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segunda-feira, 28 de março de 2011

Anahy de las Misiones, Mãe Coragem de bombacha

No sábado, 26, assisti ao filme Anahy de las Misiones, na Estação do Conhecimento. Ao final da exibição os espectadores trocaram impressões sobre a obra, lançada em 1997, no início de uma nova etapa para o cinema nacional. A produção surpreendeu, tanto pela magnitude quanto pela narrativa apresentada - custou R$ 2,3 milhões, um orçamento vultoso para filmes nacionais, naquela época e até hoje; é falado em portunhol arcaico; foi filmado quase que totalmente a céu aberto e as cenas foram feitas em diversas regiões do estado. Os cenários do filme são a larga fronteira cisplatina, as campanhas de Uruguaiana, as grutas de Caçapava do Sul e os Campos de Cima da Serra: por todos cruza Anahy, guiando seus filhos e agregados, esperando o fim dos combates da Guerra dos Farrapos, vendendo produtos pilhados dos despojos dos mortos nas batalhas, acomodados em uma carreta.

A fim de agregar informação sobre o filme, encontrei um trabalho de Roger Luiz da Cunha Bundt, doutorando em Comunicação Social na PUCRS e professor do Curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), RS, denominado Anahy de las Misiones e a Identidade Gaúcha, em que o autor sustenta que o filme foi livremente inspirado em Mãe Coragem e seus filhos, de Bertold Brecht - na história de Anahy e sua prole se sobressaem diversas quebras nos paradigmas pelos quais o gaúcho é encarado: o patriarcado, a masculinidade, o cavalo, a terra, a coragem, entre outros. A seguir, mais algumas conclusões do pesquisador ao analisar o filme:

Na personalidade de Anahy encontramos a coragem e a obstinação do gaúcho; ela é a monarca das coxilhas que não sabe viver querenciada, como dizem os personagens do filme, ou seja, não consegue viver num único lugar. Precisa da imensidade, da liberdade dos pampas, onde se vive sem lei e sem ordem; fora da civilização.

Porém, limitar-se a considerar Anahy como um filme meramente evocativo das tradições e lendas gauchescas é perder uma grande parte de sua força e unicidade. Há nuances da história que se fundamentam nessas reminiscências míticas, mas que, de certa forma, e muito sutilmente, as reveem e subvertem, à custa de passarem despercebidas pelo espectador menos atento. Conduzindo uma carroça sem bois, sobrevivendo ao ambiente de destruição em meio a uma luta que não é sua, negociando com os dois lados contendores: essa é uma síntese de Anahy, livre para seguir seu caminho, o rumo determinado pelas guerras, das quais se serve para manter-se na lida e sobreviver.

Um dos pontos que mais se discute no filme é a condição da mulher. Picumã e Luna, respectivamente agregada e filha de Anahy, sonham em ter um pouso certo e um teto sob o qual possam viver; a protagonista, ao contrário, não abre mão de dormir ao ar livre para evitar esse mesmo desejo de lar, pois julga que a mulher é errante desde cedo, que é característica do homem a sanha da conquista, da posse. E é desse querer ter que nascem as guerras, as mortes e os sofrimentos pelo mundo.

É uma saga de sobrevivência onde Anahy retoma, reapresenta e rediscute esta fundação da identidade gaúcha e, com isso, atualiza o discurso do filme com o discurso histórico, que hoje se esforça por enquadrar nos seus textos os marginalizados do passado histórico que, se não foram heróis no sentido da doutrina positivista, também deram seu sangue para a construção do que hoje chamamos de Rio Grande do Sul e de gaúchos.


É esta opção por retratar os marginalizados do passado histórico que diferencia Anahy de las Misiones de grandiosas produções estrangeiras e locais. Um ponto de divergência está na ausência de cenas de combates: só o que se vê da guerra é seu lado feio - a morte, a destruição, a dor e o sofrimento e não só um momento traumático de destruição do homem.  A Guerra dos Farrapos não é tratada no filme como uma corajosa busca por um ideal, ela é apenas um pano de fundo para uma história de sobrevivência em meio a um ambiente violento.

Outro diferencial interessante de Anahy de las Misiones é a opção de seu diretor por trabalhar com diálogos fiéis ao linguajar típico da época, pesquisando em autores como Simões Lopes Neto as formas linguísticas utilizadas. Assim, as personagens travam diálogos cheios de expressões inicialmente estranhas ao ouvido, mas que, como o próprio filme, convidam a uma aceitação, uma interpretação da prosa estilizada, em um portunhol arcaico falado naquelas regiões fronteiriças. Falam-se em feredimentos, paisanos, relancinas e uma série de outros termos desconhecidos das platéias, o que expressa a inovação do diretor nessa opção, já que isso poderia limitar,  como de fato limitou, a boa aceitação do filme no circuito nacional.

O filme desloca o gênero da personagem principal e coloca uma mulher a protagonizar a passagem de um período, lugar e atividade institucionalizados como masculinos. Destitui o monarca das coxilhas, apeia o gaúcho do cavalo e fá-lo bater perna a pé e sem rumo pelo Continente. O centauro é desmontado, vira boi na canga, puxando a carroça sem projeto de vida, saqueando os que morreram em combate. Os heróis da guerra ou estão longe, ou derrotados, feridos, ou são vistos em momentos prosaicos, conversando, tomando mate, e não guerreando. Há um momento em que Giuseppe Garibaldi aperece conversando com os oficiais farrapos sobre o projeto da construção dos lanchões em que iria navegar posteriormente. Em outra ocasião, Anahy e os filhos, surpresos, observam um dos barcos ser transportado por entre os campos. Não há discursos insuflados defendendo a República dos Pampas, há menções esparsas e entrecortadas a um ideal que não fica completamente esclarecido nem é defendido.

Anahy de las Misiones foi uma boa surpresa, ainda que tardia, já que a maioria dos filmes brasileiros continua muito ruim. Carecemos de bons roteiristas e de bons argumentos. Contrapontos são os excelentes filmes argentinos. Experimentem assistir O Segredo dos seus Olhos...

Um comentário:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nivia Andres!
Agradeço sua atenção em nos brindar com uma resenha circunstanciada, onde seu viés arguto nos deixa propensos a procurar, com celeridade, esta imperdível película!
Caloroso abraço! Saudações pampeanas!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP