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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cantiga de ninar para Isabella...


...e para todas as crianças vítimas de violência, mortas, feridas e traumatizadas pela brutalidade de seus pais, parentes ou até mesmo desconhecidos, que concorreram para vitimá-las.

Há pouco mais de dois anos, a morte da menina Isabella Nardoni, de cinco anos, chocou o país e teve cobertura maciça da Imprensa. Não há quem não conheça a triste história da menininha que foi jogada do sexto andar do edifício onde moravam o pai, a madrasta e os dois filhos do casal. Desde o início das investigações policiais, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá foram apontados com autores do crime e a farta prova processual recolhida acabou por condená-los, no dia 26 de março último. Após cinco dias de reunião do tribunal do júri, o conselho de sentença condenou Alexandre Nardoni a 31 anos, um mês e 10 dias e Ana Carolina Jatobá, a 26 anos e oito meses de reclusão, em regime fechado, por homicídio doloso, triplamente qualificado.

A ampla repercussão que o caso recebeu nos meios de comunicação, com a exposição sistemática de todos os envolvidos tornou esse crime exemplar – e o desfecho do processo um libelo contra a violência diária a que são submetidas as crianças brasileiras e, certamente, a infância do mundo inteiro. Só que a maioria dos crimes não é noticiada pela Imprensa nem chega ao conhecimento do grande público. Como tantos outros delitos, tornou-se banal, cotidiana, corriqueira. Isso é inaceitável! No Brasil, as estatísticas sobre violência contra crianças são superficiais e os números não expressam a realidade das ocorrências, por isso sua divulgação é relevante por oportunizar a discussão do tema pela sociedade, através da mídia e, de outra parte, sensibilizar as instâncias governamentais a levantarem dados, criando políticas públicas consistentes de proteção à infância ultrajada.

Ao desejar escrever sobre violência contra crianças fui pesquisar a respeito e encontrei um site excelente, e recomendo o acesso e a leitura atenciosa: www.observatoriodainfancia.com.br, mantido pelo médico pediatra Dr. Lauro Monteiro. Esse profissional organiza os temas de maneira didática, sob a forma de perguntas e respostas.
Chamou-me a atenção o tópico Por que os pais maltratam os filhos? A resposta é esclarecedora e merece ser destacada. Diz o Dr. Lauro que, “ao longo dos séculos, e até há bem poucos anos, as crianças eram consideradas seres de menor importância.” A sociedade aceitava normalmente o abandono, a negligência, o sacrifício e a violência contra crianças, até mesmo o filicídio, declarado ou velado, que causava absurdas taxas de mortalidade infantil, na França do século XVIII, de mais de 25% das crianças nascidas vivas. Atualmente, em muitos países desenvolvidos, para cada mil crianças nascidas vivas, morrem menos de dez, antes de um ano de vida. A partir do final do século XIX a criança, até então considerada estorvo inútil, porque nada produzia, passou a ser valorizada, sob a ótica de que deveria sobreviver para ser tornar adulto produtivo. Ou seja, apesar de ainda não respeitada na sua individualidade, a criança começou a ser de alguma forma protegida há pouco mais de cem anos. Somente no início do século XX, com Freud, a criança passou a ser entendida no seu desenvolvimento psicológico. O castigo físico como método pedagógico, pregado até por filósofos como Santo Agostinho, continua até nossos dias. O “santo” justificava todas as ameaças e os castigos a partir da máxima: "Como retificamos a árvore nova com uma estaca que opõe sua força à força contrária da planta, a correção e a bondade humanas são apenas o resultado de uma oposição de forças, isto é, de uma violência". O pensamento agostiniano foi efetivo por muito tempo na prática pedagógica e, constantemente retomado até o fim do século XVII, manteve uma atmosfera de rigidez nas famílias e nas novas escolas.

E segue o Dr. Lauro Monteiro respondendo exemplarmente a pergunta: “Portanto, por que pais maltratam filhos? Eu diria: antes de tudo por hábito - culturalmente aceito há séculos. É comum pais afirmarem que apanharam de seus pais e são felizes. A eles dizemos que as coisas mudaram e que, hoje, devemos buscar outras formas de educar os filhos. Educá-los e estabelecer limites, com segurança, com autoridade, mas sem autoritarismo, com firmeza, mas com carinho e afeto. Nunca com castigo físico. A violência física contra crianças é sempre uma covardia. O maltrato, em qualquer forma, é sempre um abuso do poder do mais forte contra o mais fraco. Afinal, a criança é frágil, em desenvolvimento, e totalmente dependente física e afetivamente dos seus pais. Nesse sentido, acredito que a palmada se insira como uma forma de reconhecimento da insegurança, da fraqueza, da incompetência, dos pais para educar seus filhos, necessitando usar a força física. Não podemos esquecer também do modelo de violência que transmitimos e perpetuamos nas relações em família, quando estabelecemos limites com violência. Os filhos aprendem a solução de conflitos pela força - e tenderão a reproduzir esse modelo não só junto às suas famílias, mas em todas as relações interpessoais, na rua ou no trabalho. Inúmeros fatores ajudam a precipitar a violência de pais contra filhos: o alcoolismo e o uso de outras drogas, a miséria, o desemprego, a baixa auto-estima, problemas psicológicos e psiquiátricos. Nesse entendimento, achamos que pais que maltratam seus filhos devem ser orientados sempre e tratados e punidos, se necessário.”

Então, apesar da exposição demasiada na mídia e dos sofrimentos causados à sua mãe, à família, amigos e, por certo, a todas as pessoas de bem, acredito que a publicização exaustiva do crime que vitimou a menina Isabella contribuiu para abrir os olhos da sociedade sobre a barbárie constante a que são submetidas as nossas crianças, cuja proteção e carinho é de responsabilidade de todos.

Dorme, dorme, pequenina,
O teu sono de paz, flor-menina,
Papai e mamãe te protegem.
Luzinha suave avisa:
Tem amor velando teu sonho,
Permitindo, apenas, a brisa
Que desloca o voo de um anjinho risonho...

Um comentário:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nívia Andres, boa tarde!
Muito oportuna sua iniciativa em trazer à baila um tema tão cruciante, porque infelizmente diariamente milhares de seres viventes, que estão a tão pouco tempo neste maltratado e fascinante mundo que vivemos são vítimas de violência exacerbada, quase sempre originária daqueles que teriam o dever de protegê-los e prepará-los para a vida plena na sociedade. São tantas as barbaridades cometidas contra os pequeninos, que a mídia revela, que ficamos atarantados e questionando sempre: - o que leva um ser adulto a cometer um ato vil contra um ser indefeso? Será que também não temos uma parcela de culpa quando nos deparamos com suspeita de agressões contra as crianças e nos omitimos?
O que nos espera?
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP