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domingo, 31 de outubro de 2010

Recomeçar. Sempre!

"A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse: “Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre." (José Saramago)

sábado, 30 de outubro de 2010

Visão aérea do 2º Turno

*Tiago Recchia, via Gazeta do Povo

Bolinha de papel

Há muitos anos, nos grotões nordestinos destepaiz, morava um menino que adorava brincar com bolinhas de papel. Suas preferidas eram as de papel em branco, especialmente dos cadernos escolares, que sacrificava sem nenhum pudor, mesmo com a reinação constante de sua mãe, preocupada porque dinheiro não havia nem para comprar comida. - Mainha, não se avexe que caderno não é importante, nem estudo, nem saber... Um dia, vou mandar nestepaiz, vou ter todos aos meus pés e a minha voz será lei... E seguiu o menino, esquartejando os caderninhos, a fazer bolinhas de papel, pensando no futuro radioso que o aguardava, alguns milhares de léguas mais ao sul.

Na cidade grande, guri de fibra, determinado, abandonou o estudo, fez um cursinho rápido e arranjou emprego numa fábrica. Lá perdeu um dedo, enredado na máquina, mas achou o fio que o conduziria ao estrelato máximo. Percebeu a ascendência sobre os colegas e tornou-se líder. Entre uma e outra bolinha de papel, agora extirpada de blocos ou de agendas, preferencialmente em branco, porque escrever não era a sua praia, o rapaz foi subindo, como um raio, ou melhor, uma faísca (era metalúrgico, de ofício torneiro-mecânico).

Como presidente do sindicato da classe, empreendeu jornadas memoráveis que até lhe valeram 30 dias de prisão, nos porões da ditadura miltar, por afrontar o poder constituído. Nessa fase, diminuiram as bolinhas de papel, já que, na cadeia, não havia cadernos ou agendas, talvez blocos de carta existissem, mas ele não apreciava escrever. Livros? Odiava ler. Pura perda de tempo. Mais tarde, bem mais tarde, em uma de suas soberbas declarações, diria que ler lhe provocava azia...

Com o passar do tempo, resolveu fazer política. Estava nas entranhas o gosto pelo desafio e a certeza da realização dos seus sonhos. Fundou o Partido dosTrabalhadores. Participou da luta pelas Diretas Já, mas negou-se a votar em Tancredo Neves. Elegeu-se deputado. Seu partido igualmente, negou-se a assinar a Constituinte de 88. A partir daí, começou a sua luta para chegar à presidência da República. Em 89, perdeu para Fernando Collor de Mello. Em 93 e 97, perdeu para Fernando Henrique Cardoso. Oh, sina! Deveria detestar os Fernandos, que tolheram suas primeiras tentativas de ser presidente destepaiz, mas com o Collor já refez a amizade pois, em se tratando de segurar o poder, ofensas e humilhações são águas passadas. Todavia, com o Henrique, a mágoa será eterna. Ademais, FHC passa muito tempo lendo e escrevendo artigos para jornais, é poliglota, estadista respeitado no exterior por sua cultura e o pior de tudo - foi o artífice e executor do Plano Real, que tirou o Brasil do buraco. Isso, sim, ele jamais poderá perdoar, pois não há como negar que as ações de FHC foram a cama em que se deitou, um berço esplêndido, em que só teve o trabalho de afofar o cobertor! Pois bem, enfim, em 2002, foi eleito presidente da República, reelegendo-se em 2006. É de registrar-se que, nesse período, as bolinhas de papel foram definitivamente esquecidas, dadas as circunstâncias especiais que a liturgia do cargo exigia. Nada de burocracia ou bilhetes.Tudo muito rápido. Economia de papel (Marina, a musa das florestas, enquanto pode, vivia vigiando o desperdício...) e de tempo, para entrar na história como o melhor governante que estepaiz já teve. Gabar-se-á, também, por certo, que foi o de maior milhagem (sim, por causa daquela maquininha encantadora e veloz - o Aerolula!)

Viagem vai, viagem vem, entre partidas e chegadas, o Filho do Brasil foi descobrindo que era "o cara" (bem antes de Obama tê-lo cognominado, jocosamente, percebendo-lhe o estilo canastrão). Foi o que bastou para que "o iluminado" iniciasse uma cruzada em busca de apoios que o levassem para a ambicionada cadeira de secretário-geral da ONU após a conclusão do mandato. Tarefa árdua, quiçá impossível, já que o notável postulante não possui habilidade primordial para assunção ao cargo - não sabe comunicar-se no idioma inglês...Com muita dedicação, quem sabe, poderia habilitar-se. Entretanto, em vista de sua total intolerãncia a livros e cadernos, creio que a ideia foi abandonada, ainda no nascedouro. Ou não.

Pois bem, voltemos ao tema central dessa pequena digressão - a bolinha de papel. Há alguns dias, o candidato da oposição, José Serra, fazia campanha na zona oeste do Rio de Janeiro, caminhando no centro de Campo Grande, quando seu grupo foi cercado por furiosos militantes petistas, dispostos a impedir o avanço da comitiva. No calor da altercação, Serra foi atingido por uma bolinha de papel. Retirou-se, voltando alguns minutos depois (cerca de 15), quando foi novamente alvejado, desta vez, por algum objeto mais pesado - dizem ter sido um rolo de fita crepe ou fita adesiva. Serra sentiu o impacto, levou a mão à cabeça, sentiu-se mal e foi encaminhado para atendimento médico. Felizmente, nada grave, entretanto, a violência existiu. A mídia repercutiu rapidamente o fato. Cinegrafistas e fotógrafos registraram os dois flagrantes, claramente. Mas o presidente Lula, açodadamente, preferiu comprar a versão do SBT e do portal UOL que veicularam apenas o episódio da bolinha de papel. Desferiu violento ataque a Serra, no dia seguinte, ao chamá-lo de farsante, ignorando a prova cabal do fato, registrada em vídeo pelo telefone celular de um jornalista da Folha de São Paulo. Não bastassem a deselegância e a grosseria, Lula estava, na ocasião, investido nas suas funções de presidente, em plena cerimônia de inauguração do Porto de Rio Grande, RS. Aliás, o primeiro mandatário da nação, já faz tempo, perdeu totalmente a noção de decoro e respeito à função que exerce - prefere atuar como cabo eleitoral de Dilma Roussef e, para isso, não mede esforços nem tempo ou recursos públicos. Já vociferou, atacou, sugeriu a extirpação de partido político, considerou "inferiores" a ele os ex-presidentes da República, passou por cima da Justiça, etc.

E quanto à bolinha de papel? Ah...a redondinha disparada contra Serra também impactou a cabeça de Lula, lembrando-o que daqui há dois meses deixará a presidência e suas benesses, tendo que amargar, por quatro anos, a condição de simples cidadão brasileiro. Poderia, para o seu bem, ler e escrever muito. Desconfio, no entanto, que seus escritos limitar-se-iam a breves mensagens do tipo: Me aguardem! ou Eu voltarei!, sem o ponto de exclamação, é claro!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Superávit primário recorde é truque contábil ou somos todos uns bocós

O Tesouro Nacional informou, nesta semana, que o Brasil registrou o maior superávit primário da história em setembro - R$ 26,1 bilhões, um crescimento de 552% em relação a agosto, mas a má notícia é que esse número é falso. Na verdade, o país fez um déficit primário de R$ 5,8 bilhões em setembro, o pior resultado desde setembro de 2009.

Enquanto se divertia criando fantasias delirantes sobre retrocessos para fins eleitorais, como a intenção do candidato José Serra de privatizar a Petrobras e o Pré-Sal, o governo aproveitava a distração geral da opinião pública, envolvida com a campanha eleitoral, para cometer, de verdade, aquele que talvez tenha sido o maior retrocesso nas contas públicas na última década - o passe de mágica consistiu em criar um superávit primário recorde (no lugar daquele que seria um déficit recorde) com o troco do dinheiro criado com emissão de títulos da dívida pública com que o governo pagou a sua cota na capitalização da Petrobrás. Mais ou menos como pegar dinheiro emprestado no banco para pagar a fatura do cartão de crédito, mostrar o título quitado e esconder a promissória assumida.

A “gambiarra”, como a classificou o especialista em contas públicas Raul Velloso, consistiu na seguinte providência, usando a explicação didática de Miriam Leitão:

“O governo transformou a operação da capitalização da Petrobras em receita. Primeiro, emitiu dívida (R$ 75 bilhões), sendo que R$ 42,9 bilhões foram transferidos para pagar a capitalização, para subscrever as ações, porque aumentou sua participação e acompanhou o aumento de capital. A diferença foi transferida via BNDES e Fundo Soberano para que eles também entrassem na capitalização. Depois de tudo, a Petrobras pegou esses R$ 75 bilhões e pagou o governo, que descontou a parte que era gasta com capitalização, e pegou o resto, considerando que era receita.

Ele não pode fazer isso, porque emitiu R$ 75 bilhões em títulos e recebeu os mesmos títulos de volta. Seria uma operação neutra, nesse ponto de vista, mas registra como receita a parte que veio via BNDES para exatamente socorrer o seu superávit primário, que tinha virado déficit primário. O governo fez essa confusão de propósito.

A manobra é a seguinte: o governo aumentou sua dívida e transformou parte dela em receita. Como se alguém se endividasse no banco e falasse que é aumento de salário.
O governo tem feito coisas “criativas”, digamos assim, do ponto de vista contábil, para esconder um fato simples: está gastando demais este ano, quando deveria economizar, evitar um gasto excessivo que acabe virando inflação.

O maior superávit da história, portanto, não é verdadeiro, é resultado de uma manobra contábil. O Brasil, há 25 anos, luta contra a bagunça fiscal, deixada pelos militares; a democracia, aos poucos, foi arrumando, para dar mais transparência aos gastos públicos. A missão está pelo meio. Mas neste momento, no governo Lula, o país está tendo um retrocesso”.

Retrocesso monumental, digo eu! Mais politizado, ou menos politizado, o povo não tem instrumento algum para barrar as ações do governo Lula. Nem os outros poderes constituídos, tornados, vergonhosamente, reféns e marionetes do executivo. A dívida pública é enorme. Senão vejamos: Quando Lula assumiu o governo, em 2003, os débitos erqam os seguintes: dívida externa 212 bilhões; dívida interna 640 bilhões. Total da dívida: 851 bilhões. Em 2007, Lula anunciou que tinha pago a dívida externa. É verdade, só que ele não explicou que, para pagar a externa, aumentou a interna! Em 2007, no governo Lula: dívida externa 0; dívida Interna 1.400 trilhão.Total de dívidas 1.400 trilhão. Ou seja, a dívida externa foi paga, mas a dívida interna quase dobrou. Agora, em 2010, não se vê mais na TV e em jornais algo dito que seja convincente sobre a dívida externa quitada. Sabe por que? É que ela voltou. Em 2010: dívida externa 240 bilhões; dívida interna 1.650 trilhão. Total de dívidas 1.890 trilhão,

Percebam, a dívida do Brasil aumentou em 1 trilhão no governo Lula. Daí é que vem o dinheiro que o governo está gastando no PAC, bolsa família, bolsa educação, bolsa faculdade, bolsa cultura, bolsa para presos, dentre outras bolsas... Não é com dinheiro de crescimento; é com dinheiro de ENDIVIDAMENTO.

Compreenderam? Ou ainda preferem acreditar que Lula é mágico, o “cara”, o “pai do povo”?

Somos todos uns bocós...Ou melhor, 84% do povo brasileiro é bocó! Mas todos vão ter que pagar a conta!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A difícil missão de Dilma Rousseff

Por Arnaldo Jabor – publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 19 de outubro de 2010

"Dilma faz isso, Dilma faz aquilo... Dilma, corta o cabelo! Dilma se maquia mais rosadinha! Dilma você está sem emoção, tem de passar mais verdade... Dilma, seu sorriso não está sincero... Dilma isso, Dilma aquilo..."

(Coitada da pobre senhora que, canhestramente, segue as ordens do patrão e dos petistas que a usam para ficar eternamente em seus buraquinhos ou para realizar o que seria a torta caricatura de um vago socialismo, que não passa de uma reles aliança com a banda podre do PMDB.)

"Dilma, não fale nada de novo sobre aborto que você já deu uma entrevista na TV e agora não adianta desmentir. Dilma, ajoelha, isso, sei que está cansada, mas ajoelha e faz cara de religiosa devota de Nossa Senhora Aparecida; Dilma, eu sei que você é ateia, que para você a religião é o ópio do povo, mas, dane-se, ajoelha e reza, mas não fica com a cara muito em êxtase feito uma madre Teresa de Calcutá, não, que eles desconfiam. Dilma, levanta e vai confessar e comungar, mas não conte tudo ao padre, não, porque esses padres de hoje não são confiáveis e podem fazer panfletos. Dilma isso, Dilma aquilo!... Sei que foi duro para você, bichinha, ser preterida pela Marina, tão magrinha, uma top model do seringal , sabemos de tudo que você tem sofrido, mas você é uma revolucionária e tem de aguentar as intempéries para garantir os empregos de tantos militantes que invadiram esse Estado burguês para "revolucionar" por dentro. Viu, Dilma? Feito ensinou aquele cara italiano, que os comunas vivem falando, o tal de Gramsci... só que nosso Gramsci é o Dirceu.... ah ah... Você tem de esquentar minha cadeira ate 2014, pois você acha que vou ficar de pijama em São Bernardo?"

Aí, chegam os marqueteiros, escondendo sua depressão, pois o segundo turno não estava em seus planos de tomada do poder:

"Dilma, companheira, esculacha bem o FHC e o Serra , pois você pode inventar os números que quiser, porque ninguém confere. Diz aí que nós tiramos 28 milhões de brasileiros da miséria! Claro que é mentira, pô, mas diz e esconde que foi o governo do FHC que inventou o Bolsa Família e negue com todas as forças se disserem que o Plano Real tirou 30 milhões da faixa de pobreza, quando acabou com a inflação. Esqueça no fundo de tua mente que a inflação só ameaçou o Plano Real quando Lula barbudo ia vencer... Mas, quando o Duda escreveu a cartinha do Lulinha "paz e amor", a inflação voltou ao normal.

Dilma, você tem de negar em todos os debates que o PT tentou impedir o Plano Real no STF, assim como não assinou a Constituição de 88 para não compactuar com o "Estado burguês"; todos têm de esquecer que fomos contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, que demos força a todos os ladrões que pudemos para manter as alianças para nosso poder eterno, pois as ordens do companheiro Dirceu ("sim, doutor Dirceu, como está? Estamos ensinando aqui à dona Dilma suas recomendações...") eram: atacar tudo do governo FHC, mesmo as coisas inegavelmente boas. Dilma, afirme com fé e indignação que as "privatizações roubaram o patrimônio do povo", mesmo sabendo que a Vale, por exemplo, quando foi privatizada em 97 valia 8 bilhões de reais e que hoje vale 273 bilhões, que seu lucro era de 756 milhões e que agora é de 10 bilhões, que seus empregados eram 11 mil e que agora emprega 40.000. Mesmo sabendo que a Embraer entregava 4 jatos em 97 e que agora entrega 227, que a telefonia não existia na Telebrás e que agora quase todos os brasileiros têm celular. Não podemos divulgar, mas a telefonia privatizada aumentou o número de telefones em 2.500 por cento... Isso. Mas, não diga nada... Pode citar número quanto quiser que ninguém confere... diga que os municípios têm saneamento básico, quando metade deles não tem esgoto nem água tratada, depois de nossos oito anos no poder... Pode dizer o que quiser. Viu o belo exemplo do Gabrielli, que ousou dizer que o FHC queria que a Petrobras morresse de inanição e que o Zylberstajn era a favor da privatização do pré-sal"? Ninguém contesta, mesmo sendo publicado o que FHC escreveu na época, dizendo que "nunca privatizaria a Petrobras". Diga sempre que a culpa é das "elite", que o povão do Bolsa acredita... Dilma, faz isso, faz aquilo... Dilma, sobe no palanque, desce do palanque..."

(Eu acho que Dilma é uma vítima. Uma "tarefeira" do narcisismo de Lula. Agora que Dilma não tem mais certeza de que vai vencer, seu semblante é repassado por uma vaga inquietude. Gente autoritária odeia dúvidas, porque a dúvida não é "de esquerda"; a dúvida é coisa de pequenos burgueses - como dizia Marx: "Pequeno burguês é a contradição encarnada." Lula também odeia dúvidas...Ele fica retumbante quando vitorioso, mas sua cara muda com fracassos. Lembram do seu pior momento, quando explodiu o mensalão?)

Agora Lula está deprimido de novo, o PMDB está angustiado, querendo trair, como mostra a cara do candidato a vice-presidente, o mordomo inglês de filme de terror... Lula teme a derrota, como se caísse de volta na linha de pobreza que ele diz que interrompeu. Talvez no fundo, Dilma tema a própria vitória, porque terá de aguentar o PMDB exigindo coisas, Força Sindical, CUT, ladrões absolvidos, renunciados, cassados, novos corruptos no poder, novas Erenices, terá de receber ordens do comissário do povo Dirceu, terá de beijar e gostar do Sarney, Renan, Collor, seus aliados. Vai ter de beijar com delícia o Armadinejad, o beiçudo leão de chácara Chávez, o cocaleiro Evo, com o MST enfiando bonés em sua cabeça, vai ter de aturar as roubalheiras revolucionárias dos fundos de pensão que já mandaram para o Exterior bilhões em contas secretas.

Coitada da Dilma - sendo empurrada com a resignação militante, para cumprir ordens, tarefas, como os militantes rasos que pichavam muros ou distribuíam panfletos. Dilma às vezes dá a impressão de que não quer governar... Ela quer sossego, mas não deixam...

Como é que fazem isso com uma senhora?"

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

13 + 10 + 10 = 33 mineiros de volta à vida!

Tenho acompanhado, desde o início, em cinco de agosto, o drama vivido pelos 33 mineiros chilenos que ficaram presos, após acidente subterrâneo, a 622m de profundidade, na mina de San José, em Copiapó, no deserto de Atacama. Desde a confirmação de que todos estavam vivos e em boas condições físicas, um formidável aparato tecnológico de engenharia, medicina e comunicação foi montado para dar assistência aos mineiros e providenciar o difícil resgate.

Ontem, após 69 dias de trabalho ininterrupto, começou, enfim, o resgate, ao qual assisti através da chilena TVn 24h - uma bela cobertura jornalística, com a programação inteiramente voltada para o evento.

Antes da meia-noite do dia 12, começou o resgate, após exaustivos testes com a cápsula denominada Fenix, que traria os mineiros, finalmente, à superfície. Os mais fortes vieram primeiro. E foram calorosamente recebidos e longamente abraçados pelo presidente Sebastián Piñera, que não se afastou um momento sequer do sítio - juntamente com sua esposa e outros membros do ministério, dando assistência, confortando e animando os familiares que aguardavam os resgatados com enorme expectativa e emoção. Postura digna e elogiável de um estadista que realmente ama e se preocupa com o bem-estar de seus compatriotas! Bem diferente do governante brasileiro que, do alto de seus propalados 80% de popularidade não animou-se a chegar perto de seus patrícios quando passaram pela tragédia das enchentes em Alagoas, Rio de Janeiro e Santa Catarina, preferindo observar a extensão da tragédia do alto, a bordo de um helicóptero...
Não posso deixar de comentar (e o mundo todo está fazendo isso!) a notável performance do segundo mineiro a ser resgatado - Mário Sepulveda. Ao sair da cápsula, explodiu de alegria, puxando o grito de guerra dos chilenos: Chi - chi - chi - le - le - le! Viva Chile! Los mineros de Chi - lê! Abraçou efusivamente as autoridades e presenteou-as com pedras de minério que trouxe das profundezas.

São 13h25min do dia 13 de outubro e o 17º mineiro acaba de ser resgatado. A operação deve estender-se até a noite, quando todos os 33 do grupo já terão sido içados, juntamente com os cinco socorristas que desceram para auxiliá-los e prepará-los para uma subida segura.

Viva a vida! Viva o Chile! Naturalmente que o bom termo dessa saga emocionante foi brindado com uma taça de vinho chileno!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Segundo Turno, por Fernando Henrique Cardoso

Por relevante, lúcido e esclarecedor, reproduzo o excelente artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, publicado ontem, nos principais jornais do país.

SEGUNDO TURNO

"A campanha eleitoral termina sua primeira fase como se estivéssemos escolhendo entre duas ou três pessoas em razão de suas diferentes psicologias, grandes feitos, pequenas fragilidades pessoais ou o que mais seja. E não porque representam caminhos diversos para o país.

O governo de Lula e do PT se iniciou disposto a exercer o papel de renovador da política e da ética. Termina abraçado com a despolitização e o clientelismo. Ser pragmático é o que conta; ter bons índices de popularidade, aproveitar as águas calmas de um PIB em ascensão para distribuir benesses para todos os lados, fazer discursos inconsistentes, mesmo que chulos, para agradar a cada audiência. E, sobretudo, criar muitas imagens, registrando desde o ridículo até o sublime. Lula na Bolsa se autodefinindo como o sumo sacerdote do capitalismo financeiro global representou o coroamento de uma trajetória. Como se de suas mãos escurecidas de petróleo brotassem ações ricas em dividendos futuros, e não do esforço árduo de gerações de trabalhadores, técnicos e políticos para viabilizar a Petrobras como uma grande companhia da qual todos nos orgulhamos.

Por trás das máscaras dos candidatos, contudo, existem opções reais. Se elas se apresentam desfiguradas pelas técnicas mercadológicas, nem por isso deixam de representar distintas visões do país e interesses diversos. É por isso que, diga-se ou não, o dia de hoje é marcante. Em primeiro lugar, porque a despeito de o chefe da nação ter-se comportado como chefe de facção, chegando a falar em extermínio de adversários; apesar da massa de recursos mobilizada em propaganda direta ou indireta com as cornucópias públicas a jorrar rios de anúncios sobre "grandes feitos"; em que pese o personalismo imperial do presidente em sua verborreia incessante; não obstante tudo isso, com certeza pelo menos 40% dos eleitores não se dispõem a coonestar tal estado de coisas. E é pouco provável que os que ainda pendem para o outro lado alcancem hoje os 50% mais um dos votos válidos. A tentativa plebiscitária do "nós bons versus eles maus" não colou, a menos que se condene metade do país ao infortúnio de uma qualificação negativa perpétua.

Em segundo e principal lugar, o dia de hoje é importante porque abre um caminho para a convergência entre os que resistem ao rolo compressor do oficialismo (o PSDB com Serra e o PV com Marina). Temos em comum a recusa ao caminho personalista e autoritário. Rejeitamos a ideia de que esse caminho seja o único capaz de trazer progresso econômico e bem-estar social. Sabemos que, junto com o que de positivo possa haver sido alcançado nos últimos oito anos, houve também a penetração avassaladora de interesses partidários na administração pública. Também nela penetraram os interesses de grandes empresas, fundos de pensão e sindicatos. São estes os atores que, em aliança oportunista, dão sustentação à ideia de que é o Estado o motor do crescimento econômico. Os que resistem ao rolo compressor acreditam que o antídoto para esses males é o fortalecimento das instituições, o respeito às regras legais e a afirmação de lideranças que não dividam o país entre "eles" - os maus e "nós" - os bons.

Não é pouca coisa, portanto, o que está em jogo. Segundo o mantra oficial, a disputa política estaria resumida a dois blocos. No primeiro, estariam os que estão comprometidos com o interesse popular, com o bem-estar social e com a defesa dos interesses nacionais pelo Estado. No segundo, os "moralistas", que só se preocupam com o mundo das leis e com a honestidade na política porque já estão bem de vida. Vencendo o primeiro, o povo se beneficiaria com a distribuição de renda, as bolsas, emprego abundante, etc..., e o país com mais investimento e com a ação estatal para incentivar a economia. Vencendo o segundo, prevaleceriam os interesses dos que não olham para "o andar de baixo", na metáfora expressiva, embora incorreta, e podem se dar ao luxo de exigir formas corretas de conduta.

É preciso recusar essa visão distorcida do país. Na verdade, ele tem vários andares, e um ou mais elevadores que sobem e descem. Há mobilidade social e mobilidade política. O que hoje pode ser visto como "moralismo" amanhã pode tornar-se aspiração de todos os andares. É esta a batalha a ser travada. Não denunciamos a corrupção, o clientelismo e a ineficiência por "moralismo", mas, sim, para mostrar, em nome da justiça social, o quanto os andares de baixo perdem com a ineficiência, a corrupção e o clientelismo. Não aceitamos que os defensores do patrimônio público ou os que denunciam o abuso do poder político sejam, por isso, chamados de elitistas. Haverá mais e não menos inclusão social e desenvolvimento quanto mais eficiência houver no governo e decência, na vida pública.

A votação de hoje provavelmente nos levará ao segundo turno. Nele será indispensável mostrar que o PSDB não apenas foi decente como também fez muito pelo social quando foi governo. A começar pela estabilização, que é obra do nosso governo. Fez e está credenciado a fazê-lo novamente, junto com Marina, porque sabe que não há desenvolvimento de longo prazo sem sustentação ambiental.

Sem se arvorar a ser o único portador desses valores, é isso que Serra representa: a recusa da confusão entre malandragem e proximidade com o povo, entre abuso estatal no controle da economia e ação vigorosa do governo no manejo das políticas econômicas e sociais. O dia é hoje, a hora agora, para começar a construir um futuro melhor: o país merece um segundo turno no qual o confronto aberto entre os contendores dê aos eleitores a oportunidade de ver as diferenças entre os caminhos propostos, encobertas até agora pela rigidez das máscaras mercadológicas."