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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A Ilusão da Alma


Minha leitura atual é A Ilusão da Alma - Biografia de uma Ideia Fixa, de Eduardo Gianetti, um relato em primeira pessoa de uma perturbadora e instigante conversão filosófica. Após a retirada de um tumor cerebral que o deixa parcialmente surdo, um jovem professor de literatura, especialista em Machado de Assis, isola-se do mundo e passa a viver entre os livros, absorvido por uma paixão intelectual: o estudo da relação entre o cérebro e a mente.

Do embate entre Sócrates e Demócrito no Iluminismo grego do século V a.C. aos achados e espantos da moderna neurociência, a trama do livro descreve a viagem de descoberta do narrador pela história das ideias.

A aventura, entretanto, tem um desfecho inesperado, pois à medida que avança nos estudos o protagonista se descobre nas malhas de um credo obsessivo e aterrador: a ideia de que tudo que lhe passa pela consciência - suas alegrias e tristezas, suas memórias, temores e esperanças, seu senso de identidade e sua sensação de liberdade ao agir no mundo - nada mais é senão o produto da atividade de bilhões de células nervosas situadas em seu cérebro. A paixão de conhecimento que nele desperta após a cura do tumor físico dá lugar a um tumor metafísico - uma crença despótica alojada no cerne da consciência anfitriã.

Urdindo com engenho ficção e ensaio, relato confessional e argumento filosófico, A Ilusão da Alma é uma meditação corajosa sobre a condição humana - uma sinfonia sobre a incerteza e a fragilidade do que estamos habituados a crer e pensar sobre nós mesmos. Um livro dedicado a todos aqueles que, independentemente de formação acadêmica ou ocupação profissional, mantêm viva a chama de uma irrefreável curiosidade em torno daquilo que o enigma humano, desvendado, possa abrigar.

“Para encontrar a alma”, dizia o neuropsicólogo russo Alexander Luria, “é necessário perdê-la”. O risco, entretanto, como atesta o drama do narrador deste livro, é fazer da ciência uma religião; é perder a alma para não mais encontrá-la. E se a busca da verdade científica sobre o Homo Sapiens resultar na descoberta do nosso autoengano cósmico? E se a retidão cognitiva desaguar, por fim, na loucura? O que prevalece: a verdade a todo custo ou a sanidade mental?

Questionado acerca da difícil definição do gênero de A Ilusão da Ama, que pode ser tomado por um ensaio romanceado, Gianetti explica, em entrevista concedia ao blog Máquina de Escrever, do jornalista Luciano Trigo, ancorado no G1, que ensaio e ficção, narrativa confessional e argumento racional se entrelaçam na trama de A Ilusão da Alma. “Fiz assim porque a vida é assim. Os gêneros literários são meras convenções acadêmicas ou conveniências mercadológicas. Por que sujeitar-se a elas? O que é, afinal, ficção? E o que é não-ficção? Há mais conhecimento acerca da psicologia profunda do animal humano num romance de Dostoiévski ou Machado do que em dezenas de tratados sisudos de psicologia acadêmica. A opção por um gênero misto – trans-ficção, se quiserem – se prende ao fato de que, mais do que discutir a verdade ou falsidade de uma determinada hipótese sobre a relação mente-cérebro, o que me importa é buscar entender o que se passa na experiência pessoal de alguém que se converte, ainda que à revelia, ao fisicalismo. Quanta verdade suporta o espírito humano?"

Sobre a gênese do protagonista - um professor de literatura especializado em Machado de Assis, Gianetti comenta que o personagem nasceu aos poucos. "Quando comecei o livro, ele ainda não estava bem delineado, mas definiu-se no desenrolar da trama. Queria que fosse alguém vindo da área de humanas; alguém capaz de mobilizar o que há de reflexão filosófica sofisticada em Machado, algo que raramente recebe a devida atenção dos críticos literários e dos sociólogos que analisam sua obra. Obviamente, o narrador tem muito a ver comigo, com a minha bagagem de estudo e com as minhas inquietações, mas é um desdobramento ou radicalização de aspectos da minha personalidade, mais ou menos como os quatro interlocutores do diálogo ficcional no meu livro “Felicidade”. Uma fonte de inspiração foi o romance de Rainer Maria Rilke, “Os cadernos de Malte Laurids Brigge”, narrado em primeira pessoa pela persona dinamarquesa – em oposição à mediterrânea – do poeta alemão. Outra grande influência foi “O livro do desassossego” de Bernardo Soares, alter ego Fernando Pessoa".

Instado a definir o papel do cientista hoje, Gianetti argumenta que "gostaria de saber o que faz um intelectual pós-moderno quando porventura descobre que padece de uma enfermidade, um tumor cerebral por exemplo. É aí que saberemos se ele tem ou não fé na ciência. O papel do cientista hoje é o que sempre foi e sempre será: perseguir a verdade objetiva onde quer que ela esteja, sem trégua e sem perdão. A ciência precisa ser protegida dos que a atacam, mas também defendida dos que esperam dela respostas que ela jamais poderá oferecer. As perguntas essenciais da vida – a busca de sentido para a existência e de valores para o exercício das nossas escolhas individuais e coletivas (se elas de fato existem) – não se prestam a uma solução com base nos procedimentos e métodos científicos. Daí a encrenca em que por fim se enreda o narrador de A Ilusão da Alma. Não se trata de ter fé na ciência, mas de entender os limites do que ela pode alcançar".

Como a obra reflete um retorno a um debate filosófico milenar sobre as relações entre mente e cérebro, em bases éticas e científicas, em detrimento de uma reflexão psicanalítica sobre a alma humana, levanta-se a questão sobre possível decadência da psicanálise, mas Gianetti está convicto de que Freud, se estivesse vivo, "estaria tremendamente interessado nos achados e implicações dos programas de pesquisa em neurociência e áreas afins. Há diversas passagens espalhadas em sua obra, desde os primeiros escritos, em que ele manifesta enorme apreço e elevada expectativa em relação ao que o avanço do conhecimento científico experimental sobre a relação mente-cérebro poderia representar no futuro, tanto em termos cognitivos como terapêuticos".

Leiam um trecho dessa busca perturbadora:

"A experiência da vida tal como a vivemos é essencialmente um estado mental: os meus pensamentos me obedecem, e as minhas ações obedecem aos meus pensamentos; quando eu me sento ao piano, é como se as notas e os sons que me ouço tocar partissem de mim e dependessem da minha vontade e intenção - é como estou habituado a pensar naquilo que me vai pela consciência.

Mas a realidade da vida, tal qual a ciência revela, é coisa radicalmente distinta. Pois as notas e os sons que povoam a nossa subjetividade não procedem de um genuíno piano, em que toca e improvisa um eu-concertista, mas em verdade povém de uma pianola autopropulsada - o cérebro - na qual os efeitos sonoros gerados resultam de perfurações - fruto de um mix de fatores genéticos e adquiridos - embutidos no rolo ou cilindro giratório. (A questão não é hardware versus software - porque o cérebro é ambos e muito mais que isso - ou nature versus nurture: pois a interação do cérebro em formação com o meio, desde o instante da concepção, assim como os nossos hábitos de vida e o processo educacional que nos transmite saberes e exercita as redes de fiação neural do córtex que nos distingue dos animais são agentes de transformação tão rigorosamente físicos como a informação genética).

Sentado à pianola da sua subjetividade, o animal humano se enfuna do seu notável dom pianístico - "milagre da criação" - e viaja pela vida entretido e encantado com as cantigas e melodias que desde criança pratica e que desde os primórdios da espécie aprendeu a fantasiar que ouve a si próprio tocar. Ou como se lê nos "cadernos metafísicos" do jovem Darwin, onde ele se permitiu refletir, sem culpa ou receio de represália, sobre as implicações de sua descoberta: "A liberdade de escolha e o acaso são sinônimos - agite dez mil grãos de areia, e um deles subirá ao topo - assim os pensamentos, um subirá à tona de acordo com a lei". A pianola é a lei".

Recomendo. A leitura é fascinante.

Um comentário:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nivia Andres!
É sempre alvissareiro ter a prerrogativa de ler uma resenha de autoria da sua brilhante, erudita e requintada pena!!! Já inclui na minha lista para adquirir na próxima visita que farei à Livraria Cultura da Avenida Paulista!!!!...
Aproveito o ensejo para parabenizá-la, porque é salutar saber que temos jornalistas, como a Senhora, pautada pela ética, imparcialidade, lisura, além de ser absolutamente do bem!!!!...
Calorosas saudações éticas!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP