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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sustentabilidade x Apocalipse

Sustentabilidade é uma palavra muito em moda atualmente, que serve para definir convivência adequada com a disponibilidade de bens naturais, sabendo o sujeito que estes não são mais ilimitados e já ultrapassamos todos os limites aceitáveis de convivência pacífica com a natureza. Creio que as últimas catástrofes no Rio de Janeiro e em São Paulo demonstram perfeitamente que perdemos o tino - a sociedade sucumbiu. A sociedade civil e o governo desrespeitaram todas as regras e o que vemos nestes lugares são cenas típicas do Apocalipse, não do bíblico, mas do preço que a natureza devastada pela mão humana está a cobrar.

Achei interessante um artigo de Leonardo Boff, publicado recentemente no Blog do Noblat. Não aprecio as escolhas ideológicas do ex-frei porém, seu pensamento acerca da preservação do meio ambiente e da ética que deve reger as relações humanas me parece bastante pertinente.

Leiam o artigo em questão:

"O Antropoceno: uma nova era geológica

As crises clássicas conhecidas como, por exemplo, a de 1929, afetaram profundamente todas as sociedades. A crise atual é mais radical, pois está atacando o nosso modus essendi: as bases da vida e de nossa civilização. Antes, dava-se por descontado que a Terra estava aí, intacta e com recursos inesgotáveis. Agora não podemos mais contar com a Terra sã e abundante em recursos. Ela é finita, degradada e com febre não suportando mais um projeto infinito como imaginávamos.

A presente crise desnuda a falsidade da compreensão dominante da história, da natureza e da Terra. Ela colocava o ser humano fora e acima da natureza com a excepcionalidade de sua missão, de dominá-la. Perdemos a noção de todos os povos originários de que pertencemos à natureza. Hoje diríamos, somos parte do sistema solar, de nossa galáxia que, que por sua vez, é parte do universo. Todos surgimos ao longo de um imenso processo evolucionário. Tudo é sustentado pela energia de fundo e pelas quatro interações que sempre atuam juntas: a gravitacional, a eletromagnética e a nuclear, fraca e forte. A vida e a consciência são emergências desse processo. Nós humanos, representamos a parte consciente e inteligente da Via-Láctea e da própria Terra, com a missão, não de dominar, mas de cuidar dela para manter as condições ecológicas que nos permitem levar avante nossa civilização.

Ora, estas condições estão sendo minadas pelo atual processo produtivista e consumista. Já não se trata de salvar nosso bem-estar, mas a vida humana e a civilização. Se não moderarmos nossa voracidade e não entrarmos em sinergia com a natureza dificilmente sairemos do atual imbroglio. Ou substituímos estas premissas falsas por outras melhores ou corremos o risco de nos autodestruir. A consciência deste risco é só de poucos.

Importa reconhecer um dado do processo evolucionário que não sabemos equacionar racionalmente: nele há caos e cosmos, ordens elegantes e terríveis devastações. A Terra mesma no seu percurso de 4,5 bilhões de anos, passou por várias delas. Em algumas perdeu quase 90% de seu capital biótico. Mas a vida sempre se manteve e se refez com cada vez maior vigor.

A última grande dizimação, um verdadeiro Armagedon ambiental, ocorreu há 67 milhões de anos, quando no Caribe, próximo a Yucatán, no México, caiu um meteoro de quase 10 km de extensão. Produziu um tsunami com ondas do tamanho de altos edifícios. Ocasionou um tremor que afetou todo o planeta, ativando a maioria dos vulcões. Uma imensa nuvem de poeira e de gases foi ejetada ao céu, alterando, por dezenas de anos, todo o clima da Terra. Os dinossauros que por mais de cem milhões de anos reinavam, soberanos, por sobre toda a Terra, desapareceram totalmente. Chegava ao fim a Era Mesozóica, dos répteis e começava a Era Cenozóica, dos mamíferos. Como que se vingando, a Terra produziu uma floração de vida como nunca antes. Nossos ancestrais primatas surgiram por esta época. Somos do gênero dos mamíferos .

Mas eis que nos últimos trezentos anos o Homo Sapiens/Demens montou uma investida poderosíssima sobre todas as comunidades ecossistêmicas do planeta, explorando-as e canalizando grande parte do produto terrestre bruto para os sistemas humanos de consumo. A consequência foi uma sistemática pilhagem de tudo o que a Terra produz. O biólogo E. Wilson fala que a “humanidade é a primeira espécie na história da vida na Terra a se tornar numa força geofísica destruidora". A taxa de extinção de espécies produzidas pela atividade humana é cinquenta vezes maior do que aquela anterior à intervenção humana. Com a atual aceleração, dentro de pouco – continua Wilson – podemos alcançar a cifra de mil até dez mil vezes mais espécies exterminadas pelo voraz processo consumista humano. O caos climático atual é efeito.

O prêmio Nobel de Química de 1995, o holandês Paul J. Crutzen, aterrorizado pela magnitude do atual ecocídio, afirmou que inauguramos uma nova era geológica: o Antropoceno. É a idade das grandes dizimações perpretadas pela irracionalidade do ser humano(em grego ántropos). Assim termina tristemente a aventura de 66 milhões de anos de história da Era Cenozóica. Começa agora a era da tribulação da desolação terrestre.

Para onde nos conduz o Antropoceno? Deixo aberta a questão."

Leonardo Boff é autor de Proteger a Terra - Cuidar da vida: como evitar o fim do mundo, Record, 2010

Fonte: Blog do Noblat

2 comentários:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nivia Andres!
Muito oportuna sua iniciativa em trazer à baila a inquietante reflexão suscitada por Leonardo Boff, porque a relação deletéria que mantemos com o meio ambiente ocasionará a nossa ruina.
Já não basta o exemplo ecocida da Ilha de Páscoa?
Saudações cassandristas...
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP

João disse...

Amiga,
Estou tão triste por tudo isso!!
Triste pela consciência que tenho de que nosso planeta não terá mais futuro de médio e longo prazo.
As tragédias estão universalizando-se e acelerando-se a cada ano e não mais a cada século ou a cada década.
Não há em nossos tempos algo ou alguém que ponha freio nessa iminente derrocada da nossa civilização.
Depois, será o NADA, como sempre diz nosso amado professor?!
Saudações pessimistas
João