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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

No lado debaixo do Equador

Não existe pecado
Do lado debaixo do Equador
Vamos fazer um pecado
Rasgado, suado
A todo vapor...


Não existe pecado abaixo do Equador. Aqui, tudo é permitido e o povo é permissivo quando se trata de caráter. Faz que não vê ou não se importa com o que vê, preferindo abençoar, em época eleitoral, os trambiqueiros, os aproveitadores, os sanguessugas, aqueles que se beneficiam do seu cargo ou de sua posição para auferir ganhos espúrios que, de maneira legal, não teriam capacidade para amealhar. A partir dessa bênção, o que assistimos é um verdadeiro desfile alegórico da corrupção que grassa nos corredores e nos escaninhos palacianos da maior república tropical do mundo cujo fio, várias vezes puxado, teima, elasticamente, em resistir, por mais que se esgarcem as suas fibras.

Me deixa ser teu escracho
Capacho, teu cacho
Um riacho de amor
Quando é lição de esculacho
Olha aí, sai de baixo
Eu sou professor!...

Pois é, parece que o povo gosta de ser capacho e nem percebe essa condição degradante, já que continua aplaudindo a corte e participando do desfile com ardor, conferindo ao monarca estonteantes índices de popularidade que o farão, possivelmente, eleger a sua princesa búlgara. Aliás, falando em descendência, os herdeiros dos próceres da república, dentro ou fora da engrenagem, também se beneficiam fartamente dos negócios extra-muros oportunizados pelo tráfico de influência, tornado procedimento comum no mercado político. Um até, surpreendentemente, trocou singelo labor zoológico pelo intricado, cobiçoso e lucrativo mundo das telecomunicações. Outros rebentos, não suficientemente próximos da realeza, escorregaram em recente investigação jornalística que teve o mérito de chegar até a antessala do poder máximo, tornando público conúbio milionário na casa civil, já sob investigação. Porém, não se espere céleres resultados. Tal qual o mensalão e a ficha limpa, o processo repousará, lânguido, até fazer pó e esfarelar-se, em algum compartimento esquecido no tempo e no espaço. Não se iludam, confrades, a memória nacional é muito curta.

Deixa a tristeza prá lá
Vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru
Tucupi, tacacá
Vê se me usa, me abusa
Lambuza
Que a tua cafuza
Não pode esperar...

Alegria, espoucar de fogos, festim gastronômico... Quanto mais, melhor! Essa história de ética e moralidade na política e no serviço público nunca teve tradição no Brasil. Salvo melhor juízo, desde que Cabral e suas caravelas aqui aportaram, esse esplêndido berço quilométrico de sol, mar e riquezas mil virou o centro da cobiça de portugueses, franceses, holandeses e ingleses que, em pouco mais de três séculos, trataram de carregar o que puderam. Em troca, ensinaram toda a sorte de artimanhas, falcatruas e negociatas aos que aqui residiam. E como tudo que é ruim se espalha rapidamente, como rastilho de pólvora, nos séculos vindouros, a canalha aumentou e, com ela, a arte de mentir, enganar, roubar, traficar influência, ganhar dinheiro fácil nas costas dos néscios e outras especialidades do ramo virou ordem do dia no Brasil.

Deixa a tristeza prá lá
Vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru
Tucupi, tacacá
Vê se me esgota
Me bota na mesa
Que a tua holandesa
Não pode esperar...

Isso mesmo! Nada de tristeza que a época é de comemoração! Afinal, no domingo, mais de 130 milhões de brasileiros vão às urnas, escolher, mais uma vez, os seus lídimos representantes. Uma festa da democracia. Lastimo pelos que ainda se conservam crédulos e esperam, pacientemente, alguma mudança no lado de baixo do Equador. Mudança não haverá. Nada mais é pecado. O povo já disse. A letra da canção, Não existe pecado ao sul do Equador, de Chico Buarque, fala em canibalismo amoroso. Já eu falo de canibalismo puro, sem alegorias, dos nossos valores, das nossas esperanças. O mais grave é que poucos têm consciência disso.

4 comentários:

Lidia Andres disse...

Tenho muito orgulho de voce minha filha querida,beijos Lidia

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nivia Andres!
Meu telefone portátil vibrou!!!!... Preciso dizer quem era?!... Claro que era a minha amiga, a Dona Miquelina (huhum)!!!!!!...
Ela disse-me que desde o momento que a copeira Hermenegilda imprimiu e entregou-lhe a imperdível e supimpa crônica que a Senhora, no dia em curso, nos brindou, e desde o momento que ela tomou conhecimento do irretocável teor, está num estado de júbilo exacerbado, porque apesar de não ter ido, como costumeiramente faz às quartas-feiras, à Cripta da Catedral da Sé, porque está a todo vapor na campanha em favor do nosso futuro Timoneiro Mor, o estadista José Serra, suas preces, desfiando o Santo Rosário, solicitando a intercessão do poderoso Cacique Tibiriça e da Nossa Senhora de Guadalupe foram atendidas!!!!!...
Ela já pediu para a Hermenegilda imprimir centenas de cópias, porque daqui a pouco, a Dona Miquelina, irá com a Hermenegilda e o bombeiro Godofredo até a Estação Jardim São Paulo do metro paulistano, bem próximo da morada dela, lá no bairro de Santana, para distribuir cópias desta magnífica crônica, que é um refrigério para aqueles cidadãos, que não padecem da "cegueira branca"!!!!... Ela também disse-me que eu posso tirar meu "cavalinho da chuva", porque quem é a fã ardorosa nº 1 da Senhora é ela!!!!!...
Ela tem a mais absoluta convicção que esta reveladora crònica, que lavou sua alma, deixando-a imaculada, fará a diferença, nesta semana da virada, tornando o 2º turno um fato incontestável!!!!...
O noivo da Dona Miquelina, o Coronel Epaminondas Albuquerque Pinto Pacca, comandante do bombeiro Godofredo, também distribuirá - fora do seu horário de trabalho - cópias da crônica!!!!!!...
A ligação foi interrompida de supetão!!!!!!!...
Nem preciso dizer que assino embaixo as sensatas e argutas ponderações da minha amiga, a Dona Miquelina, com exceção do posto de fã ardoroso nº 1, porque o Presidente do fã clube dos "Nivianetes Andresianos" SOU EU!!!!!!!...
Max!!!!!!!!!... Traga meus sais centuplicado, porque faltam quatro dias para a grande virada, prenunciando uma vitória estrondosa do nosso candidato no 2º turno!!!!!...
Calorosas saudações democráticas e esperançosas!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP

CrisFonseca disse...

Cara Nivia.

Acho que os brasileiros cansaram de comer pizza!
Sua crônica é um diagnóstico preciso do quanto a nossa sociedade está precisando mudar a dieta. De comedores de pizza passamos à canibais e a barbárie não tarda a se instalar nesta parte de baixo do Equador.
Brilhante sua analogia com a música de Chico Buarque.
Para quem ainda não teve seu cérebro comido, vale a pena ler e refletir sobre isso.
Parabéns Nivia.
bjo.

João disse...

Para nossa tristeza, a esmagadora maioria dos 130 milhões de eleitores não tem consciência política alguma e o passeio até às urnas torna-se num "ôba, ôba", com a fila gigantesca de alienados pronta para colocar mais uma leva de corruptos safados no poder...
Abraços
João Batista