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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Lente aberta


Matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo, assinada por Phillip Kennicot, discute, muito apropriadamente, a crueza das imagens enviadas do Haiti, pós-terromoto, pela mídia:

As imagens que chegam do Haiti são mais fortes que as de desastres naturais recentes e das guerras em curso no mundo. Não está claro se isso reflete a magnitude e proximidade do desastre ou alguma mudança na disposição dos meios de comunicação de mostrar, com exatidão, o horror da devastação no país.

Ou será o Haiti uma exceção? Haverá algo na condição essencial do país e de seu povo que autorize a nova licença da mídia? As convenções usuais de mais sugerir que exibir traumas parece ter se esvaziado.

Corpos cobertos de poeira e argamassa, mortos empilhados nas ruas sem lençóis para ocultá-los, essas são violações do código não escrito de que a morte só pode ser vista, na etiqueta estabelecida da mídia dominante, por analogia ou metáfora.

Na sexta-feira, o Washington Post exibiu a foto de uma garota com o torso esmagado sob o peso do concreto. O New York Times publicou a de um homem morto numa maca improvisada, coberto pela poeira branca que faz os corpos - vivos ou mortos - parecerem esculturas.

Imagens de guerra, especialmente as travadas pelos EUA na última década, são politizadas. A representação realista da morte é explosiva, e é costumeiro controlá-la, temendo inflamar paixões a favor ou contra o conflito.

Nos últimos anos - e em contraste com milênios de história, quando ferimentos e sangue eram exibidos orgulhosamente pelos guerreiros - a privacidade do soldado foi considerada fundamental. Nos EUA, imagens de sofrimento em guerras são referenciais, mas raras vezes são estampadas em toda a sua cueza.

O medo de violar a privacidade da vítima não existe no Haiti. Após anos sugerindo horror, os parâmetros caíram: a câmera é uma janela para a miséria, e jornalistas têm a permissão de mostrar o pior e dizer com a urgência bruta: vejam.

O efeito entorpecedor da última década, que também incluiu imagens devastadoras de New Orleans e Sichuan, pode ter baixado o limiar do que é aceitável mostrar.

A disponibilidade online de fotos e vídeos mais realistas pode ter mudado a equação. Também parece haver uma qualidade auto dilacerante, como se a mídia estivesse indiciando tanto a si mesma quanto a indiferença do Ocidente pela nação mais pobre do Hemisfério.

A disposição de ver o desastre por completo reflete a condição do Haiti. Ele foi deixado de lado. Houve, é claro, anos de engajamento e desengajamento - quando os EUA e países do Hemisfério interferiram (em geral, desastrosamente) na política -, resoluções da ONU, forças de paz e esforços.

Mas com furacões, um sistema político fracassado, corrupção, golpes e tumultos, o Haiti se tornou a definição de Estado falido. Curto e grosso: veio o parecer que o povo do Haiti não tinha nenhum status. Se acreditarem nisso, então, é impossível violar sua privacidade.

A câmera está gravando algo que afetará tudo o que está ligado ao futuro desse conturbado país. Ela está perguntando se aquelas são pessoas como nós. Está perguntando se nós acreditamos que elas são humanas.

Enquanto fui responsável pela redação de um jornal, jamais permiti que fossem publicadas imagens de pessoas mortas ou gravemente feridas por violência - em assalto, acidentes ou outros acontecidos, para preservar a sua dignidade enquanto seres humanos e evitar que suas famílias sofressem ainda mais com a exposição, além, é óbvio, de evitar qualquer ação judicial contra o veículo. É certo que a decisão sempre causou discussão na empresa, com a direção e repórteres. Mas nunca abri mão de minhas convicções.

No caso do Haiti, acredito que o horror a céu aberto, o caos e a absoluta falta de perspectivas do povo têm aberto as lentes da mídia, para mostrar como é o inferno, para os que não crêem que possa existir algo tão devastador. Talvez a abertura demasiada da lente funcione como uma janela para a solidariedade.

Um comentário:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nivia Andres!
Seu relato circunstanciado me fez refletir a que ponto chegou a banalização da morte. Também me sinto constrangido sobremaneira com imagens chocantes, que desvelam as desgraças que aniquilaram nossos semelhantes.
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP