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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui


Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

Quando soube do terremoto no Haiti, ontem, lembrei-me, imediatamente, da música de Caetano Veloso e Gilberto Gil e o refrão se repetiu, martelou, constante, por toda a noite e continua reverberando, como um eco, quando escuto as notícias e vejo as imagens terríveis da destruição total de um país situado numa das regiões mais belas e, ao mesmo tempo, mais perigosas do mundo - acossada pelas forças da natureza, impoderáveis, e pelo ódio humano, devorador.

O ódio, o preconceito, a escravidão e a ignorância destruíram esse pequeno país, que ocupa o oeste da ilha de Hispaniola (a República Dominicana situa-se na porção oriental da ilha), no mar do Caribe - o mais pobre do continente americano, que apresenta uma das mais elevadas densidades populacionais do mundo. Sucessivas lutas pelo poder levaram à desagregação completa do sistema político, dominado pela corrupção. Ataualmente, o Conselho de Segurança da ONU mantém, no Haiti, a Operação Minustah (United Nations Stabilization Mission Haiti), para garantir a segurança e as condições estáveis de modo a restabelecer um processo político e constitucional no país. O comando das tropas foi confiado ao Brasil.

A Operação Minustah visa ajudar o governo transitório, liderado por André Préval, na reforma de sua polícia nacional e em programas de desarmamento de grupos paramilitares e bandidos. O Brasil enviou cerca de 1.200 soldados para o Haiti e assumiu o comando das tropas das ONU (cerca de 8.360 soldados de 40 países). A saída das tropas deveria ter acontecido, inicialmente, em julho de 2007, mas o Conselho de Segurança da ONU aprovou sucessivas ampliações do mandato da missão brasileira. Em outubro de 2009 o mandato foi prorrogado até outubro de 2010. Nessa mesma reunião, o Conselho destacou os avanços alcançados pela missão, mas reforçou a necessidade de fortalecer a capacidade da polícia haitiana e de apoiar o processo político para a realização de eleições em 2010.

Agora, com a situação desesperadora em que se encontra o Haiti, devastado por um terremoto de 7 graus na escala Richter, toda a ajuda internacional é relevante. Porto Príncipe, a capital, está arrasada, todas as edificações desabaram - são incontáveis os mortos (inclusive militares brasileiros e a nossa querida Zilda Arns, médica e coordenadora da Pastoral da Criança) e feridos. Não há energia, água, comida e a comunicação é difícil.

Pense no Haiti, reze pelo Haiti. Não. O Haiti não é aqui. Mas o Haiti está aqui, na cabeça dos que ainda sabem exercitar a solidariedade humana.

Um comentário:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nívia Andres!
Quando soube da desgraça que se abateu sobre o Haiti lembrei-me da inquietante película "Queimada"... É assustador constatar que somos completamente impotentes diante dos cataclismas advindos da movimentação das placas tectônicas.
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP