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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Clarice!

Estou lendo Clarice, uma biografia, do americano Benjamin Moser. Minha leitura ainda está no início, mas tem sido tão fascinante conhecer um pouco do universo de Clarice Lispector que sinto necessidade de compartilhar minhas primeiras impressões a respeito.

Fui apresentada à Clarice ainda na faculdade, por intermédio de "A Hora da Estrela", romance que narra as desventuras de Macabéa, moça sonhadora e ingênua, recém-chegada do Nordeste ao Rio de Janeiro, às voltas com valores e cultura diferentes. Macabéa leva uma vida simples e sem grandes emoções. Começa a namorar Olímpico de Jesus, que não vê nela chances de ascensão social de qualquer tipo. Assim sendo, abandona-a para ficar com Glória (colega de trabalho), cujo pai era açougueiro, o que sugeria ao ambicioso nordestino a possibilidade de melhora financeira.

Sentindo dores constantes, Macabéa vai ao médico e descobre que tem tuberculose, mas não conta a ninguém. Glória percebe a tristeza da colega e a aconselha a buscar consolo numa cartomante. Madame Carlota prevê um futuro feliz, que viria de um estrangeiro que ela conheceria assim que ela saísse daquela casa, homem louro com quem casaria. De certa forma, é o que acontece: ao sair da casa da cartomante, Macabéa é atropelada por um homem que dirigia um luxuoso Mercedes-Benz e acaba morrendo. Esta é a sua "hora da estrela", momento de libertação para alguém que, afinal, "vivia numa cidade toda feita contra ela".

Ao lermos Clarice somos irremediavelmente condenados a uma ligação sem limites com a autora - profunda, dolorida, questionadora, impressionante em sua internalidade. Como já mencionei, minha leitura está apenas iniciando, mas pressinto descobertas que abreviem um pouco a estranheza, posto que o fascínio, esse, certamente, restará intacto.

A respeito da obra de Moser, já na terceira edição brasileira, com mais de 20 mil exemplares vendidos, Yudith Rosenbaum assim escreveu:

"Viver não é vivível", escreve Clarice Lispector. Para Benjamin Moser, seu biógrafo americano, a frase soou como um desafio. Seria possível contar a história de alguém que lutou radicalmente para descobrir "o jeito de ser gente"?

Assim como Clarice não se rendeu à dificuldade de expressar um real sempre rebelde às suas palavras, Moser não desistiu de compreender a indevassável vida dessa ucraniana muito brasileira, nordestina e carioca, estrangeira em qualquer lugar. Ao investigar o mundo perdido das raízes russo-judaicas, Moser reconstituiu o périplo da família de refugiados da Ucrânia até sua chegada à Maceió de 1922, trazendo o retrato de uma época de miséria, fome e violência.

A revelação inédita de episódios brutais vividos pela família antes de chegar ao Brasil, bem como a missão falhada da escritora - "salvar a mãe" da invalidez e da morte - fundamentam a tese do livro. O autor vê na obra a incansável busca mística do judaísmo por uma origem enigmática, pela letra oculta de um Deus que a teria abandonado, busca a que ela jamais renunciou. Daí, talvez, sua famosa frase: "Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria".

Essa "vida não vivível" ganha um tratamento envolvente e não raro impactante, que enlaça, com fluência, a obra e o cotidiano da "dona de casa que escrevia" a episódios significativos da história do Brasil. Mesmo o leitor já familiarizado com a inquietante personalidade da escritora conhecerá uma Clarice ampliada em seus paradoxos. Para Moser ela escreveu "a maior autobiografia espiritual do século XX", o que revela o alcance desse estudo original. Ainda que o mistério, o mito e o enigma sigam resistindo aos fatos, este livro, pelo modo corajoso como aborda temas até hoje silenciados, representa um marco indispensável para quem quiser chegar mais perto da vertiginosa essência de Clarice".

Clarice, uma biografia
Autor: Benjamin Moser
Editora: Cosac Naify, 2009
647 págs.

*Retrato de Clarice Lispector, por Gabriela Brioschi

2 comentários:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nívia Andres!
Fiquei aniquilado quando li a tristíssima sina da personagem Macabéa, que desvelou, sem vaselina, a cruel realidade de patrícios desvalidos, que perdem sua identidade cultural numa cidade inóspita, que o consideram cidadãos de 5ªcategoria...
Já pensou o deleite inefável, se tivéssemos a prerrogativa de mantermos colóquios intermináveis com a nobilíssima Clarice Lispector?!...
Saudações Lispectorianas!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP

Pamella Medeiros disse...

Gosto dessa inquietação, essa forma de causar badalações sociais e todo esse mistério da Clarice.
"Eu nunca fui uma moça bem-comportada" como já dizia.


Parabéns pelo Blog.
Beijos