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terça-feira, 31 de agosto de 2010

O cinismo e seus requintes

Filosofia surgida na Grécia antiga, o cinismo caracterizava-se pelo desprezo às convenções sociais e a procura da felicidade através de uma vida reta e virtuosa, liberta da servidão dos costumes e instituições humanas. Com o tempo, o termo adquiriu conotação pejorativa, pela contradição verificada entre o ideal ascético divulgado e o hedonismo vivido. O cinismo despreza todas as fórmulas da decência e da ética e parece que tem aumentado muito o seu séquito de seguidores nos tempos atuais. No Brasil, então, nem se fala! Os nossos políticos exibem um cinismo profundo cada vez que precisam defender-se, negando até mesmo a própria realidade que, muitas vezes, aparece, escancarada.

Os cínicos são malandros da pior espécie, hábeis e ousados, experientes na arte de mentir e encontrar desculpas para o seu ultrajante comportamento, mesmo que lhes seja impossível ocultar a verdade, porém, sempre há um jeitinho, uma manobra, um acordo de compadres, geralmente celebrado com o apoio de seus pares, sejam do governo ou da oposição, mostrando que o corporativismo reina nas instâncias do poder e, como sempre, uma mão lava a outra...

Certo é que o cinismo demonstrado pelos políticos corrobora a máxima, mais cínica ainda, de que “a mentira muitas vezes contada, se transforma em verdade” ou, “a acusação, muitas vezes negada, inocenta o acusado”. Está claro que nada vai mudar esse inferno ético e moral em que vivemos enquanto não for afastada, definitivamente, a certeza da impunidade, o mal do século (ou do milênio), alegria e inspiração dos corruptos.

Estamos em plena campanha eleitoral e pressinto, com temor, que está em marcha, maquiavélica e cuidadosamente arquitetada, uma farsa destinada a institucionalizar o populismo, de fundo messiânico, em que o pai de todos entrega o povo para a mãe de todos, como se a sociedade não tivesse querer e nem escolha. De certa maneira, não tem, mesmo, porque a mentira, tantas vezes reiterada, acaba sendo a única verdade.

Pior mesmo é perceber que esse festival de cinismo e frouxidão moral acabou por contaminar toda a sociedade. Decência, honradez, honestidade, lealdade e competência já não são consideradas qualidades que podem levar uma pessoa ao sucesso, seja em que seara for. Agora, oportunismo, hipocrisia, esperteza, má-fé e mais uma lista infindável de safadezas, estas sim, são atributos que asseguram carreira meteórica, por mais inexpressivo que seja o cidadão. O que vale é o pendor para a venalidade, essa sim, considerada uma competência sine qua non para o êxito de qualquer empreendimento.

Como parece impossível combater a corrupção e bastante difícil acabar com a impunidade na atual conjuntura, parece que o combate à retórica do cinismo passa por conservarmos, a todo custo, uma mídia livre e autônoma, que privilegie a liberdade de informação e continue denunciando os cínicos de plantão e de ofício. Entretanto, percebo, desolada, que aquela mídia combativa e incorruptível até há pouco tempo está sucumbindo, em troca de um punhado de moedas, assegurada pela veiculação de anúncios institucionais, gordos financiamentos para expansão e rolagem sine die de dívidas. Bem poucos resistem e continuam autônomos, éticos e honrados. Prefiro continuar nesta trincheira e me nego a usar o véu do cinismo fundamentalista que está contaminando o último bastião da democracia.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

EPÍSTOLAS PAULIANAS

Conheci o Professor João Paulo de Oliveira quando ele começou a publicar suas crônicas no blog de Edward de Souza, onde ambos éramos colaboradores. Como eu era coeditora daquele blog e tinha a responsabilidade de publicar os textos, sugeri-lhe que desse um nome às belas epístolas que escrevia. Decidimos chamá-las de EPÍSTOLAS PAULIANAS. Depois de tantas lindas missivas, também tive a honra de ser a destinatária de uma. Ei-la:


EPÍSTOLAS PAULIANAS

CONVERSANDO COM A JORNALISTA NIVIA ANDRES

Diadema, minha amada cidade, 24 de agosto de 2010.

