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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Astúcia, inteligência, sabedoria

Moacyr Scliar é um autor gaúcho que dispensa apresentações. Ao ler sua crônica no Caderno Donna de ZH dominical não resisti e resolvi reproduzi-la, por tratar-se de um olhar mais-que-perfeito da conjuntura brasileira. As competências da inteligência e da sabedoria Moacyr as têm, de sobra, e as utiliza, à larga. Astúcia não lhe falta, igualmente, porém, como homem decente, creio que prefere usá-la apenas para "cometer" o bem! Neste caso, promovo astúcia à qualidade de perspicácia e sensibilidade...

"No interessante Onde Encontrar a Sabedoria? (Ed. Ponto de Leitura), o respeitado crítico norte-americano Harold Bloom observa que, ao longo do tempo, as pessoas sempre recorreram aos livros e aos autores famosos com o objetivo de se tornarem mais sábias. Leitura, esse era o raciocínio, pode ser uma coisa difícil, mas o esforço valeria a pena se, como resultado, a pessoa se tornasse mais sábia.

Cabe, contudo, a pergunta: será que este é um sonho comum à humanidade? Será que todos queremos a sabedoria? Será que no Brasil, em particular, este é um ideal?

Tenho minhas dúvidas. Sabedoria é uma condição que resulta de uma profunda compreensão do mundo e da condição humana. Nós não nascemos sábios, não nascemos com esta compreensão; temos que adquiri-la através da vida, e isso se faz mediante conhecimento (daí a necessidade da leitura) mas também graças ao "insight", o "conhece-te a ti mesmo", de Sócrates, mediante o qual aprendemos a não nos deixarmos iludir por nossa arrogância, reconhecer nossas limitações e defeitos, a pensar e agir de forma serena e desapaixonada. Agir, sim; sabedoria não é só pensar bem, não é só ter conhecimento e entender as coisas. Sabedoria é agir bem, resolvendo os problemas de forma eficaz, mas de forma ética, decente.

Um componente importante da sabedoria é a inteligência, a palavra que vem do latim e quer dizer entendimento. A pessoa inteligente entende, mediante o raciocínio e a experiência, as coisas, mesmo complexas. É uma habilidade que, diferente da sabedoria, pode ser avaliada, e até quantificada; daí os testes de inteligência, incluindo o famoso QI, quociente de inteligência, aliás objeto de controvérsia nos últimos anos.

Ser inteligente não é ser sábio: na sabedoria o furo está mais acima. A pessoa inteligente nem sempre age bem; a história da humanidade está cheia de vigaristas que aplicavam e aplicam golpes inteligentíssimos (os hackers, por exemplo). No fim essas pessoas se dão mal, exatamente porque lhes falta esse conhecimento maior que é a sabedoria.

Isso é ainda mais verdadedeiro no caso da astúcia, que não é sabedoria nem inteligência. É uma coisa menos sofisticada, mais primitiva, daí por que, nas fábulas, é simbolizada por um animal, a raposa. A raposa não é sábia nem inteligente; a raposa é astuta. Astúcia é manha, esperteza. Zélia Duncan disso isso na letra de uma música: Astúcia, astúcia/O que te faltou foi astúcia/Pra roubar meu coração faltou muito pouco/Era só ter procurado no outro bolso. Astucioso é o cara que procura no outro bolso; é o cara que sabe como roubar. Isso explica por que a astúcia é ainda tão valorizada no Brasil: porque representa uma maneira fácil de conquistar as coisas, de subir na vida. Se vocês perguntarem a alguém como se ganha eleições, se com sabedoria, com inteligência ou com astúcia, a pessoa certamente optará por esta última alternativa, atrás da qual estão séculos de safadeza e corrupção. Mas é que as duras condições da vida em nosso país, a pobreza, a desigualdade, deixaram esta lição: para sobreviver é preciso ser astuto, esperto. É muito glamouroso ser inteligente, é digna de admiração a pessoa sábia; mas, quando se trata de salvar a pele, o melhor mesmo é a astúcia.

Compreensível. Mas não satisfatório. Nós só chegamos à verdadeira maturidade quando a astúcia reconhece a importância da inteligência e quando esta é um recurso para atingir a sabedoria. Um Brasil sábio deveria ser o nosso objetivo maior."

2 comentários:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nívia Andres!
Graças a sua inteligência e sabedoria seus leitores, que não têm a prerrogativa de ler o prestigioso periódico "Zero Hora" e melhor ainda a Coluna do nobilíssimo escritor Moacyr Sclair, que tanto engrandece seu pujante Estado Meridional e nossa Federação, tiveram a possibilidade de dar outros viéses as reflexões suscitadas pela imperdível crônica, que a Senhora gentilmente nos brindou, e se inquietarem ao ficar patente que são conduzidos por um Timoneiro Mor, no Poder Executivo no âmbito Federal, que gerencia nosso amado Reino digo Pátria, alicerçado na "astúcia"... Para nossa desgraça impôs a candidatura de uma mulher também astuta, que se sujeita a interesses escusos para perpetuar no poder um grupo político, onde a maioria dos seus membros são também pautados pela astúcia... Por outro lado temos um candidato ao cargo de Timoneiro Mor com perfil de estadista supimpa, que notoriamente tem como premissa a inteligência e sabedoria!!!!!!!!!!...
Desejo intensamente que os debates políticos televisivos deixem nítido esta cruciante diferença entre os dois candidatos, que lideram nas pesquisas para ocupar o cargo citado anteriormente...
Com o candidato pautado pela inteligência e sabedoria tenho convicção, se for o escolhido para o cargo mencionado (assim espero!!!!!...), que singraremos sempre por rotas conhecidas, desviando com inteligência e sabedoria de borrascas e mares desconhecidos com o escopo de atingirmos incólumes portos seguros, que nos tragam prosperidade, sem paternalismos!!!... Por outro lado a candidata pautada pela astúcia...
Qual dos candidatos nossos patrícios confiarão para conduzir o timão?!...
Que Netuno nos proteja se a astúcia vencer a peleja!!!!!
Por Dionísio... O que nos espera?!...
Calorosas saudações reveladoras e democráticas!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP

Anônimo disse...

Nivia um abraço.
Posso alimentar alguma divergencia com sua colocação da astúcia e o que a palavra pode significar. Apreciei o texto postado e, creio estar embutido nele uma aula de comportamemto.
Andando adiante, no ano passado abracei o Moacir Scliar na Sala São Paulo por ocasião do prêmio Jabuti com seu Manual (...), que por justo o levou a mais uma gloria em seu curriculo literário.
Passei por aqui, oportunidade que me fez acrescentar saber. Obrigado
Garcia Netto