Acompanhando Interface Ativa!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Avatar


Avatar é uma palavra estranha, recentemente incorporada aos dicionários. Então, fui procurar uma boa explicação no Aulete Digital. Ei-la:

1. Rel. Descida de um deus à Terra, onde se manifesta materializado (esp. no hinduísmo, em que Krishna e Rana são avatares do deus Vixnu);

2. Processo e resultado de transformação, metamorfose, transfiguração;

3. P. ext Inf. Personificação imaginária de si mesmo que internauta usa como sua representação em ambientes virtuais, internet etc.

[F.: Do sânsc. avatara, pelo fr. avatar, 'descida do céu à terra'.]

Avatar também é o título do novo filme-sensação do diretor James Cameron que, desde o seu lançamento mundial, em dezembro, provoca filas intermináveis nos cinemas de todo o mundo. Para descobrir porquê, esperei as filas diminuírem e fui assisti-lo.

Encantador. Inspirador. Envolvente. Emocionante. A partir de um roteiro que esperou quase quinze anos que houvesse tecnologia suficiente para concretizar a filmagem, o diretor conseguiu criar algo novo para os nossos sentidos a partir de uma mensagem muito conhecida e largamente utilizada - estamos destruindo a Terra, nossa morada e somos incapazes de entender os contínuos avisos que a natureza nos manda para frear nossos instintos assassinos que vão tornando impossível a vida no planeta.

No filme isso já aconteceu e os humanos, agora, tratam de destruir outro planeta (a lua Pandora) e seus habitantes (os gigantes esguios, azuis e luminiscentes Na'vi), para obter um mineral raro e valiosíssimo, o unobtanium, já que no ano de 2154 a Terra está arrasada e não possui mais fontes de energia.

Pois a violência e os engenhos de guerra humanos não são suficientes para destruir a harmonia e a força gerada entre os Na'vi e a Natureza, pródiga, fecunda, fervilhante de cores e formas ao mesmo tempo arrebatadoras e aterrorizantes, fruto de um equilíbrio ímpar, baseado no respeito, no cuidado e no zelo para com a VIDA, em todas as suas manifestações.

Um dos mais belos momentos do filme revela a conexão estreita entre os seres, baseada em respeito e amor, quando a jovem princesa Neytiri diz ao heroi Jack Sully - Eu vejo você!, que quer dizer eu o sinto, eu o percebo, eu o respeito, eu o amo!


E é dessa conexão que precisamos nós - de visão do outro, de respeito, de percepção, de amor, para revertermos o processo de destruição acelerada em que nos encontramos.

Sobre Avatar, separei uma bela crônica, de uma pessoa também muito bela, pelo conhecimento e sensibilidade - a psicanalista Diana Corso:

Desequilibrados*

Sigourney Weaver voltou ao espaço, agora como uma cientista interplanetária, mas desta vez o alien somos nós. O que já era sugerido nas experiências anteriores do diretor James Cameron agora é explícito: os homens, com sua voracidade capitalista, perderam totalmente seus resguardos morais e, principalmente, o equilíbrio. Avatar, o filme, com ou sem 3D, é uma experiência estética que não desaponta a quem gosta de mundos mágicos.

O herói do filme é o gêmeo do que originalmente treinava para conduzir um avatar,mas morreu. Ao contrário do irmão cientista, ele é um soldado, mas está paralítico. No corpo de seu avatar, pode executar as tarefas que fazem parte da formação de um guerreiro Na'vi, numa mobilidade que contrasta com suas pernas inúteis da vida real: saltar entre as árvores, caçar, domar e voar em dragões alados. Como ele, estamos paralisados pela tamanha confusão que fizemos, criando cidades monstruosamente artificiais, sofrendo castigos climáticos crescentes, enquanto nossa única atitude não passa de separar um pouco de lixo. Desse jeito, parece melhor mesmo abandonar esta carcaça inútil que é nossa civilização e começar tudo de novo, como um povo caçador-coletor, capaz de uma cultura coletiva não competitiva.

O novo campeão de bilheteria e de tecnologia do entretenimento é um grito ecológico. Nossos sonhos coletivos das telas já não se bastam com máquinas, eles começam a ser mais orgânicos, amazônicos. Isso pode muito bem apontar uma guinada: no futuro deixaremos de ser colonizadores ensandecidos de nosso planeta e buscaremos algum equilíbrio ente nós e o meio ambiente. Ou numa leitura mais pessimista: a possibilidade de uma relação não selvagem entre os humanos e com seu mundo mudou-se definitivamente para Pandora, um planeta onírico. Na vida real, restaremos aqui, paralíticos, beligerantes e obtusos.

Para viabilizar a extração de um minério precioso para os terráqueos no planeta Pandora, organizou-se uma pesquisa na qual alguns humanos conectavam-se a seres similares ao povo local, controlados mentalmente: os avatares. Necessitavam conhecer melhor aquela civilização que resisitia a qualquer negociação: não havia nada que pudesse ser ofertado a eles que estivessem dispostos a trocar por um pedaço da sua terra. Os cientistas descobriram que aqueles seres azuis, com rabo e feições felinas, têm tesouros que sintetizam nossos sonhos românticos e que supomos que perdemos: a conexão com o meio ambiente e o grande coração do bom selvagem.


*Publicada no Segundo Caderno de Zero Hora, no dia 6 de janeiro de 2010

3 comentários:

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nívia Andres!
Ainda não tive a prerrogativa de apreciar esta película, mas agora depois da sua circunstanciada resenha, bem como da crônica do notável cientista Marcelo Gleiser, publicada no periódico Folha de São Paulo, ontem, irei com celeridade assistir este imperdível filme! Será que o arguto e erudito Vulmar Leite já assistiu?
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP

Anônimo disse...

Uma belíssima resenha do filme AVATAR. Obrigado pelo estímulo, agora irei ver o filme.

Abraços,

Ethiel Oliveira

Márcio Brasil disse...

Oi, Nívia. Gostei da tua opinião sobre o filme. E fico realmente feliz que uma obra Sci-Fi esteja despertando tanta atenção mundial. Isso é realmente muito bom. Gosto da mensagem pacifista que o filme apresenta. Fico feliz que essa obra esteja tocando a tantos de tal maneira. Viva o cinema.