHINHO E O MURO

 Uma repórter de televisão ouviu falar de um judeu muito velhinho que ia todo dia ao Muro das Lamentações para rezar e lá ficava por muito tempo. Decidiu verificar. Observou-o rezando por uns 45 minutos e resolveu se aproximar para a entrevista:
- Desculpe-me, senhor: qual é o seu nome?
- José, respondeu ele.
- Senhor, há quanto tempo vem ao Muro orar?
- Bem, há uns 60 anos.
- Sessenta anos? Isso é incrível! O que o senhor pede?
- Peço que os cristãos, os judeus e os muçulmanos vivam em paz. Peço que todas as guerras e todo o ódio terminem. Peço que as crianças cresçam em segurança e se tornem adultos responsáveis. Peço por amor entre os homens.
- E como o senhor se sente, pedindo isso por 60 anos?
- Me sinto como se estivesse falando com uma parede...
Deveria ser uma piada, mas não é!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Totalmente off!

A Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul não tem mais o que fazer. Acaba de se expor ao ridículo ao aprovar, por 26 votos a 24, projeto de Lei de autoria do deputado Raul Carrion (PCdoB), de inútil aplicação, que institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras para a Língua Portuguesa, em todo documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação por meio de palavra escrita sempre que houver, no idioma, palavra ou expressão equivalente.

Segundo reza a nova lei, quando não houver na Língua Portuguesa palavra ou expressão equivalente, o significado ou tradução da palavra ou expressão estrangeira deverá estar escrito. A tradução deve ser do mesmo tamanho que as palavras em outro idioma expostas no texto. Todos os órgãos, instituições, empresas e fundações públicas deverão priorizar na redação de seus documentos oficiais, sítios virtuais, materiais de propaganda e publicidade a utilização da Língua Portuguesa.

Para entrar em vigor, o projeto de lei aprovado precisa ser sancionado pelo governador Tarso Genro. Após a sanção, o poder Executivo terá de regulamentar a fiscalização da lei e instituir sanções a quem descumpri-la.

Resta ainda saber qual será a base de dados para a fiscalização, já que muitos termos, como internet e mouse, já foram incluídos em dicionários, como o Aurélio, na forma que se apresentam no idioma de origem.

O principal argumento do deputado Raul Carrion, ao defender seu projeto contra o uso de estrangeirismos, é contestado pelo gramático Claudio Moreno. O parlamentar afirma que a lei é necessária para proteger o idioma e evitar a subjugação do Português ao Inglês. Já o professor garante que a Língua Portuguesa não precisa de defesa e não vai desaparecer pela incorporação de palavras de origem estrangeira. Moreno considera que a lei recém aprovada fere o direito de livre expressão do cidadão.

O deputado Carrion deve ter seguido orientação de seu guru, o deputado federal Aldo Rebelo, que empreende luta sem trégua contra estrangeirismos, felizmente, até agora, sem qualquer resultado. Os dois não sabem que a língua se autorregula e quem decide a sua trajetória são os usuários, adotando ou dispensando palavras e/ou expressões, ao longo do tempo. O dicionário as incorpora ou suprime segundo a vontade dos falantes. Tudo muito simples, sem a necessidade de leis esdrúxulas.

Percebe-se nessa história ridícula um forte viés corporativista.  Os partidos da situação votaram a favor do projeto e, como detem maioria, o  dito foi aprovado. Sem, ao menos, discutirem com quem entende do riscado. Melhor serviço público prestariam os parlamentares se lutassem para incluir nos currículos escolares, desde a primeira série do Ensino Fundamental, o ensino de uma segunda língua, fato que tornaria mais competitivos e qualificados os estudantes na disputa por vagas no mercado de trabalho.  Como se vê, os senhores parlamentares estão, quase sempre, na contramão dos interesses de quem os elegeu.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Reflexão sobre a perversidade humana

Acabo de ler um artigo do teólogo e filósofo Leonardo Boff que aborda, com muita  propriedade, a paradoxalidade do ser humano, que se move habilmente entre o santo e o assassino - é sábio e demente, anjo e demônio, simbólico e diabólico em suas ações cotidianas porque assim é a sua natureza, pendular, oscilatória. O pano de fundo a merecer a análise é a chacina promovida por um desvairado em uma escola do bairro de Realengo, subúrbio do Rio de Janeiro, no dia 5 de abril, passado, em que morreram 12 crianças e restaram mais 12 feridas, quatro ainda hospitalizadas. Lamentável que essa atitude brutal seja recorrente. Já provocou dor e horror em várias partes do mundo.

Nessas horas extremas, de grande comoção social, há diversidade de sugestões para deter a violência originada pela facilidade de obtenção de armas de fogo por qualquer ser vivente, comercializadas que são em cada esquina de qualquer cidade e  contrabandeadas pelas vias livres de nossas fronteiras de inexistente fiscalização.

Soluções? Há muitas. E da responsabilidade de todos. Resta saber se algum dia haverá disponibilidade individual e coletiva para promovermos as mudanças necessárias que produzam justiça e estabeleçam inclusão e paz.
Leiam, abaixo, o inquietante artigo de Leonardo Boff:

"A doença chamada homem

Esta frase é de F. Nietzsche e quer dizer: o ser humano é um ser paradoxal, são e doente: nele vivem o santo e o assassino. Bioantropólogos, cosmólogos e outros afirmam: o ser humano é, ao mesmo tempo, sapiente e demente, anjo e demônio, dia-bólico e sim-bólico.

Freud dirá que nele vigoram dois instintos básicos: um de vida que ama e enriquece a vida e outro de morte que busca a destruição e deseja matar. Importa enfatizar: nele coexistem simultaneamente as duas forças.

Por isso, nossa existência não é simples mas complexa e dramática. Ora predomina a vontade de viver e então tudo irradia e cresce. Noutro momento, ganha a partida a vontade de matar e então irrompem violências e crimes como aquele que ocorreu recentemente.

Podemos superar esta dilaceração no humano? Foi a pergunta que A. Einstein colocou numa carta de 30 de julho de 1932 a S. Freud: “Existe a possibilidade de dirigir a evolução psíquica a ponto de tornar os seres humanos mais capazes de resistir à psicose do ódio e da destruição”?

Freud respondeu realisticamente: “Não existe esperança de suprimir de modo direto a agressividade humana. O que podemos é percorrer vias indiretas, reforçando o princípio de vida (Eros) contra o princípio de morte (Tanatos). E termina com uma frase resignada: “esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderemos morrer de fome antes de receber a farinha”. Será este o nosso destino?

Por que escrevo isso tudo? É em razão do tresloucado que no dia 5 abril numa escola de um bairro do Rio de Janeiro matou à bala 12 inocentes estudantes entre 13-15 anos e deixou 12 feridos.

Já se fizeram um sem número de análises, foram sugeridas inúmeras medidas como a da restrição da venda de armas, de montar esquemas de segurança policial em cada escola e outras. Tudo isso tem seu sentido. Mas não se vai ao fundo da questão.

A dimensão assassina, sejamos concretos e humildes, habita em cada um de nós. Temos instintos de agredir e de matar. É da condição humana, pouco importam as interpretações que lhe dermos. A sublimação e a negação desta anti-realidade não nos ajuda. Importa assumi-la e buscar formas de mantê-la sob controle e impedir que inunde a consciência, recalque o instinto de vida e assuma as rédeas da situação.

Freud bem sugeria: tudo o que faz criar laços emotivos entre os seres humanos, tudo o que civiliza, toda a educação, toda arte e toda competição pelo melhor, trabalha contra a agressão e a morte.

O crime perpetrado na escola é horripilante. Nós cristãos conhecemos a matança dos inocentes ordenada por Herodes. De medo que Jesus, recém-nascido, mais tarde iria lhe arrebatar o poder, mandou matar todas as crianças nas redondezas de Belém. E os textos sagrados trazem expressões das mais comovedoras: “Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos e não quer ser consolada porque os perdeu”(Mt 2,18).

Algo parecido ocorreu com os familiares das vítimas.

Esse fato criminoso não está isolado de nossa sociedade. Esta não tem violência. Pior. Está montada sobre estruturas permanentes de violência. Aqui mais valem os privilégios que os direitos.

