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sábado, 30 de outubro de 2010

Bolinha de papel

Há muitos anos, nos grotões nordestinos destepaiz, morava um menino que adorava brincar com bolinhas de papel. Suas preferidas eram as de papel em branco, especialmente dos cadernos escolares, que sacrificava sem nenhum pudor, mesmo com a reinação constante de sua mãe, preocupada porque dinheiro não havia nem para comprar comida. - Mainha, não se avexe que caderno não é importante, nem estudo, nem saber... Um dia, vou mandar nestepaiz, vou ter todos aos meus pés e a minha voz será lei... E seguiu o menino, esquartejando os caderninhos, a fazer bolinhas de papel, pensando no futuro radioso que o aguardava, alguns milhares de léguas mais ao sul.

Na cidade grande, guri de fibra, determinado, abandonou o estudo, fez um cursinho rápido e arranjou emprego numa fábrica. Lá perdeu um dedo, enredado na máquina, mas achou o fio que o conduziria ao estrelato máximo. Percebeu a ascendência sobre os colegas e tornou-se líder. Entre uma e outra bolinha de papel, agora extirpada de blocos ou de agendas, preferencialmente em branco, porque escrever não era a sua praia, o rapaz foi subindo, como um raio, ou melhor, uma faísca (era metalúrgico, de ofício torneiro-mecânico).

Como presidente do sindicato da classe, empreendeu jornadas memoráveis que até lhe valeram 30 dias de prisão, nos porões da ditadura miltar, por afrontar o poder constituído. Nessa fase, diminuiram as bolinhas de papel, já que, na cadeia, não havia cadernos ou agendas, talvez blocos de carta existissem, mas ele não apreciava escrever. Livros? Odiava ler. Pura perda de tempo. Mais tarde, bem mais tarde, em uma de suas soberbas declarações, diria que ler lhe provocava azia...

Com o passar do tempo, resolveu fazer política. Estava nas entranhas o gosto pelo desafio e a certeza da realização dos seus sonhos. Fundou o Partido dosTrabalhadores. Participou da luta pelas Diretas Já, mas negou-se a votar em Tancredo Neves. Elegeu-se deputado. Seu partido igualmente, negou-se a assinar a Constituinte de 88. A partir daí, começou a sua luta para chegar à presidência da República. Em 89, perdeu para Fernando Collor de Mello. Em 93 e 97, perdeu para Fernando Henrique Cardoso. Oh, sina! Deveria detestar os Fernandos, que tolheram suas primeiras tentativas de ser presidente destepaiz, mas com o Collor já refez a amizade pois, em se tratando de segurar o poder, ofensas e humilhações são águas passadas. Todavia, com o Henrique, a mágoa será eterna. Ademais, FHC passa muito tempo lendo e escrevendo artigos para jornais, é poliglota, estadista respeitado no exterior por sua cultura e o pior de tudo - foi o artífice e executor do Plano Real, que tirou o Brasil do buraco. Isso, sim, ele jamais poderá perdoar, pois não há como negar que as ações de FHC foram a cama em que se deitou, um berço esplêndido, em que só teve o trabalho de afofar o cobertor! Pois bem, enfim, em 2002, foi eleito presidente da República, reelegendo-se em 2006. É de registrar-se que, nesse período, as bolinhas de papel foram definitivamente esquecidas, dadas as circunstâncias especiais que a liturgia do cargo exigia. Nada de burocracia ou bilhetes.Tudo muito rápido. Economia de papel (Marina, a musa das florestas, enquanto pode, vivia vigiando o desperdício...) e de tempo, para entrar na história como o melhor governante que estepaiz já teve. Gabar-se-á, também, por certo, que foi o de maior milhagem (sim, por causa daquela maquininha encantadora e veloz - o Aerolula!)

