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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sakineh Mohammadiz Ashtiani

A escritora, poeta e cronista Martha Medeiros escreveu, em sua coluna de Zero Hora, no dia 11 de agosto, um artigo sobre a terrível história de Sakineh Ashtiani, a iraniana que virou notícia mundial ao ser condenada à morte por apedrejamento, uma pena brutal que ainda persiste no perverso código iraniano, apesar de o Corão não mencionar a lapidação como pena, a Lei islâmica aplicada em certos países de fé muçulmana justifica essa prática por relatos da vida de Maomé.

Apreciei o que a Martha escreveu. Creio que todos os que leram também perceberam a sensibilidade feminina e o senso de solidariedade demonstrado pela cronista. Porém, ficou no ar uma sensação de que ela mencionou o caso de Ashtiani apenas "en passant", entre um assunto e outro da revista feminina que ela folheava, como se estivesse dizendo que cremes, loções e tônicos para renovação celular eram mais interessantes... Será que foi isso mesmo que ela tentou passar? Ou foi tão apavorante a cena imaginada que ela preferiu entreter-se com as geleias embelezadoras que não servem para nada?

É muito triste saber que ainda existe tanta brutalidade nesse mundo e que não podemos fazer nada, apenas assinar um manifesto na internet e cést fini! Apesar dos protestos generalizados, Sakineh Ashtiani já está condenada, se não pela horrível lapidação, por enforcamento. Até mesmo Lula, o magnânimo, interviu, fazendo uma proposta angélica: " - Se essa mulher está incomodando, podemos recebê-la aqui, no Brasil!" E ouviu a réplica de seu amigo iraniano: " - O presidente do Brasil age movido pela emoção e não está suficientemente informado sobre o caso!" É a sharia.

Leiam a crônica da Martha:

SAKINEH, UMA MULHER COMO NÓS

"Adoçantes não calóricos. Massagem com compressas de ervas quentes. Máquinas high-tech para eliminar a celulite. Modelador térmico para criar cachos naturais. Esmalte de tratamento para unhas frágeis. Clareador de manchas com ácido bio-hialurônico. Hidratante bloqueador de radicais livres. E sigo folheando uma adorável revista feminina, que nos conduz a um mundo onde tudo é lindo, glamuroso e caro, mas sonhar não custa nada, e viro mais uma página, e outra, enquanto penso: uma moça chamada Sakineh Mohammadiz Ashtiani pode morrer apedrejada a qualquer momento por um suposto adultério cometido anos atrás.

Mulheres se candidatam à presidência, dirigem empresas, pedem o divórcio, viajam sozinhas, investem na sua vaidade, mas nenhuma dessas conquistas pode nos orgulhar enquanto ainda houver o costume de enterrar uma criatura no chão com apenas a cabeça de fora para que leve pedradas de diversos homens - e não podem ser pedras GG, tem que ser as de tamanho M, apois exige-se que o suplício seja longo. Que tom de gloss será conveniente para assistir ao badalado evento?

Sei que há diversas outras modalidades de desrespeito aos direitos humanos, inclusive no Brasil, mas neste momento estou vestindo a camiseta da Sakineh. Quero falar sobre o ato primitivo de se apedrejar uma mulher na cabeça até a morte. Não discuto o motivo torpe da condenação, pois nem que ela tivesse matado alguém, em vez de simplesmente ter feito sexo com alguém, seria justificativa. Não há justificativa para a brutalidade. É a lei do Irã, é a religião do Irã, é a tradição do Irã, e daí? Quando meu estômago embrulha, é sinal de que algo bem perto de mim está acontecendo. Distância só existe quando a gente racionaliza, o sentir unifica. O Irã faz parte do mundo em que eu vivo. O meu tempo e o da Sakineh são o mesmo. Somos contemporâneas. Ela não é um personagem, existe. Tem filhos. E se a mobilização internacional não surtir efeito, em breve será enterrada até a altura do busto, com os braços presos para não poder proteger o rosto.

O que dói, mais do que tudo, é reconhecer que avançamos tanto e ainda não conseguimos atingir um grau de humanidade que seja comum a todos, homens e mulheres de qualquer lugar e de qualquer crença. O que podemos fazer por Sakineh? Rezar para que ela seja enforcada, que é o plano B. Ufa, seria um alívio.

Há uma petição circulando pela internet. Acredito tanto na eficiência desses abaixo-assinados como acredito em creme antirugas, mas volto a dizer: sonhar não custa nada. www.liberdadeparasakineh.com.br

Eu já assinei. Agora vou passar meu incrível tônico de renovação celular “future solution”, pois, como qualquer mulher, adoro cuidar da minha pele."

* Crônica publicada no jornal Zero Hora do dia 11 de agosto de 2010

4 comentários:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nívia Andres!
O que me deixa mais estarrecido é que este inconcebivel fato está alicerçado em nome de um suposto Deus onisciente e onipresente.
O que nos espera?!...
Saudações desveladoras!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP

CrisFonseca disse...

Cara Nivia, causa indignaçAo saber que em nome da religião e dos costumes se mata, se dilapida, se tortura, faz-se coisas atrozes, que nem o mais primitivo primata ousaria fazer. Causa consternação constatar que o ser humano desenvolveu tantos artificios para embelezar o corpo, mas ainda carece de cosméticos para o embelezamento do espirito.

bjoss

João disse...

Realmente, o artigo tá meio "misturado". Espero que a Martha Medeiros tenha pretendido fazer um contraponto irônico entre as preocupações das mulheres ocidentais e a situação das mulheres no Irã.
E pensar que a pobre iraniana nem cometeu adultério pois já era viúva quando manteve os relacionamentos.
Abraços
João

João disse...

kkk,
Tô aqui, achando engraçado...
Percebeu que teu blog agora abriga 3 exilados?
Espero que vc não seja apedrejada!
Fique com Deus
João