Acompanhando Interface Ativa!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Cena 4


O DESPERTAR DE UMA ESPERANÇA


A noite estava quente. O céu, adornado por milhares de estrelinhas, enfeitara-se para anunciar que, dentro de dois dias, seria Natal. Da janela de um quarto de hospital de Porto Alegre, espiava a noite, enquanto velava o sono de meu menino que ali se encontrava há longos e sofridos meses. A tarde escorrera lenta, porque o vai e vem rotineiro de médicos e enfermeiras, tentando reter a vida de meu pequenino, como que anunciando um milagre, cedera espaço para uma presságica calmaria.

Ao longe, o grito, em desespero, de uma sirene anunciava esperança de vida ou agourava o desenlace de alguém. O meu coração, aos prantos, implorava que não fosse mais um inocente e outra mãe a passarem pela dor que me acompanhava há tanto tempo.

Existem certos sofrimentos que não podem ser abrandados com palavras de consolo. Somente o abraço solidário de alguém irmanado na dor pode mitigar as mazelas que parecem intermináveis e a dor, por nada se poder fazer por um filho, que fenece num leito de hospital, só se apazigua quando se encontra identificação com igual sofrimento.

Quase um ano se passara e o 25 de Dezembro já se engalanava, vestindo-se com as mais belas roupagens de festa. Aquela noite, antevéspera de Natal, servira como uma estranha provação à minha resistência física e gestara em mim uma inusitada crença de que algo aconteceria antes que os sinos badalassem, anunciando os cerimoniais natalinos.

Ao longe, um bling bleng blong festivo de alguma igreja chamava os fiéis à prece. Súbito, os meus pensamentos voaram até o altar onde imaginara estar ocorrendo uma celebração religiosa. O meu agnosticismo e a minha incredulidade homogeneizaram-se numa prece silenciosa, num desesperado pedido de socorro. Naquela hora, era uma mãe movida por um único e aflitivo pedido, que suplicava pela vida de seu filho tão indefeso. Que me fossem tiradas futuras alegrias, mas que, naquele Natal, pudesse voltar a sorrir e me fosse permitido retornar ao meu lar para, junto com meu marido e familiares, festejar o retorno à vida saudável de meu menino.

Foram tantas noites indormidas que aquela me parecera a menos longa porque acreditava que algo muito especial iria acontecer. Era tão intensa a convicção de que logo o meu garotinho deixaria, em definitivo, aquele leito hospitalar que, de inicio, apenas sorri, depois, um riso tênue foi quase se transformando em gargalhadas. Parecia que forças oriundas de mundos muito especiais tomavam conta de mim e, com elas, a certeza de que, no Natal, estaria em casa ou celebrando em algum lugar fora do hospital. O contumaz desânimo que, sorrateiramente, abatera-me, a partir daquela prece, feita numa igrejinha no não sei onde, uma mulher mais forte e com renovados ânimos tomou o frágil corpo do menino doente e, apertando-o de encontro ao coração, transmitiu-lhe a própria força, mentalmente acreditando que lhe estava restaurando a vida.

Os primeiros raios de sol, indiscretos, foram se infiltrando pelo alvo quarto de hospital. Um novo dia se anunciava. Nem mesmo a longa espera em frente à sala, onde o meu menino submeter-se-ia à longa e sofrida bateria de novos exames, conseguia arrefecer-me a esperança de que algo aconteceria. Não sei se o que se apossara de mim poderia ser chamado de esperança, convicção, amor de mãe ou que outro nome serviria para o que sentira desde aquela prece?

Nem mesmo os gritos desesperados de meu bebê ante todos os sofrimentos que lhe infligiam, tornavam-me menor a crença de que algo sucederia. Já de volta ao quarto, preparava-me para, passado mais um dia, receber o resultado de todos os exames a que o garotinho fora submetido. Uma única frase ecoava: tudo vai terminar bem. No início, como se alguém a soletrasse para mim: tu-do vai ter-mi-nar bem! Depois, como se cândidas vozes a entoassem numa suave canção: Tudo vai terminar bem!

Dizem que a solidão e o sofrimento tornam as mães seres indestrutíveis e que a crença que se derrama sobre elas fazem-nas seres especiais e iluminados. Naquela véspera de Natal era, exatamente, assim que eu me sentia. Transformara-me num ser poderoso, como se uma única pergunta aceitasse uma uníssona resposta: Se eu lhe dera a vida, não deveria encontrar as forças fundamentais para restaurá-la?

A fé de que algo muito especial aconteceria, martelava-me o cérebro e era somente nisso em que pensava. Dia e noite. Intermitentemente, naqueles dias que antecipavam o Natal. Nem a fome que, às vezes, sentia e que protelava em afastar-me para saciá-la com medo de perder o meu menino, há muito desaparecera porque me alimentava com aquela certeza.

Uma leve batida à porta. O meu coração, aos pulos, antecipou-se à ação. O médico que tratava de meu filho naquele interminável quase ano, sorrindo, aproximou-se de mim e, de supetão, interrogou-me: “Tu acreditas em milagres? Pois o Rodrigo está curado. Tu vais poder passar o Natal em tua casa.” Não me lembro se chorei. A cena de que me recordo é que me abraçara ao médico e o beijara agradecidamente. Este, comovido, chorava compulsivamente porque ele ainda acreditava em milagres.

Não voltei à minha terra tão distante da capital naquele Natal, mas, junto com o meu marido, irmão e irmã, que o acompanharam na esperança de retornarmos a casa, festejamos o renascimento do Menino da Virgem de forma inusitada. De carro, vagamos pela noite portoalegrense, uma capital sem assaltos e sem banditismos naquela época, visitando todas as igrejas que celebravam a Missa do Galo. Não nos sentíamos plenamente felizes, porque não tínhamos um lar para festejar e em paredes estranhas não seria a festa natalina que tanto sonháramos: a primeira como pais e tios.

Muitos anos já se passaram. Tantos natais já festejei, todavia, em cada noite natalina, os meus pensamentos retornam àquela igrejinha e, silenciosamente, refaço a mesma prece ditada pela força interior que para lá me conduziu. Nessas noites mágicas, recordo-me também daquele médico que, diante de tanta dor e sofrimento, nunca deixou de acreditar em Deus e em milagres.

Também eu, mesmo que tenha demorado a aceitar e a compreender, o que, realmente, aconteceu com o meu menino foi um doce milagre que ganhou forças e se corporificou porque era quase Natal... Desde então, em cada noite natalina, olho-o, agora homem feito e agradeço por bebês não terem consciência de todo o sofrimento por que passaram. Nesses momentos, lágrimas escorrem fugidias porque acredito que crianças jamais deveriam ser tomadas pela dor e desejo, piamente, que, para o meu e para todos os meninos e meninas, que, na infância, sofreram acometidos por estranhas ou terminais doenças, o Natal aconteça todos os dias...

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Arlete Gudolle Lopes é santiaguense, casada, mãe de três filhos, dois netos, o Andrei e a Marianna, professora de Português, palestrante, revisora de trabalhos acadêmicos, livros e todo tipo de textos e... blogueira nas horas vagas. Seu blog Palavras ao Vento é fruto de uma necessidade interior de corrigir deslizes orais ou escritos, presenciados no cotidiano; mostrar a urgência de se fazer da educação prioridade nacional; discorrer sobre trivialidades, mostrando o porquê disso ou daquilo e destacar a força que a palavra tem naqueles que captam o sentido das entrelinhas. Visite seu maravilhoso blog em http://palavrasdearlete.blogspot.com/
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------

8 comentários:

Nivia Andres disse...

Bom dia, amigos e amigas!

FELIZ NATAL!

Na véspera do dia de Natal, tenho a emoção e o prazer de publicar um texto escrito especialmente para este blog por minha querida amiga Arlete Gudolle Lopes.

Confesso que foi um dos presentes mais lindos que já recebi. Um presente de amor que fala de amor. Amor do maior que existe. Amor maternal. Arlete expressou em palavras todo o seu sofrimento ao acompanhar o sofrimento de seu bebê. Palavras cheias de dor que, aos poucos se transformaram em palavras de esperança e enfim, palavras de alegria e puro júbilo, ao receber a notícia de que seu filhinho estava curado!

Esta sinfonia de palavras se faz acompanhar por um cântico de anjos, certamente os mesmos Querubins e Serafins que a acompanhavam no quarto do hospital, sustentando-a em sua aflitiva espera. Tenho certeza de que os mesmos anjinhos ainda a acompanham, entoando canções celestes, cada vez que ela assenta-se ao computador e coloca no teclado as suas mágicas mãos, guiadas por uma mente abençoada que nos lega maravilhas em seu blog PALAVRAS AO VENTO! Sim, porque PALAVRAS DE ARLETE sempre enlevam a todos que a acessam, com mensagens de carinho, esperança, coragem, força e conhecimento profundo. Sim, porque Arlete é sábia. E transmite conhecimento e cultura gratuitamente.

Obrigada, querida Arlete, por este presente magnífico. E por deixar muito claro que milagres existem, sim, e são frutos do AMOR!

arlete disse...

Querida Nivia!
Agradecida e honrada senti-me ao teres me convidado para participar de tuas “Cenas de Natal”. Agradecidíssima, também, fiquei por esse lindo comentário e que me comoveu profundamente.
Obrigada por tanto carinho.
Que tenhas um belíssimo Natal junto aos teus afetos
Um abraço muito carinhoso.
Arlete

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada articulista Arlete Gudole Lopes!
Parabenizo-a pela sua maravilhosa verve, que nos brindou com uma enternecedora crônica, alicerçada num momento cruciante da sua vida, que felizmente teve o desfecho auspicioso, fervorasamente aguardado, graças aos cuidados intensivos dos valorosos e pertinazes homens de branco, asseclas de Hipócrates, ocorrido num dia especial e cultuado por uma parcela significativa dos nossos semelhantes!
Calorosas saudações vigorosas e esperançosas!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP

Cristina disse...

Cara Sra. Arlete Gudolle Lopes.

Uma linda e emocionante história de natal a sua!.
Certamente naquele dia, o Papai Noel e seus auxiliares, estavam de plantão no hospital e ouviu as suas preces.

Nessas datas, enquanto as familias festejam o Natal e Ano Novo, há muitos anjos da guarda de plantão, trabalhando para salvar vidas e devolver a alegria a muitas mães, que sofrem ao lado de seus filhos, nos leitos hospitalares.
Feliz Natais para a senhora, para seu menino e toda a sua familia.

Carinhoso abraço.

João disse...

Lindo!!! Abraços, Arlete! E Feliz Natal
João

João disse...

Oi Nívia!
Passei o dia todo entre o forno e o fogão e só agora entrei, rapidinho pra te cumprimentar.
Bom ter entrado pois tive a oportunidade de ler esse conto enternecedor de tua amiga Arlete.
Um feliz Natal pra vc e toda a sua família, Que sejam abençoados hoje e sempre!!!!
João Batista

MACAU BANGKOK O MAR DO POETA disse...

Ilustre Escritora Arlete Gudolle Lopes,
Encantado fiquei com sua maravilhosa escrita, ao ir lendo cada frase, me senti como sentado junto a essa cama do hospital.
Minha esposa foi Genecologista, e soube de casos igualmente felizes, onde o milagre se realizou.
A esperança a fé são sempre os últomos a morrer, e essa humilde mãe, sempre jutno de seu adorado filho, tinha fé e forças, e Deus a ouviu e ajudou.
Esta bela cena, triste, mas feliz no seu final, acontece todos os dias no nosso quotidiano, suas letras, nesta altura do ano que o Natal se festejou, vieram dar mais coragem, mais alento, a todos aqueles que até aqui não acreditavam em milagres.
Só tenho que agradecer a maravilhosa leitura que me proporcionou.
Felizes aqueles que Acreditam.
Abraço amigo

Valentim Miron disse...

Por mais livros que nós lemos, por mais histórias que e nós ouvimos, nada se compara com a história da nossa própria vida.
Cada um de nós é coadjuvante das mais belas histórias de amor e de fé.
A história mais bonita que existe é a da nossa própria vida.
Quando achamos coragem suficiente para revelar a alguém a nossa história de amor e fé, nascem essas belas palavras de esperança como essa linda história da vida real que acabei de ler aqui.

Valentim Miron
Franca São Paulo.