Marcio Pochmann em seu Atlas Social do Brasil nos traz dados estarrecedores: 1% da população (cerca de 5 mil famílias) controlam 48% do PIB e 1% dos grandes proprietários detém 46% de todas as terras. Pode-se construir uma sociedade de paz sobre semelhante violência social?

Estes são aqueles que abominam falar de reforma agrária e de modificações no Código Florestal. Mais valem seus privilégios que os direitos da vida.

O fato é que em pessoas perturbadas psicologicamente, a dimensão de morte, por mil razões subjacentes, pode aflorar e dominar a personalidade. Não perde a razão. Usa-a a serviço de uma emoção distorcida. O fato mais trágico, estudado minuciosamente por Erich Fromm (Anatomia da destrutividade humana, 1975) foi o de Adolf Hitler.

Desde jovem foi tomado pelo instinto de morte. No final da guerra, ao constatar a derrota, pede ao povo que destrua tudo, envenene as águas, queime os solos, liquide os animais, derrube os monumentos, se mate como raça e destrua o mundo. Efetivamente ele se matou e a todos os seus seguidores próximos. Era o império do princípio de morte.

Cabe a Deus julgar a subjetividade do assassino da escola de estudantes. A nós cabe condenar o que é objetivo, o crime de gravíssima perversidade e saber localizá-lo no âmbito da condição humana. E usar todas as estratégias positivas para enfrentar o Trabalho do Negativo e compreender os mecanismos que nos podem subjugar.

Não conheço outra estratégia melhor que buscar uma sociedade justa, na qual o direito, o respeito, a cooperação e a educação e saúde para todos sejam garantidos.

E o método nos foi apontado por Francisco de Assis em sua famosa oração: levar amor onde reinar o ódio, o perdão onde houver ofensa, a esperança onde grassar o desespero e a luz onde dominar as trevas. A vida cura a vida e o amor supera em nós o ódio que mata."

Fonte: Blog do Noblat

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Lope

Parece que os cineastas brasileiros estão se saindo melhor dirigindo filmes fora do país. Depois de Fernando Meirelles (O Jardineiro Fiel e Ensaio sobre a Cegueira) e Walter Salles (Diários de Motocicleta), agora chegou a vez de Andrucha Waddington, com o seu Lope, que conta os percalços da vida do espanhol Félix Lope de Vega, poeta, dramaturgo, dublê de guerreiro e amante. O drama, filmado na Espanha e no Marrocos, é uma produção hispano-brasileira (da Conspiração Filmes, em que Waddington é sócio da parte brasileira).

Alberto Ammann e Selton Mello

Lope também marca o surgimento de um novo astro - o argentino radicado na Espanha Alberto Ammann, que já é festejado como o novo Javier Barden. Amann tem tudo o que o papel exige: é bonito, intenso e viril. O longa também conta com as atuações de Sonia Braga (irreconhecível, envelhecida pela maquilagem), Selton Mello os atores espanhóis Pilar Lopes de Ayala, Angélica de Manoel de Oliveira e Leonardo Watling.

Não há espanhol que não saiba quem foi Lope da Vega. Um dos mais talentosos poetas e autores de teatro, ele escreveu mais de 1.500 peças e teve uma existência muitíssimo movimentada - sua vida amorosa foi ainda mais escandalosa que sua produção literária e causou tumulto e perseguição na sociedade europeia do século XVI. Demorou para o escritor ganhar um filme em sua homenagem e, curiosamente, ele saiu das mãos de Andrucha Waddington (Casa de Areia; Eu Tu, Eles), um brasileiro.

Lope foi bem recebido na Europa e tenta condensar o período de maior grandiosidade na vida do poeta. O longa-metragem tem um pouco de tudo: romance, intriga, briga de espada, perseguições e teatro mambembe. É como se tentasse abraçar um universo gigantesco em quase duas horas. Consegue. Mas não sem deixar a impressão de que poderia ser ainda mais profundo. O resultado final não decepciona, entretanto, poderia ser melhor. Em compensação, comparado a algumas pretensiosas produções nacionais, Lope é um belo filme, com direção de arte impecável. Vale a ida ao cinema. 
 

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Alguma poesia...


Procure os seus caminhos,
mas não magoe ninguém nessa procura.
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz,
Revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças,
Mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!

Fernando Pessoa