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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Artigo de Arlete em ZH

O jornal Zero Hora de 13 de janeiro publicou, na seção de Artigos, texto da admirável professora Arlete Gudolle Lopes, que reproduzo neste espaço, com a sua anuência, porque traduz a vontade de milhões de brasileiros e lhes dá voz, através de uma bela partitura textual, mostrando que do sonho surge a vontade e desta, podem nascer as ações transformadoras da realidade.

SONHAR É POSSÍVEL?

"Mais um ano se foi e o desgastado sonho de ver surgir um Brasil mais ético, seriamente comprometido com educação de qualidade, com o restabelecimento pleno da saúde de seu povo, capaz de incentivar o controle de nascimentos entre carentes desapareceu.

Morreu o país esperançoso de ver punidos e cerceados da liberdade os corruptos, pronto para exigir o restabelecimento da moralidade em todos os níveis sociais. A nação responsável por influenciar os motoristas para que não transformem as estradas e as ruas citadinas em armadilhas certeiras do matar ou morrer desapareceu. Sonhos que se foram, velhas utopias, acalentadas ao longo dos anos, esboroaram-se como grãos de areia açoitados pelo vaivém incessante das ondas do mar de insensatez que proliferou pelo país.

Que no ano incipiente, a imorredoura necessidade de acreditar no surgimento de uma sociedade melhor renasça nos brasileiros, reascenda neles a capacidade de se indignarem contra a violência que eclode como guerra civil camuflada. Que se revoltem contra a degradação dos costumes,que exijam mais segurança, moradia, saúde, educação de qualidade e desapareça a nociva prática do “jeitinho”. Que se posicionem contrários à mediocridade de programas televisivos, percebam as insídias contidas nos sermões dos falsos messias e dos chefes de igrejas que cobram pela salvação de almas descaradamente. Que se incorporem a campanhas ecológicas e procurem salvar as riquezas naturais do solo pátrio, esvaído em perenes lutas para não perder o seu encanto.

Que em 2011, famílias não chorem pela morte de seus afetos em acidentes, tombados por balas perdidas, por atitudes irresponsáveis, pelo consumo de drogas, pelo não ou mau atendimento em hospitais.

Que sejam abortados, na origem, esses constantes suicídios interiores gestados pela falta de empregos, pela derrocada dos sonhos, pela mesquinhez do dia a dia. Que as variadas bolsas caritativas oferecidas pelo governo ajam apenas como paliativos temporários, o mais rápido possível, sejam substituídas por programas de estímulos ao crescimento individual, restabeleçam naqueles que as usufruem a vontade de lutar contra as vicissitudes, a fim de reencontrarem a dignidade através do esforço laboral.

Se cada brasileiro de boa vontade encontrar o equilíbrio para bem dirigir sua vida, estará dando o chute certeiro rumo ao gol por uma nova aurora neste brasilzinho com vontade de virar um brasilzão. Se aprender a dizer não às vontades inegociáveis dos filhos, captar as dubiedades das promessas eleitoreiras, estará pronto para cobrar posturas corretas de seus eleitos. No momento em que começar a abolir de seu cotidiano todas as formas de discriminações, tornar-se cônscio de seus deveres, exigir seus direitos e trabalhar muito, poderá cantar “neste ano, quero paz no meu coração e se puder ter um amigo, que ele seja irmão”.

Publicado em Zero Hora, em 13 de janeiro de 2011, pág. 18

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sustentabilidade x Apocalipse

Sustentabilidade é uma palavra muito em moda atualmente, que serve para definir convivência adequada com a disponibilidade de bens naturais, sabendo o sujeito que estes não são mais ilimitados e já ultrapassamos todos os limites aceitáveis de convivência pacífica com a natureza. Creio que as últimas catástrofes no Rio de Janeiro e em São Paulo demonstram perfeitamente que perdemos o tino - a sociedade sucumbiu. A sociedade civil e o governo desrespeitaram todas as regras e o que vemos nestes lugares são cenas típicas do Apocalipse, não do bíblico, mas do preço que a natureza devastada pela mão humana está a cobrar.

Achei interessante um artigo de Leonardo Boff, publicado recentemente no Blog do Noblat. Não aprecio as escolhas ideológicas do ex-frei porém, seu pensamento acerca da preservação do meio ambiente e da ética que deve reger as relações humanas me parece bastante pertinente.

Leiam o artigo em questão:

"O Antropoceno: uma nova era geológica

As crises clássicas conhecidas como, por exemplo, a de 1929, afetaram profundamente todas as sociedades. A crise atual é mais radical, pois está atacando o nosso modus essendi: as bases da vida e de nossa civilização. Antes, dava-se por descontado que a Terra estava aí, intacta e com recursos inesgotáveis. Agora não podemos mais contar com a Terra sã e abundante em recursos. Ela é finita, degradada e com febre não suportando mais um projeto infinito como imaginávamos.

A presente crise desnuda a falsidade da compreensão dominante da história, da natureza e da Terra. Ela colocava o ser humano fora e acima da natureza com a excepcionalidade de sua missão, de dominá-la. Perdemos a noção de todos os povos originários de que pertencemos à natureza. Hoje diríamos, somos parte do sistema solar, de nossa galáxia que, que por sua vez, é parte do universo. Todos surgimos ao longo de um imenso processo evolucionário. Tudo é sustentado pela energia de fundo e pelas quatro interações que sempre atuam juntas: a gravitacional, a eletromagnética e a nuclear, fraca e forte. A vida e a consciência são emergências desse processo. Nós humanos, representamos a parte consciente e inteligente da Via-Láctea e da própria Terra, com a missão, não de dominar, mas de cuidar dela para manter as condições ecológicas que nos permitem levar avante nossa civilização.

Ora, estas condições estão sendo minadas pelo atual processo produtivista e consumista. Já não se trata de salvar nosso bem-estar, mas a vida humana e a civilização. Se não moderarmos nossa voracidade e não entrarmos em sinergia com a natureza dificilmente sairemos do atual imbroglio. Ou substituímos estas premissas falsas por outras melhores ou corremos o risco de nos autodestruir. A consciência deste risco é só de poucos.

Importa reconhecer um dado do processo evolucionário que não sabemos equacionar racionalmente: nele há caos e cosmos, ordens elegantes e terríveis devastações. A Terra mesma no seu percurso de 4,5 bilhões de anos, passou por várias delas. Em algumas perdeu quase 90% de seu capital biótico. Mas a vida sempre se manteve e se refez com cada vez maior vigor.

A última grande dizimação, um verdadeiro Armagedon ambiental, ocorreu há 67 milhões de anos, quando no Caribe, próximo a Yucatán, no México, caiu um meteoro de quase 10 km de extensão. Produziu um tsunami com ondas do tamanho de altos edifícios. Ocasionou um tremor que afetou todo o planeta, ativando a maioria dos vulcões. Uma imensa nuvem de poeira e de gases foi ejetada ao céu, alterando, por dezenas de anos, todo o clima da Terra. Os dinossauros que por mais de cem milhões de anos reinavam, soberanos, por sobre toda a Terra, desapareceram totalmente. Chegava ao fim a Era Mesozóica, dos répteis e começava a Era Cenozóica, dos mamíferos. Como que se vingando, a Terra produziu uma floração de vida como nunca antes. Nossos ancestrais primatas surgiram por esta época. Somos do gênero dos mamíferos .

Mas eis que nos últimos trezentos anos o Homo Sapiens/Demens montou uma investida poderosíssima sobre todas as comunidades ecossistêmicas do planeta, explorando-as e canalizando grande parte do produto terrestre bruto para os sistemas humanos de consumo. A consequência foi uma sistemática pilhagem de tudo o que a Terra produz. O biólogo E. Wilson fala que a “humanidade é a primeira espécie na história da vida na Terra a se tornar numa força geofísica destruidora". A taxa de extinção de espécies produzidas pela atividade humana é cinquenta vezes maior do que aquela anterior à intervenção humana. Com a atual aceleração, dentro de pouco – continua Wilson – podemos alcançar a cifra de mil até dez mil vezes mais espécies exterminadas pelo voraz processo consumista humano. O caos climático atual é efeito.

O prêmio Nobel de Química de 1995, o holandês Paul J. Crutzen, aterrorizado pela magnitude do atual ecocídio, afirmou que inauguramos uma nova era geológica: o Antropoceno. É a idade das grandes dizimações perpretadas pela irracionalidade do ser humano(em grego ántropos). Assim termina tristemente a aventura de 66 milhões de anos de história da Era Cenozóica. Começa agora a era da tribulação da desolação terrestre.

Para onde nos conduz o Antropoceno? Deixo aberta a questão."

Leonardo Boff é autor de Proteger a Terra - Cuidar da vida: como evitar o fim do mundo, Record, 2010

Fonte: Blog do Noblat

sábado, 1 de janeiro de 2011

Para escutar na primeira manhã do Ano Novo

Adágio em Sol Menor para Cordas e Órgão, de Tomaso Albinoni, a mais linda e enternecedora melodia que já ouvi.

O cântico dos cânticos

Para adentrarmos o Ano Novo nos píncaros da glória, a Misa Criolla - Gloria, do argentino Ariel Ramírez, na voz inconfundível e inigualável de José Carreras, no Duomo di Milano.