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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Saravá, Excelência! - Um senhor embaixador, sob o signo da paixão

Lendo o Segundo Caderno de ZH de sábado, 20, deparei-me com um artigo de Luiz Antônio Araujo sobre Vinicius de Moraes, intitulado Saravá, Excelência, comentando que o poeta (que também era diplomata, servidor do Ministério das Relações Exteriores) foi promovido a embaixador pela Câmara dos Deputados, 30 anos depois de sua morte.

Pois bem, acontece que Vinicius de Moraes foi cassado pela ditadura militar porque fez questão de colocar a condição de servidor de carreira do Ministério das Relações Exteriores a par com a de poeta - por isso foi expulso sumariamente do Itamaraty em 1969, com base no AI-5, mas não resignou-se com essa condição, até o final da vida.

Agora, 30 anos após a sua morte, a Câmara dos Deputados aprovou a promoção póstuma de Vinicius a ministro de primeira classe, equivalente a embaixador, auge da carreira.

Vejam só, Vinicius e outros 43 servidores foram vítimas da maior caça às bruxas da diplomacia brasileira, sob pretextos que iam desde simpatias esquerdistas a homossexualismo, boemia e alcoolismo (o poeta foi enquadrado nos dois últimos pecados!). Interessante notar que os registros dos postos em que serviu - Los Angeles, Paris e Roma - não revelam nada que o desabone.

A promoção póstuma que ainda deve passar pela aprovação do Senado foi uma das raras iniciativas a unir governistas e oposicionistas na Câmara, à exceção do ultrarradical Jair Bolsonaro. Bom lembrar que a homenagem acontece justamente com o reavivamento do interesse pela obra do poeta, reeditada pela Companhia das Letras. Em julho de 2009 saiu Vinicius Menino, edição ilustrada de suas crônicas sobre infância e juventude, e em novembro um concurso premiou estudantes do Ensino Médio que escreveram sobre sua obra. Sua canção Sei lá é tema de abertura da novela Viver a Vida, da Globo e suas canções serão novamente gravadas pelo eterno parceiro Toquinho, em dupla com Paulo Ricardo, no CD Viva Vinicius. Até o presidente Obama referiu-se a Orfeu Negro, filme de Marcel Camus, baseado na peça de Vinicius, Orfeu do Carnaval, dizendo que sua mãe comentou que esse era o primeiro filme estrangeiro que ela viu na vida.

Vinicius merece. Merece tudo. E muito mais...porque não teve medo de viver.

Como dizia o poeta

Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Nao há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão.

Um comentário:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nivia Andres!
Antes tarde do que nunca! Sua memória será cultuada pelas gerações vindouras...
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP