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sexta-feira, 12 de março de 2010

Crônica de uma morte anunciada

Marcelo Rocha, professor da Unipampa de São Borja, publica hoje, na página de Artigos da Zero Hora, pág. 15, um texto que merece reflexão, pela lucidez com que expõe seu ponto de vista. NegritoNão podemos ficar alheios ao que acontece a nossa volta. Chama-se Crônica de uma morte anunciada. Publico-o aqui, por entendê-lo relevante e concordar com o seu posicionamento:

"Contemplar um crime em silêncio é cometê-lo. A frase, de José Martí, um dos heróis da luta pela independência cubana contra o domínio espanhol, poderia muito bem ilustrar a batalha de um conterrâneo seu chamado Guillermo Fariñas. Combatente em Angola, na década de 80, Fariñas recebeu medalhas por sua bravura, mas desiludiu-se com a corrupção que observou em hospitais em Havana. Suas denúncias o levaram à prisão. Agora o ex-militante comunista persiste numa greve de fome pela libertação de presos políticos dissidentes com problemas de saúde.

São tristes as histórias dos dissidentes cubanos e poucas chegam até nós. O escritor Reinaldo Arenas, por exemplo, sofreu com o regime autoritário. Ao terminar seu livro, Antes que Anoiteça, em 1990, Arenas suicidou-se, em Nova York, não sem antes registrar na obra, de cunho autobiográfico, as perseguições das quais foi vítima na ilha. Arenas relatou que fora submetido a um processo por "delito erótico" que se agravara com a acusação de ser contrário à revolução. Condenado, o escritor ficou detido até escrever uma retratação ao governo, renegando sua condição de homossexual e comprometendo-se com a escrita de novelas otimistas.

Recentemente, Pedro Juan Gutiérrez e Yoani Sánchez tornaram-se, também, personagens emblemáticos em Cuba. Gutiérrez é um escritor bastante conhecido fora da ilha, um fantasma em seu próprio país. Descrevendo uma realidade de escombros e decadência, as personagens de Gutiérrez são miseráveis e entregam-se ao sexo como válvula de escape numa sociedade de privações. Ignorado pelo sistema literário de seu país, Gutiérrez diz que a literatura que lhe interessa é a do conflito e antagonismo, distante, portanto, do falso consenso que os regimes discricionários impõem.

A blgueira Yoani Sánchez, eleita pela Time como uma das mulheres mais influentes do mundo, escreve, mais para internautas de fora de Cuba, que já acreditou integrar um sistema social superior, mas que a autocracia derrubou o ideal de um projeto coletivo justo e igualitário. Além disso, Sánchez relata os extremos pelos quais o país atravessou: o de um presidente de discursos intermináveis a outro que não dirige a palavra aos cubanos.

Sánchez tem razão ao exigir explicações. O silêncio é uma forma de covardia. Pior que o silêncio são as declarações desastradas. O presidente brasileiro salientou que a greve de fome nãao deveria ser pretexto para exigir os direitos humanos. Lula ainda acrescentou "imagina se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entarem em greve de fome e pedirem liberdade".

Guillermo Fariñas não é bandido. Apenas luta pelos direitos daqueles que estão presos e em estado debilitado de saúde. A esposa de Fariñas disse a ZH que está à espera de que atendam ao pedido de seu marido. Nós também esperamos. E sabemos que a história poderá cobrar muito caro daqueles que, diante do sofrimento humano por justiça, se omitiram, silenciaram ou defenderam o triunfo do autoritarismo sobre o cidadão. Mas se a história pular esta página, a consciência, certamente, será implacável com os que se esqueceram da coerência, de suas raízes e de seu passado."

Um comentário:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nívia Andres!
Ao ler esta inquietante crônica mais uma vez a cruciante indagação veio à baila: O que nos espera?
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP