Acompanhando Interface Ativa!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Cidadania ativa - o novo Código de Ética Médica

Lendo artigo de Fernando Weber Matos, secretário-geral do Cremers-RS, na seção de artigos de ZH de sábado, 16 de janeiro, apreciei a informação de que o novo Código de Ética Médica, aprovado em setembro de 2009, passa a vigorar agora, em março.

Diz o articulista que o documento traz uma visão contemporânea da ciência médica e da tecnologia, tratando das relações do médico com colegas e pacientes. E traz novidades.


Chamou-me particularmente a atenção a afirmação de que o novo Código de Ética Médica altera a postura tradicional do médico, que passa a ser o profissional que dialoga, compreende e aceita, de comum acordo, as decisões do paciente - uma solução dividida e consensual, na qual os pacientes são informados, questionam as decisões e participam na escolha do diagnóstico e do tratamento.

Assevera o autor do texto que o grande responsável pela transformação é o acesso cada vez maior do cidadão à informação, facilmente obtida através da internet, já que é comum a existência de sites operados por pessoas portadoras de uma mesma doença que trocam informações sobre diagnósticos, tratamentos e novos conceitos - são, então, geradores e divulgadores de informações. Assim, a partir desse novo entendimento, as decisões serão conjuntas, perdendo espaço as posições unilaterais, porém o médico continuará com a responsabilidade de apresentar a melhor solução, baseada na verdade científica.

Ainda comenta o articulista que essa reforma vai fornecer equilíbrio no exercício da autonomia do paciente e do médico, assegurando o exercício da cidadania nas decisões e confirmando o compromisso ético do médico brasileiro com a população e as transformações sociais. Enfim, o novo Código de Ética Médica pretende assegurar maior autonomia e poder ao paciente no manejo de sua doença, através de ação conjunta e harmoniosa com o seu médico.

Pois bem, vamos por partes. Acredito que é benéfica a mudança introduzida no Código de Ética Médica, só que totalmente impraticável em curto prazo - 90% da população não tem informação nem conhecimento que permita discussão sobre diagnósticos e tratamento e nem os médicos estão interessados em discuti-los. Já ouvi um médico muito famoso em minha cidade dizer, alto e bom som, que paciente não tem querer!

Em segundo lugar, para que se torne paritária a relação médico-paciente, deveria ser concretizada a mudança da terminologia paciente para cliente, elevando o seu status, já que o cidadão está solicitando um serviço ao profissional, não interessando se é ele quem paga ou o SUS. Para exercitar ativamente a sua cidadania o cidadão enfermo tem que ser considerado cliente e não paciente.

Nada contra os médicos. Muito pelo contrário. Mas a nova relação proposta vai exigir tempo, vontade, esforço e reprogramação mental para a aceitação do modelo que se quer implantar.

Um comentário:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nívia Andres!
Irretocáveis suas sensatas ponderações a respeito do novo Código de Ética Médica!
Falando neste melindroso tema creio que a Senhora já leu o livro "O médico doente", de autoria do notável Dr Drauzio Varella, publicado pela Companhia das Letras, em 2007. Além deste, ele escreveu também "Por um fio", que desvela com seu viés arguto e especialista a relação com seus pacientes e também relata como se sentiu quando foi paciente.
A seguir transcrevo a resenha do livro, tendo como fonte do endereço cibernético da Companhia das Letras:

O MÉDICO DOENTE
Drauzio Varella
R$ 32,00
Médico cancerologista há quarenta anos, Drauzio Varella convive com a morte todos os dias. A experiência ao lado de pacientes terminais está contada no livro Por um fio, uma série de relatos em que o autor de Estação Carandiru mostra como a proximidade da morte afeta o doente, seus familiares e até os profissionais responsáveis pelo tratamento.
A ligação estreita com o tema, no entanto, não o preparou totalmente para viver a situação inversa, o outro lado do balcão. Em 2004, ao voltar de uma viagem à floresta amazônica - local que ele já visitara mais de cinqüenta vezes por conta do trabalho de pesquisa que desenvolve no rio Negro -, Drauzio sentiu-se mal, teve febre e, após alguns dias de teimosia obstinada, aceitou interromper o atendimento no consultório e repousar. Pouco depois, foi internado.
Conforme aumentavam a febre e o mal-estar, aumentavam também as incertezas quanto ao diagnóstico. Acompanhando de perto a angústia dos colegas, o doente viu-se na desconfortável posição de entender melhor do que um paciente comum a gravidade de seu caso. Nem mesmo a descoberta de que se tratava de uma febre amarela trouxe alento: a enfermidade não tem cura, é preciso deixá-la seguir seu curso e torcer para que o corpo resista e se recupere.
Enfraquecido, com a mente embaralhada pela doença e pela morfina, e vendo a piora de sua situação no semblante preocupado dos médicos, Varella passou a considerar seriamente a possibilidade de que estava com os dias contados. Neste relato, ele narra a experiência com olhar clínico, cirúrgico. Desmontando lugares-comuns e mitos sobre o que sente quem chega à beira da morte, Drauzio Varella extrai do ocorrido não um entendimento superior ou gosto renovado pela vida. Da cama de hospital ele volta à infância, aos caminhos que o levaram à profissão, e transforma o episódio em mais um capítulo do longo exercício da prática da medicina.

Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP