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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Cena 3


A 1ª DAMA E O MENDIGO

Em outra ocasião tive a oportunidade de falar sobre Elza Camacho, a mulher do prefeito de um município vizinho, muito aloprada, mas perfeitamente atuante nos eventos e festas promovidos na cidade.

Por ocasião do Natal, ela agitava a cidade inteira, arrecadando dinheiro e doações junto aos empresários e fazendeiros do município. O produto da arrecadação era, integralmente, utilizado na decoração das ruas e prédios públicos da cidade, bem como na compra de brinquedos para presentear as crianças carentes dos bairros de periferias.

Semanas antes do Natal ela tomava a perua da prefeitura e seguia, somente com o motorista, para São Paulo a fim de comprar os brinquedos diretamente nas fábricas e alguns dos materiais que seriam utilizados nas decorações. Saiam de madrugada e só voltavam bem tarde da noite, com a “Kombi” abarrotada.

Numa dessas ocasiões, após ter comprado todos os brinquedos, o motorista deixou-a na Rua 25 de Março para comprar veludos e poás para a roupa do Papai Noel, enquanto ele seguia até o posto de gasolina mais próximo para abastecer o veículo

Por infelicidade, numa das esquinas da Baixada do Glicério, a perua foi violentamente abalroada e arrastada por um troleybus. O pobre motorista, inconsciente, foi levado para o Hospital das Clínicas e ali ficou por horas, até recobrar os sentidos.

Terminadas as compras, já bem no final da tarde, Dona Elza seguiu em direção ao “mercadão”, local onde o motorista combinara de esperá-la. Passada as 5 horas, passada as 6, chegada as 7 e nada de a perua aparecer. Lojas fechadas, nenhum transeunte para socorrê-la; a coitada ficou apavorada, refugiando-se na marquise de um dos vetustos prédios da região sinistra.

Ali pelas 8 da noite aproximou-se dela um mendigo, com várias sacolas na mão, que foi logo lhe dizendo: “- Olha, Dona, esse lugar é meu... Se a senhora quiser se acomodar, ajeita o outro canto, pois neste aqui é onde eu estendo meu cobertor!”

Dona Elza, assustada e meio nauseada com o forte cheiro acre/rançoso que exalava do mendigo, encolheu-se do outro lado, junto com suas sacolas. Quase chorando, não sabia se rezava ou se amaldiçoava o motorista. O mendigo arrancou da sacola um marmitex, todo amassado e perguntou , com voz enrolada: “- Quer dividir a comida? O rango é pouco mas parece que a senhora não comeu nada ainda hoje... tá com o zóio fundo!”

Realmente, ela estava morta de fome, pois não comera nada, por conta do corre-corre das compras. Quando, mais tarde, o homem sacou de dois pãezinhos e algumas bananas, ela não aguentou e aceitou o sanduíche de pão com banana. A noite ia avançada e fria, quando ela começou a chorar baixinho.

Lá pelas dez horas da noite, horário previsto de chegada, os parentes de Dona Elza começaram a preocupar-se com a demora. Ao celular que ficara na perua, ninguém atendia e daí, começaram a ligar para a polícia, necrotérios e hospitais até que descobriram o paradeiro do motorista, já consciente, mas completamente “zureta”, não se lembrando de nada.

Resumindo a ópera, a primeira dama somente foi resgatada por volta das 5 da matina, dormindo, sentada no cobertor do mendigo e enrolada nos veludos do Papai Noel. Foi uma noite do cão, mas reconhecida pela bondade do companheiro, levou-o consigo para sua cidade, convencendo o marido/prefeito a contratá-lo em “serviços gerais” no pátio da prefeitura.

Naquele Natal, o Papai Noel foi um mendigo resgatado das ruas de São Paulo.

E já que falei em Papai Noel e Natal, vou passar uma receita de rabanadas de minha tia Olívia:

RABANADAS: Uma bengala de pão amanhecida de três dias e cortada em fatias; 1 litro de vinho tinto seco; 1/2 kg de açúcar; 2 colheres (de chá) de canela em pó. Misturar tudo e passar as fatias de pão neste melado (dos dois lados). Fritar numa panela ou frigideira tefall (dos dois lados). Colocar, em camadas, numa travessa e espalhar por cima açúcar e canela. Com o vinho que sobrou, apurar uma calda rala, esperar amornar e despejar sobre as rabanadas. Levar à geladeira.

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*João Batista Gregório, paulista de São João da Boa Vista, é cronista de mão cheia. Publicou, em 2009, suas crônicas reunidas em Crenças e Desavenças e, em 2010, seu novo livro, Qual será o Sabor da Crônica?, lançado durante a Bienal do Livro de São Paulo. Para conhecer a sua produção, acesse o blog do JB, cheio de histórias divertidas, onde cada crônica pitoresca acaba com uma receita culinária especial, testada e aprovada pelo autor! Clique no endereço abaixo e delicie-se! http://contoscurtosgrandesreceitas.blogspot.com/
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7 comentários:

Nivia Andres disse...

Bm dia, amigos e amigas!

Uma pequena introdução para apresentar o nosso querido amigo João Batista Gregório que, juntamente com o Professor João Paulo de Oliveira e a artista gráfica Cristina Fonseca, conheci quando atuei, por algum tempo, como coeditora do blog de Edward de Souza, de Franca, São Paulo.

Pois o João Batista foi um dos meus maiores fornecedores de crônicas! Sempre pronto a colaborar, me enviava histórias duplamente deliciosas que, além de serem saborosas no argumento e no conteúdo, sempre traziam uma receita culinária ao final, naturalmente testadas pelo autor, que é um gourmet e um gourmand. Imaginem só como será a mesa de Natal preparada pelo JB!

Agradeço muitíssimo ao João Batista por participar da série Cenas de Natal e iluminar, com a sua bela história, o nosso modesto espaço de comunicação!

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Caro amigo João!
Viu que honra tivemos com a deferência que nossa estimada amiga, a jornalista Nivia Andres nos deu?
Espero que a solidária Dona Elza não tenha superfaturado as compras natalinas em prol dos desvalidos da cidade que era primeira dama!!!...
A lambisgoia da Agrado adorou conhecer a Dona Elza e disse que é por isto que nunca se separa do perfume chanel nº 5, porque se a Dona Elza o tivesse em mãos, o teria borrifado na vítima das "políticas públicas excludentes"...
Na próxima compra da Dona Eliza pedirei ao Max para acompanhá-la, porque quando a realidade começar se apresentar inóspita, poderá pedir-lhe os sais centuplicado!!!!...
Caloroso abraço! Saudações agradoianas!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP

Cristina disse...

Caro João Batista Gregório.

Tive o privilégio de conhece-lo pessoalmente e ler seus dois livros , que me encantaram e divertiram. Além de saber contar histórias, você sabe preparar saborosas receitas.
Neste conto podemos entender o que significa solidariedade e que, por mais pobre que seja a pessoa, sempre tem alguma coisa a compartilhar com o próximo.
Que seu natal seja abençoado e feliz.

Carinhoso abraço.

PS: Também sou sua fã de carteirinha.

João disse...

Nívia, não mereço tanto mas fiquei envaidecido por tuas palavras. Obrigado por permitir minha participação em teu Blog. Espero estar à altura de tão brilhante espaço.
Abs
João

Leonardo B. disse...

Por minha grande falta de jeito, mas com o desejo de também partilhar o espírito desta quadra, partilho de Vitorino Nemésio, um outro Natal,

«Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.»

Com um sincero desejo de uma quadra plena,
Um imenso abraço,

Leonardo B.

João disse...

Professor e Cristina, eternos amigos!
Solidários nas alegrias e nas "deprês" rsrs
Vocês são ótimos!
Forte abraço
Joao B.

MACAU BANGKOK O MAR DO POETA disse...

Mais uma e maravilhosa história que muito adorei.
Muito tem de humanismo, e a primeira dama teve a humildade de comprender o viver de um pobre mendigo.
Mais uma cena, sempre palpitante e arrebatedora, que o Ilustre escritor nos passa.
Para além do conto é uma lição de humanismo e de amor ao próximo fantástico.
Que o corações daqueles a quem o amor ainda não bateu, se abra neste Natal e sigam o exemplo da primeira dama.
Todos nós temos um pouco de mendigos, necessitados, que cenas como esta nos ajudam a comprender melhor o mundo em que vivemos.
Meus sinceros parabéns por mais esta Obra de Literatura bem apurada e bela.
Um abraço amigo e Feliz Natal