Viagem vai, viagem vem, entre partidas e chegadas, o Filho do Brasil foi descobrindo que era "o cara" (bem antes de Obama tê-lo cognominado, jocosamente, percebendo-lhe o estilo canastrão). Foi o que bastou para que "o iluminado" iniciasse uma cruzada em busca de apoios que o levassem para a ambicionada cadeira de secretário-geral da ONU após a conclusão do mandato. Tarefa árdua, quiçá impossível, já que o notável postulante não possui habilidade primordial para assunção ao cargo - não sabe comunicar-se no idioma inglês...Com muita dedicação, quem sabe, poderia habilitar-se. Entretanto, em vista de sua total intolerãncia a livros e cadernos, creio que a ideia foi abandonada, ainda no nascedouro. Ou não.

Pois bem, voltemos ao tema central dessa pequena digressão - a bolinha de papel. Há alguns dias, o candidato da oposição, José Serra, fazia campanha na zona oeste do Rio de Janeiro, caminhando no centro de Campo Grande, quando seu grupo foi cercado por furiosos militantes petistas, dispostos a impedir o avanço da comitiva. No calor da altercação, Serra foi atingido por uma bolinha de papel. Retirou-se, voltando alguns minutos depois (cerca de 15), quando foi novamente alvejado, desta vez, por algum objeto mais pesado - dizem ter sido um rolo de fita crepe ou fita adesiva. Serra sentiu o impacto, levou a mão à cabeça, sentiu-se mal e foi encaminhado para atendimento médico. Felizmente, nada grave, entretanto, a violência existiu. A mídia repercutiu rapidamente o fato. Cinegrafistas e fotógrafos registraram os dois flagrantes, claramente. Mas o presidente Lula, açodadamente, preferiu comprar a versão do SBT e do portal UOL que veicularam apenas o episódio da bolinha de papel. Desferiu violento ataque a Serra, no dia seguinte, ao chamá-lo de farsante, ignorando a prova cabal do fato, registrada em vídeo pelo telefone celular de um jornalista da Folha de São Paulo. Não bastassem a deselegância e a grosseria, Lula estava, na ocasião, investido nas suas funções de presidente, em plena cerimônia de inauguração do Porto de Rio Grande, RS. Aliás, o primeiro mandatário da nação, já faz tempo, perdeu totalmente a noção de decoro e respeito à função que exerce - prefere atuar como cabo eleitoral de Dilma Roussef e, para isso, não mede esforços nem tempo ou recursos públicos. Já vociferou, atacou, sugeriu a extirpação de partido político, considerou "inferiores" a ele os ex-presidentes da República, passou por cima da Justiça, etc.

E quanto à bolinha de papel? Ah...a redondinha disparada contra Serra também impactou a cabeça de Lula, lembrando-o que daqui há dois meses deixará a presidência e suas benesses, tendo que amargar, por quatro anos, a condição de simples cidadão brasileiro. Poderia, para o seu bem, ler e escrever muito. Desconfio, no entanto, que seus escritos limitar-se-iam a breves mensagens do tipo: Me aguardem! ou Eu voltarei!, sem o ponto de exclamação, é claro!

2 comentários:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nivia Andres!
Sua irretocável crônica deixou-me propenso a refletir o nefasto exemplo do nosso Timoneiro Mor, que não valoriza o amor pelo conhecimento...
O que nos espera?!...
Calorosas saudações democráticas e mais que esperançosas!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP

CrisFonseca disse...

É lamentável que tenhamos um presidente pouco afeito à leitura e que usa essa imagem como se fosse a regra e não a exceção, para se ter sucesso na vida. Mas a falta de estudos não seria problema se não lhe faltasse algo mais precioso que é a humildade para reconhecer que pegou carona nos programas iniciados no governo de FHC.
A falta de cultura, aliada à ignorancia e à arrogancia, produz aberrações.
O desenvolvimento de um país depende do grau de cultura do povo.
Bravos pelo excelente artigo, Nivia!!
bjoss