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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Faltou resiliência...

A psicanalista Diana Corso (E) tem uma boa explicação para a incapacidade de reação e o destempero emocional que tomou conta dos jogadores brasileiros no segundo tempo da partida contra a Holanda, pelas quartas-de-finais da Copa do Mundo da África do Sul, na última sexta-feira.

Atentem para o que a profissional escreveu, em sua coluna, hoje, no jornal Zero Hora:

"Utiliza-se o termo "resiliência" para designar a capacidade que algumas pessoas teriam para resistir às provações sem sucumbir ao desespero, sem destruírem-se internamente quando algo no exterior lhes abala a integridade. Resilientes seriam os que sobrevivem psiquicamente aos diversos tipos de catástrofes pessoais e sociais, como traumas, torturas, deportações, perdas, abusos e maus tratos. Apesar de marcados por essas experiências, elas não os impedem de retomar uma vida relativamente normal. O conceito original vem da Física, fala da capacidade de um material para resistir a choques, conservando sua forma original.


Também podemos falar de resiliência para golpes menores do destino, ou seja, a capacidade de levantar rápido depois de um tombo. Foi essa resiliência que não apresentamos na derrota para a Holanda. No início da partida tudo corria bem, dominávamos e tínhamos a vantagem do primeiro gol. Tomamos um gol e passamos de um estado de confiança, de domínio, para um de gelatina emocional, o destempero tomou conta. É inevitável perguntar por que a equipe adversária conseguiu manter-se animada mesmo enquanto perdia, enquanto nós parecíamos não estar suportando sequer um empate.

Coisa típica de brasileiro, dirão com justeza: aos que voltam para casa sem vitória não se dedica nenhum apoio, reconhecimento da trajetória, só vale o resultado e disso os jogadores sabiam. Mesmo assim, esperava-se deles, sempre tão incensados pela fama, que tivessem mais recursos para desempenhar seu trabalho.

A defesa de uma criança numa situação traumática passa pela capacidade de lançar mão do "capital psíquico adquirido", diz-nos Cyrulnik. Para esse autor não se trata de um dom com o qual alguns são agraciados e outros não. A força para superar as adversidades depende de uma trajetória de vida, do que se faz com isso. Treinar um grupo de homens eficientes, mas frágeis, não faz Esparta. É preciso que cada um deles tenha, e saiba usar, recursos interiores para se sobrepor às frustrações inevitáveis.

No futebol como na vida, não é incomum viver sem nuanças. Mesmo sem ser bipolares, oscilamos entre fantasias de estrondoso sucesso e o pânico do fracasso absoluto. A resiliência nos habilita a viver sem essa dicotomia, no intervalo, erguendo-se nos momentos difíceis a partir do acervo que carregamos conosco. Entregues aos extremos, muitos acabam transformando o pavor em realidade e paralisam. Para 2014, quem sabe um psicanalista na equipe técnica?"

Pode ser, Diana, que um psicanalista ajude. Mas, nessa Copa, faltou, mesmo, futebol!

Um comentário:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nívia Andres!
A oportuna crônica, com um viés de uma arguta assecla do Sigumund Freud, que a Senhora nos brindou no seu imperdível espaço cibernético, me fez lembrar da cena final da película "E o vento levou", onde a inesquecível personagem Scarllet O'hara, se dá conta que seu mundo desmoronou... Após algum tempo lamuriando levanta a cabeça e diz mais ou menos assim:
- "Bem, vou deixar para pensar nisto amanhã, porque amanhã é um novo dia..."
Também me lembrei do filme "As noites de Cabíria"!!!!!...
Na cena final, quando a doce e sonhadora Cabíria se sente aniquilada, porque foi enganada e roubada por um cafajeste que ela amava, ao som de uma música inesquecível tocada por um grupo de jovens, olha para a tela com os olhos marejados e dá um sorriso esperançoso!!!!...
Uma das cenas mais tocantes da fascinante Arte das Imagens em Movimento!!!!...
Calorosas saudações O'harianas, Cabirianas e esperançosas!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP