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terça-feira, 9 de março de 2010

Martha, José e Clareece

Martha Medeiros vocês conhecem, é a escritora do festejado Divã (agora também filme) e cronista muito respeitada de Zero Hora. José Mindlin também devem conhecer - recentemente falecido, o empresário e bibliófilo, famoso por sua paixão pelo livros e incentivador da cultura -, possuía a maior coleção privada do Brasil com 45 mil volumes, colecionados desde os anos 30. Seu acervo foi doado em junho do ano passado à USP. Agora, de Clareece, pouquíssimas pessoas já ouviram falar. Sim, Clareece Precious Jones ou simplesmente Preciosa, a protagonista do livro que leva seu nome, adaptação de "Push", relato ficcionalizado das experiências da poetisa Sapphire que acaba de sair no Brasil, pela editora Record.

Mas o que tem a ver Martha, José e Clareece? Nada, ou tudo.


Martha, com sua sensibilidade, desejou homenagear a memória de José Mindlin ao comentar sobre suas impressões acerca do livro Preciosa, em sua coluna de Zero Hora, no dia 3 de março. Falando do sofrimento físico e mental que é impingido à protagonista, abusada sexualmente pelos pais - gorda, feia, pobre, negra e analfabeta - Martha lembra que, "pra cada um de nós foi designado um anjo. Cabe a nós reconhecê-lo e pedir que ele nos ajude. O anjo de muitos brasileiros foi José Mindlin, um devoto dos livros e incentivador da cultura...O anjo de Preciosa foi uma professora sem medo de desafios. O livro não acaba com Preciosa ganhando o Prêmio Nobel de Literatura, mas mostra a porta, a única porta, pela qual todos devem passar caso queiram ser alguém."

E adverte a cronista: "Tem um monte de gente preciosa por aí que a gente não enxerga, que não recebe de nós um incentivo. O prólogo do livro traz uma frase que diz: Toda folha de grama tem seu anjo que se curva sobre ela e sussurra: "Cresce, cresce." Tivemos a sorte de nascer em famílias que nos ofereceram uma certa estrutura, que nos possibilitou estudar e crescer - já nascemos arbustos. Poderíamos retribuir sendo, para as folhas de grama, o anjo que sussurra."

Adaptado para o cinema, "Preciosa" é chocante - uma adolescente de 16 anos, negra, obesa, analfabeta, em pleno Harlem nova-iorquino dos anos 80, está grávida pela segunda vez do pai e é vítima de abusos constantes da mãe. A produção que garantiu seis indicações ao Oscar, no entanto, é apenas um agravante de uma história que tem como ingrediente principal a esperança.

"Preciosa" Sapphire trabalhou como assistente social e educadora nos bairros pobres de Nova York. Usando a gramática e ortografia de quem mal sabe escrever (característica preservada no livro, mas que se perdeu nas legendas do filme), a autora mescla poemas, lembranças, fantasias e cenas de estupro, além de temas contemporâneos como gravidez na adolescência, Aids e um sistema educacional falido.

A estreante Gabourey Sidibe interpreta Clareece Precious Jones com uma entrega impressionante. Escolhida a poucas semanas do início das filmagens, depois de testes com mais de 500 garotas, Gabby faz o personagem encher a tela com toda a complexidade que ele exige. Pulando de série em série sem nem saber ler e escrever, Preciosa escolhe o fundo da sala de aula, completamente calada. Aproveita o tempo fantasiar, viajando por um mundo em que é branca, magra, loira de cabelos lisos. Ou então, é uma estrela passeando por festas e eventos com o namorado clarinho.

Esse refúgio é o lugar para onde ela vai quando é hostilizada pelos colegas ou ao ser vítima dos abusos da mãe, vivida por Mo'Nique. Estrela de seu próprio talk-show no canal americano BET (Black Entertainment Television), Mo'Nique se inspirou no irmão que a abusava na infância para dar vida a um monstro que se divide entre explorar a filha com trabalhos domésticos, abusar dela sexualmente e acusá-la de ter "roubado" seu marido drogado. Um trabalho digno do Oscar de atriz coadjuvante, que recebeu no domingo passado.

Quando a diretora do colégio de Preciosa descobre que ela está grávida de novo, faz com que ela seja transferida para uma escola alternativa, de jovens adultos problemáticos. Lá, uma nova história a aguarda, graças ao estímulo da professora Blue Rain (homossexual como Daniels e Sapphire). Ainda aparecem pelo caminho a assistente social interpretada por Mariah Carey – em participação excelente, sem qualquer glamour (até de bigodinho, acreditem!) – e o enfermeiro vivido por Lenny Kravitz.


Não dá pra não assistir. Comovente.

Fontes: ZH e O Globo

Um comentário:

Graça Pereira disse...

Parabens pelo seu Aniversário, 11 de Março! Que seja muito feliz. Beijo.
Graça