Prezadíssima jornalista Nivia Andres!

Esta fantástica tecnologia, que veio para revolucionar nosso modo de vida, bem como possibilitar aprendizagens e contatos sociais inimagináveis poucas décadas atrás, ainda deixa-me fascinado, porque seria remotíssima a possibilidade de ter a prerrogativa de conhecer uma pessoa tão supimpa, como a Senhora, se não fosse o mundo cibernético!!!!...

Graças a sua maravilhosa e argutíssima verve tenho o deleite de ver as missivas que escrevo receberem o título “Epístolas Paulianas”, além de sempre incentivar-me a escrever mais, com o escopo de reuni-las num livro!!!!...

Embora ainda não a conheça em carne e osso, parece que somos amicíssimos desde o tempo que vivíamos em Atenas, tendo como contemporâneo o inigualável filósofo Sócrates e eu não via a hora de encontrá-la para dizer-lhe, maravilhado, o que tinha aprendido com o nosso Mestre!!!!!!!...
Felizardos são seus entes queridos e amigos, porque têm o deleite de conviver com um ser vivente, como a Senhora, que dignifica a espécie Homo Sapiens, fazendo a diferença na vida das pessoas, tecendo sensatas ponderações e alentando-nos em momentos de aflições e incompreensões!!!!...

Como é do seu conhecimento sou incrédulo, todavia tenho uma amiga, a Dona Miquelina (beata zelosa), que é também sua fã de carteirinha, bem com sua fiel copeira, a Hermenegilda e o noivo, o bombeiro Godofredo, além é claro do futuro marido da minha amiga beata zelosa, o Coronel Epaminondas Albuquerque Pinto Pacca!!!!... Todas as quartas-feiras a Dona Miquelina vai à Cripta da Catedral da Sé e nunca a esquece nas suas orações, pedindo a intercessão do poderoso cacique Tibiriça e da Nossa Senhora de Guadalupe para que nenhum sortilégio a atinja, bem como afaste deixando a incontáveis léguas de distância pessoas perniciosas e maledicentes!!!!!!... Tenho outros amigos, o João Batista Gregório e a Cristina Fonseca, que também a tem em alta estima e consideração!!!!...

Meu telefone portátil vibrou!!!!... Preciso dizer quem era?!... Claro que era a Dona Miquelina (huhum)!!!!!... Antes que ela começasse a falar, disse-lhe que estava escrevendo para a Senhora!!!!!... Ela ficou jubilosa e pediu para dizer-lhe que amanhã desfiará um Rosário inteiro para que as forças ocultas jamais cheguem nos seus domínios meridionais e iluminem seus patrícios para que reflitam bem e confiem mais uma gestão, deixando a valorosa Governadora Yeda Crusius continuar no timão!!!!... Falando na Governadora do seu pujante Estado Meridional, a Senhora sabia que ela veio à luz no ano que minha amada imortal, Gene Tierney, brilhava na fascinante Arte das Imagens em Movimento, personificando a inesquecível Laura Hunt, na película “Laura”?!... Ela disse-me ainda que continua a todo vapor na campanha do seu ídolo, o destemido economista José Serra, porque tem convicção que ele será nosso próximo Timoneiro Mor, tendo em vista que a “cegueira branca” que acomete os pretensos eleitores da “bruxa má do oeste” será curada antes do glorioso dia 3 de outubro de 2010!!!!!... Depois do pleito a Cruella de Vil irá para a P... Patagônia para aterrorizar os desvalidos pingüins com o escopo de tirar suas peles... A ligação foi interrompida de supetão!!!!... Por Dionísio, como sofro ao ser um aparelho desvalido não sindicalizado, porque não posso ser responsabilizado pelos mexericos da Dona Miquelina!!!!...

Folguedos a parte, esta foi a forma que encontrei para expressar o grande apreço que tenho pela Senhora!!!!!... Que a deusa da Justiça e da Sabedoria a tenha como pupila sempre!!!!...

Do seu fã nº 1 (Ché, nem quero ver o bafafá, quando os seus incontáveis fãs souberem!!!!!... Max!!!!!... Traga meus sais centuplicados!!!!...

Caloroso abraço! Saudações respeitosas!

Até breve...

João Paulo de Oliveira
Diadema-SP

*As belas imagens que ilustram a epístola são de autoria de Cristina Fonseca, a mesma artista que produziu a arte do meu blog (Nivia Andres).

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Taça Libertadores da América

Meu coração tricolor deseja a todos os colorados muito sucesso, hoje à noite, na decisão da Taça Libertadores da América. Espero que os jogadores ajam como verdadeiros guerreiros gaúchos e façam como o seu coirmão, conquistando o bicampeonato.

Aliás, nunca foi tão fácil conquistar uma Libertadores, com a decadência das equipes argentinas e tendo como adversário, na final, um time mexicano. Assim, colorados, cumpram a obrigação, com presteza!

Meu desejo é sincero.

Atualização em 19 de agosto:

Vejam o comentário que recebi de meu amigo João Batista Gregório, talentoso escritor e culinarista, que reside em São João da Boa Vista, SP:

"Parabéns colorada! Olha aí a manchete UOL: "Taça da Libertadores sofre acidente é colada com Super Bonder. Antes de Bolívar levantar para o Internacional, pela segunda vez, a taça de campeão da Copa Libertadores, o troféu sofreu um acidente já no estádio Beira-Rio e teve de ser remendado. Durante o transporte da taça, os representantes da Conmebol quebraram acidentalmente o jogador que adorna o principal símbolo do futebol sul-americano. Com isso, tiveram de improvisar um conserto, colando a taça com a famosa Super Bonder, como mostram as fotos de Tarlis Schneider, da agência Freelancer, que flagrou o momento." Mas o que vale é o título, não é? Abs, joão."

Caro João, cabe esclarecer que não sou colorada; nunca fui e nunca serei. Sou GREMISTA, com honra! Apenas quis fazer uma gentileza aos coirmãos colorados! E aproveito para cumprimentá-los pela conquista!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sakineh Mohammadiz Ashtiani

A escritora, poeta e cronista Martha Medeiros escreveu, em sua coluna de Zero Hora, no dia 11 de agosto, um artigo sobre a terrível história de Sakineh Ashtiani, a iraniana que virou notícia mundial ao ser condenada à morte por apedrejamento, uma pena brutal que ainda persiste no perverso código iraniano, apesar de o Corão não mencionar a lapidação como pena, a Lei islâmica aplicada em certos países de fé muçulmana justifica essa prática por relatos da vida de Maomé.

Apreciei o que a Martha escreveu. Creio que todos os que leram também perceberam a sensibilidade feminina e o senso de solidariedade demonstrado pela cronista. Porém, ficou no ar uma sensação de que ela mencionou o caso de Ashtiani apenas "en passant", entre um assunto e outro da revista feminina que ela folheava, como se estivesse dizendo que cremes, loções e tônicos para renovação celular eram mais interessantes... Será que foi isso mesmo que ela tentou passar? Ou foi tão apavorante a cena imaginada que ela preferiu entreter-se com as geleias embelezadoras que não servem para nada?

É muito triste saber que ainda existe tanta brutalidade nesse mundo e que não podemos fazer nada, apenas assinar um manifesto na internet e cést fini! Apesar dos protestos generalizados, Sakineh Ashtiani já está condenada, se não pela horrível lapidação, por enforcamento. Até mesmo Lula, o magnânimo, interviu, fazendo uma proposta angélica: " - Se essa mulher está incomodando, podemos recebê-la aqui, no Brasil!" E ouviu a réplica de seu amigo iraniano: " - O presidente do Brasil age movido pela emoção e não está suficientemente informado sobre o caso!" É a sharia.

Leiam a crônica da Martha:

SAKINEH, UMA MULHER COMO NÓS

"Adoçantes não calóricos. Massagem com compressas de ervas quentes. Máquinas high-tech para eliminar a celulite. Modelador térmico para criar cachos naturais. Esmalte de tratamento para unhas frágeis. Clareador de manchas com ácido bio-hialurônico. Hidratante bloqueador de radicais livres. E sigo folheando uma adorável revista feminina, que nos conduz a um mundo onde tudo é lindo, glamuroso e caro, mas sonhar não custa nada, e viro mais uma página, e outra, enquanto penso: uma moça chamada Sakineh Mohammadiz Ashtiani pode morrer apedrejada a qualquer momento por um suposto adultério cometido anos atrás.

Mulheres se candidatam à presidência, dirigem empresas, pedem o divórcio, viajam sozinhas, investem na sua vaidade, mas nenhuma dessas conquistas pode nos orgulhar enquanto ainda houver o costume de enterrar uma criatura no chão com apenas a cabeça de fora para que leve pedradas de diversos homens - e não podem ser pedras GG, tem que ser as de tamanho M, apois exige-se que o suplício seja longo. Que tom de gloss será conveniente para assistir ao badalado evento?

Sei que há diversas outras modalidades de desrespeito aos direitos humanos, inclusive no Brasil, mas neste momento estou vestindo a camiseta da Sakineh. Quero falar sobre o ato primitivo de se apedrejar uma mulher na cabeça até a morte. Não discuto o motivo torpe da condenação, pois nem que ela tivesse matado alguém, em vez de simplesmente ter feito sexo com alguém, seria justificativa. Não há justificativa para a brutalidade. É a lei do Irã, é a religião do Irã, é a tradição do Irã, e daí? Quando meu estômago embrulha, é sinal de que algo bem perto de mim está acontecendo. Distância só existe quando a gente racionaliza, o sentir unifica. O Irã faz parte do mundo em que eu vivo. O meu tempo e o da Sakineh são o mesmo. Somos contemporâneas. Ela não é um personagem, existe. Tem filhos. E se a mobilização internacional não surtir efeito, em breve será enterrada até a altura do busto, com os braços presos para não poder proteger o rosto.

O que dói, mais do que tudo, é reconhecer que avançamos tanto e ainda não conseguimos atingir um grau de humanidade que seja comum a todos, homens e mulheres de qualquer lugar e de qualquer crença. O que podemos fazer por Sakineh? Rezar para que ela seja enforcada, que é o plano B. Ufa, seria um alívio.

Há uma petição circulando pela internet. Acredito tanto na eficiência desses abaixo-assinados como acredito em creme antirugas, mas volto a dizer: sonhar não custa nada. www.liberdadeparasakineh.com.br

Eu já assinei. Agora vou passar meu incrível tônico de renovação celular “future solution”, pois, como qualquer mulher, adoro cuidar da minha pele."

* Crônica publicada no jornal Zero Hora do dia 11 de agosto de 2010

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Mistério do voto e outras constatações

Aprecio as ponderações, sempre sensatas, da jornalista Miriam Leitão. Hoje, em sua coluna no jornal O Globo, ela faz uma boa análise da atual conjuntura eleitoral no que tange às eleições presidenciais. Como jornalista, acostumada à leitura de cenários, também concordo que o momento é favorável à candidata de Lula (Dima não é mais que isso), agraciada pelo esforço descomunal do chefe em emplacá-la, de qualquer maneira, passando por cima, inclusive, da lei a qual deveria ser o primeiro a reverenciar. Aliás, Dilma Rousseff, se realmente fosse uma grande brasileira, deveria ter declinado do convite para ser a candidata à sucessão de Lula, pelo simples motivo de que ela não existe como política - é apenas uma burocrata que se fez aproveitando cargos comissionados no executivo, por beneplácito dos partido aos quais estava filiada (PDT e PT); nunca submeteu-se ao crivo do voto; é totalmente inexperiente, crua; não consegue articular uma frase completa e não tem opinião formada sobre nada. Utiliza apenas um lero-lero decorado, sofrível de argumentos. A primeira entrevista, ao vivo, para o Jornal Nacional foi medíocre. Esperemos as próximas. E o horário eleitoral.

Mas, voltemos ao artigo de Miriam Leitão:

"Alguns cientistas políticos estão dizendo que a eleição já está decidida. A democracia tem um processo mais rico de escolhas que sempre surpreende os especialistas e seus vaticínios precoces; a parte mais importante da disputa começa agora com entrevistas mais decisivas, a propaganda eleitoral eletrônica, e o acirramento dos debates. Os próximos 55 dias serão mais definidores.

A análise econômica erra muito; a análise política, também. Uma das teses é que o governo Lula teria feito uma clivagem entre ricos e pobres após o mensalão. Pobres teriam ficado como sua base, e os riscos se afastaram. Para acreditar que é simples assim, e que o Brasil é tão dividido em classes, é preciso não ter lido o manifesto dos empresários que faz uma defesa aguerrida e politizada da manutenção de uma das escolhas do atual governo que é a de recriar no BNDES o passado mais que pretérito. É preciso também ignorar a abundância das contribuições dos maiores grupos empresariais brasileiros ao financiamento da campanha da candidata do governo.

A ideia de que há uma divisão entre pobres e ricos, que os pobres passaram a ser parte de uma espécie de curral eleitoral eterno do Lulismo e que os ricos ficaram definitivamente com o PSDB, é uma estultice. Simplesmente há pobres e ricos na base de apoio de todas as candidaturas. O processo de escolha de cada eleitor passa por caminhos menos automáticos.

As políticas sociais e econômicas dos dois principais partidos do país têm superposições e pontos em que se diferenciam. Mas nem é essa análise comparada das políticas que dará a resposta sobre quem vencerá as eleições de outubro no Brasil. Os caminhos da escolha de cada um tem a ver com uma teia mais complexa de emoções, sensações, interpretações, conversas de amigos, êxitos e fracassos de cada campanha de passar seus principais recados. Há mudanças de última hora, há fatos surpreendentes, há oscilações fortes. Tudo isso vimos em eleições para diversos níveis nos últimos tempos. Em resumo: o eleitor não vota como um resultado automático de uma equação. A complexidade da escolha é que encerra a beleza do processo.

Há uma lista grande de “óbvios” políticos que não se confirmaram e uma sucessão de inesperados. O exuberante carisma de Lula e o uso da máquina, em 2006, não foram suficientes para ele derrotar Geraldo Alckmin no primeiro turno, um político conhecido por sua falta de carisma. A ampla base municipal do PMDB jamais foi suficiente para levá-lo a ganhar a disputa presidencial e há quatro eleições ele sequer postula o cargo. Na última em que participou, em 1994, com o experiente Orestes Quércia, o PMDB ficou em último lugar. Naquela vez, Quércia, Brizola e Espiridião Amin ficaram atrás de Enéas. A aguda crise econômica e a recessão de 1998 não foram suficientes para tirar de Fernando Henrique a vitória no primeiro turno. Luiza Erundina estava derrotada em todas as pesquisas até que venceu a eleição para a prefeitura de São Paulo, em 1988.

Fernando Collor de Mello, que começou com 1% das intenções de voto e um partido inventado como veículo da candidatura, derrotou políticos experientes ou com máquinas partidárias como Ulysses Guimarães, Mário Covas, Paulo Maluf, Leonel Brizola e Lula da Silva. O PT tinha ainda uma publicidade inovadora e apaixonante que fez a classe média e artistas cantarem o “Lula lá”. Naquela eleição, Lula e Brizola chegaram empatados no segundo lugar, só um percentual mínimo de votos é que levou Lula para a disputa com Collor. Em 2002, mesmo com o desgaste do governo FHC e a força do “Agora é Lula”, ele não conseguiu ganhar no primeiro turno.

Em 2002, Ciro Gomes, concorrendo pelo PPS, um partido pequeno, teve uma onda favorável em que ultrapassou 20% de intenção de votos e depois, por seus erros de comunicação, murchou e terminou atrás de Garotinho. Na atual eleição, houve quem dissesse que Dilma era um “poste” e que não passaria dos 30%, e depois passou-se a se ter como certo que ela já ganhou, apesar de só agora ter começado, de fato, a campanha. A história das eleições livres aqui e no exterior está repleta de inesperados e de viradas de jogo. Por tudo isso, a fase mais interessante da campanha começa agora e não será menos decisiva do que em qualquer outra eleição.

O momento de conforto econômico criado pelo crescimento com baixa inflação e ampliação do crédito, como já disse aqui na coluna, cria um ambiente favorável à candidatura governista. Isso somado à popularidade do presidente Lula e ao uso abusivo da máquina pública na propaganda dão à candidata Dilma Rousseff a força que jamais teria se contasse apenas com seus atributos pessoais nessa campanha. Mas ter favoritismo é diferente de já estar eleita de véspera.

Mesmo que se confirme a previsão mais repetida, e Dilma Rouseff ganhar a eleição, isso não está garantido agora. Para confirmar o prognóstico, ela terá que atravessar as próximas 8 ou 12 semanas de campanha garantindo o favoritismo e administrando o seu maior risco: ela mesma."

Fonte: http://oglobo.globo.com/economia/miriam/

Escolhas

Todos os dias fazemos escolhas e delas depende, invariavelmente, a qualidade da nossa vida.

O problema é que, hoje em dia, está cada vez mais difícil sermos os artífices das nossas escolhas. Tem muita gente escolhendo por nós, como se fôssemos marionetes, como se não tivéssemos opinião nem vontade; como se não pudéssemos discernir o que é melhor para cada um de nós – o que é justo, o que é correto, o que é bom. E assim, vamos nos deixando levar por escolhas alheias, afrouxando as correntes que nos retêm nos limites da nossa capacidade discricionária de efetuar julgamentos.

Pois é, a condição de cidadania, a missão individual dentro do ambiente coletivo, as aspirações pessoais, a integridade do comportamento face a um ambiente contraditório e hostil são patrimônio do qual não podemos abrir mão, sejam quais forem os impactos e as consequências. A ética é um valor elementar, impregnado em nossos registros básicos. É preciso coragem, maturidade e elevado nível de consciência para escolher a opção ética, que permite ao indivíduo desenvolvimento sem amarras, liberdade de comportamento e tranquilidade moral que lhe dá cada vez mais condições de avançar em termos de realizações, pessoais e profissionais. E comportamento ético pressupõe que desejemos bem-estar coletivo.

A ética é uma característica inerente a toda ação humana e, por esta razão, é um elemento fundamental na produção da realidade social. Todo homem possui um senso ético, que poderíamos chamar de consciência moral, a possibilitar constantemente avaliação e julgamento de suas ações para perceber se são boas ou más, certas ou erradas, justas ou injustas. Porém, nem sempre o que nós acreditamos ser justo e certo é o julgamento de outrem...

Há condutas humanas classificáveis sob a ótica do certo e errado, do bem e do mal. Embora relacionadas com o agir individual, essas categorias sempre têm relação com as matrizes culturais que prevalecem em determinadas sociedades e contextos históricos.

A ética está relacionada à escolha, ao desejo de realizar a vida, mantendo, com os semelhantes, relações justas, aceitáveis e harmoniosas. Via de regra está fundamentada nas ideias de bem e virtude, enquanto valores perseguidos por todo ser humano e cujo alcance se traduz numa vida plena e feliz para todos.

Agir eticamente é poder escolher, é ser competitivo, comprometido consigo mesmo, em sintonia com a essência, descartando a aparência que fere e afasta o que temos de melhor. Esse é o comportamento desejável. Decisões e ações geram consequências que precisam ser sempre medidas, porém a atitude ética e íntegra, vai permitir que ultrapassemos nossas limitações e tentações diárias.

É muito mais fácil deixarmos de fazer escolhas e alugar nossa integridade aos gentios, agindo dentro dos cânones do oportunismo que grassa descaradamente no cenário nacional, aonde o maior exemplo vem daquele que nada vê, nada sabe e nada faz, mas é o senhor oculto e in-culto de todos os destinos, en passant, é claro! Continuar fazendo escolhas deve ser a meta elementar de todos os cidadãos e ainda há instrumentos muito poderosos ao nosso alcance. Basta que não nos esqueçamos deles, que sonhemos com eles e os façamos prosperar. E a ferramenta mais valiosa, com certeza, é o voto, que vamos exercitar proximamente.

Um bom exercício de análise do cenário que se avizinha é prudente e interessante. Até mesmo porque a escolha terá consequências como quase nunca antes na história deste país.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Astúcia, inteligência, sabedoria

Moacyr Scliar é um autor gaúcho que dispensa apresentações. Ao ler sua crônica no Caderno Donna de ZH dominical não resisti e resolvi reproduzi-la, por tratar-se de um olhar mais-que-perfeito da conjuntura brasileira. As competências da inteligência e da sabedoria Moacyr as têm, de sobra, e as utiliza, à larga. Astúcia não lhe falta, igualmente, porém, como homem decente, creio que prefere usá-la apenas para "cometer" o bem! Neste caso, promovo astúcia à qualidade de perspicácia e sensibilidade...

"No interessante Onde Encontrar a Sabedoria? (Ed. Ponto de Leitura), o respeitado crítico norte-americano Harold Bloom observa que, ao longo do tempo, as pessoas sempre recorreram aos livros e aos autores famosos com o objetivo de se tornarem mais sábias. Leitura, esse era o raciocínio, pode ser uma coisa difícil, mas o esforço valeria a pena se, como resultado, a pessoa se tornasse mais sábia.

Cabe, contudo, a pergunta: será que este é um sonho comum à humanidade? Será que todos queremos a sabedoria? Será que no Brasil, em particular, este é um ideal?

Tenho minhas dúvidas. Sabedoria é uma condição que resulta de uma profunda compreensão do mundo e da condição humana. Nós não nascemos sábios, não nascemos com esta compreensão; temos que adquiri-la através da vida, e isso se faz mediante conhecimento (daí a necessidade da leitura) mas também graças ao "insight", o "conhece-te a ti mesmo", de Sócrates, mediante o qual aprendemos a não nos deixarmos iludir por nossa arrogância, reconhecer nossas limitações e defeitos, a pensar e agir de forma serena e desapaixonada. Agir, sim; sabedoria não é só pensar bem, não é só ter conhecimento e entender as coisas. Sabedoria é agir bem, resolvendo os problemas de forma eficaz, mas de forma ética, decente.

Um componente importante da sabedoria é a inteligência, a palavra que vem do latim e quer dizer entendimento. A pessoa inteligente entende, mediante o raciocínio e a experiência, as coisas, mesmo complexas. É uma habilidade que, diferente da sabedoria, pode ser avaliada, e até quantificada; daí os testes de inteligência, incluindo o famoso QI, quociente de inteligência, aliás objeto de controvérsia nos últimos anos.

Ser inteligente não é ser sábio: na sabedoria o furo está mais acima. A pessoa inteligente nem sempre age bem; a história da humanidade está cheia de vigaristas que aplicavam e aplicam golpes inteligentíssimos (os hackers, por exemplo). No fim essas pessoas se dão mal, exatamente porque lhes falta esse conhecimento maior que é a sabedoria.

Isso é ainda mais verdadedeiro no caso da astúcia, que não é sabedoria nem inteligência. É uma coisa menos sofisticada, mais primitiva, daí por que, nas fábulas, é simbolizada por um animal, a raposa. A raposa não é sábia nem inteligente; a raposa é astuta. Astúcia é manha, esperteza. Zélia Duncan disso isso na letra de uma música: Astúcia, astúcia/O que te faltou foi astúcia/Pra roubar meu coração faltou muito pouco/Era só ter procurado no outro bolso. Astucioso é o cara que procura no outro bolso; é o cara que sabe como roubar. Isso explica por que a astúcia é ainda tão valorizada no Brasil: porque representa uma maneira fácil de conquistar as coisas, de subir na vida. Se vocês perguntarem a alguém como se ganha eleições, se com sabedoria, com inteligência ou com astúcia, a pessoa certamente optará por esta última alternativa, atrás da qual estão séculos de safadeza e corrupção. Mas é que as duras condições da vida em nosso país, a pobreza, a desigualdade, deixaram esta lição: para sobreviver é preciso ser astuto, esperto. É muito glamouroso ser inteligente, é digna de admiração a pessoa sábia; mas, quando se trata de salvar a pele, o melhor mesmo é a astúcia.

Compreensível. Mas não satisfatório. Nós só chegamos à verdadeira maturidade quando a astúcia reconhece a importância da inteligência e quando esta é um recurso para atingir a sabedoria. Um Brasil sábio deveria ser o nosso objetivo maior."