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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2011 vem aí!

FELIZ ANO NOVO!

"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, o que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente."
Carlos Drummond de Andrade

Cena 4


ESTRELA DE UM NOVO DIA


Caros e caras, queridos e queridas, voltei! Aqui, nas Águas Claras em que habito, tudo sereno, tranquilo e transparente! Vocês já sabem, quando há um fato relevante eu apareço para conversar um pouquinho e o último dia do ano é uma data que não pode passar em branco no calendário humano. Mesmo que os humanos passem o ano inteiro desfazendo sua humana condição de seres criados para o bem. Acho que é para isso que os dias existem e se sucedem – para que a flor da vida desabroche uma vez mais e se espalhe, com o vento, o perfume que nos faz renascer e nos reconhecermos como iguais que somos, apesar de todas as diferenças, desinteligências e distâncias. Na verdade, somos um e somos o todo, uma grande estrela brilhante que se divide constantemente e gera milhões de pequenos cristais que cintilam intensamente, no céu da existência. Não podemos viver separados.

O último dia do ano tem uma virtude especial que nos convida à reflexão – não sobre o que de bom fizemos, que isso é praxe, é da obrigação. Mas, sim, sobre o que deixamos de fazer, por preguiça, por desídia, por acomodação, por arrogância. A quantas pessoas magoamos com nossa indiferença, com a nossa ausência, com a nossa falta de tato e de sensibilidade? Quantos amigos deixamos de ouvir porque não encontramos tempo nem ocasião para consolá-los em suas aflições cotidianas? Quantas vezes deixamos de abraçar e acarinhar nossos pais, filhos, irmãos e companheiros porque o ritmo alucinante de nossa jornada não nos permitiu pararmos um instante que proporcionasse aconchego e intimidade, entendimento e partilha?

Eis aí, caros e caras, queridos e queridas, a oportunidade! Uns minutos de meditação, hoje, podem ser preciosos para que amanhã, na aurora do ano novo, numa venturosa e encantadora manhã, fresca, clara e luzidia, nos permitamos um novo recomeço... Somos abençoados por contarmos com mais um dia, com mais um ano, para preenchermos a nossa vida e a dos que nos cercam com o que realmente importa – amor, solidariedade, esperança, trabalho, justiça, paz e harmonia.

Então, estes são os meus presentes de Ano Novo para vocês – amor, solidariedade, esperança, trabalho, justiça, paz e harmonia. São presentes do meu coração de estrela, Strellitziah. Strellitziah K. Dent. Faz algum tempo, um certo compositor fez uma canção para mim. Na verdade, apossei-me dela, porque é linda (ele nem sabe disso...). Hoje, eu a dedico a todos vocês, como um mimo, ao raiar do Ano Novo. É Estrela, de Gilberto Gil:

Há de surgir
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê sorrir
Há de apagar
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê chorar

O contrário também
Bem que pode acontecer
De uma estrela brilhar
Quando a lágrima cair
Ou então
De uma estrela cadente se jogar
Só pra ver
A flor do seu sorriso se abrir

Hum!
Deus fará
Absurdos
Contanto que a vida
Seja assim
Sim
Um altar
Onde a gente celebre
Tudo o que Ele consentir




quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Cena 3


MARCAS DO QUE SE FOI


O sol ainda nem acabara de se espreguiçar no horizonte enquanto tênues pingos de chuva construíam uma espécie de teia multiespectral no espaço. Espalhados por um vento leve, bordavam o céu com minúsculos diamantes, tornando o crepúsculo matutino ainda mais belo ao se associarem aos tímidos raios de luz que enfeitavam a aurora. Não muito longe, um galo seresteiro pressagiava que o calor se anteciparia à água que vacilava em se lançar aos borbotões, espremida entre nuvens e ar. O canto insistente ressuscitava uma época rediviva na ave canora, mantida cativa em algum apartamento de interioranos que a trouxeram para a cidade, com o intuito de amenizar a saudade de um passado que, possivelmente, não almejavam esquecer. Aos poucos, abriram-se as cortinas do dia e a chuva ensaiada, em fuga, dera lugar a uma ensolarada manhã.

Duas janelas do edifício imponente, que sombreava a praça, escancararam-se como se movidas pelas mesmas teclas de um controle remoto manuseado pelo tempo. Que estranha mágica esse terrível controlador da vida e da morte lhes pregara para fazê-los compartilhar do mesmo espaço e não se identificarem? O homem, viúvo recente e sem filhos. A mulher? Já nem mais sabia que nome dar a sua condição social. Estado de direito, estado de fato, estado civil? Nem solteira, nem casada. Uma coisa! Em que tinha certeza era na vida, na amizade, na capacidade meio tardia de se reinventar e se reconstruir.

Acreditava ainda no amor com a mesma intensidade ingênua da adolescência; nos homens, não. Desgastara muitos anos de vida, dedicando-a a um estranho que aprisionara no pensamento, nunca reencontrado, mas levando-a a aceitar, rendida, outro ser que a fizera deixar de querer uma vida diferente e melhor. Teria sido a mesmice, a aceitação do egoísmo do companheiro ou o medo, pacientemente injetado pela mãe, que a tornara submissa e temerosa em abrir as próprias asas e lançar-se à vida em busca de novos ventos? Somente agora se dava conta da passagem implacável dos anos. O espelho, no entanto, ainda revelava uma linda mulher. Rosto expressivo, olhos de um incrível azul celeste, sorriso de menina, cabelos bem cuidados, corpo esbelto, pernas bem torneadas, reluzentes como seda. Tudo nos devidos lugares. Uma leve insinuação de celulite estrategicamente escondida sob as partes internas das coxas. Nada que não pudesse escamotear de olhar mais desatento.

A música suave esbaldava-se pela janela aberta, ansiando por novos ares e sensíveis audiências. As flores, recostadas nos jardins da praça, ainda bocejantes, abriam-se tímidas, despertadas pelos primeiros raios do sol que já anunciava a permanência do Verão. Em seu colorido exuberante, rosas, jasmins, amores-perfeitos e até as florezinhas silvestres pareciam sorrir aquecidas pelos incipientes reflexos luminosos. Ao mesmo tempo em que ensaiavam uma estranha dança, coreografada pela suave brisa matutina, insensíveis ao cacarejar do galo, descoordenadas, seguiam a sutil musicalidade oriunda do apartamento em frente. Do 312, subitamente, passou-se a ouvir a mesma música da morada oposta, Love me tender, orquestrada. As notas suaves da canção escapuliram pelas frestas da porta e se acomodaram sem pedir licença, nas lembranças dos vizinhos moradores.

Por inexplicável coincidência, ambos ficaram quietos e a ainda bela mulher vivificou aquele baile de fim de ano, iniciado com o tradicional New York New York. O cavalheiro, destemido, moveu-se na cadeira, elevou o tronco, ciente de sua masculinidade. Um deus apolíneo. O olhar penetrante se volveu para a loirinha desconhecida, sentada em frente à orquestra. Ao iniciar Love me tender, endireitou os ombros, levantou-se como um touro bravo, instigado pelo aparente desinteresse da moça e se aproximou arrogantemente. Convidou-a para dançar. Os dois, embalados pelo som romântico da melodia, pareciam navegar por mares revoltos ou flutuar sobre nuvens perdidas no espaço. Amor à primeira vista ou canção impulsionadora do romantismo? Não sabiam... Naquele momento, entre os dois, só havia o desejo e o amor. Desejo de não mais se separarem, amor pelo sentimento se espargindo deles.

Súbito, o mesmo destino que une e separa pessoas, lançou sobre os dois bailarinos o seu catastrófico manto. Do emaranhado de fios, displicentemente ligados para gerarem a energia sonora do baile, faíscas crescentes tomaram conta do palco. Engalfinharam-se no etéreo tecido das cortinas e, alimentadas pela decoração feita em papel crepom, cresceram em labaredas irrequietas que se alastraram para as belas luminárias do salão. Aos poucos, a magia tétrica do fogo foi tomando conta de tudo. Correria geral. A pequena cidade, em pânico, aterrorizava-se e se via envolvida por uma claridade intensa, aquecida pela fogueira que consumia a bela edificação social em que o clube funcionava. Aos gritos, chamando-as pelos nomes, buscava pelas primas, enquanto se dirigia ao carro deixado por elas perto da praça. As duas já a esperavam. Uma, chorando. A outra, rindo meio embriagada ou nervosa pelo inesperado acontecimento.

Apressadas para fugirem do incêndio que, rápido, ia se alastrando, alimentado por um vento que nascera com a madrugada, ganharam o asfalto. Ainda incrédulas com o que acontecera, rumaram para as suas casas, distantes uns bons quilômetros daquela pequenina cidade, cujo endereço fora encontrado pelo espírito aventureiro da garota mais velha. No caminho de volta, as primas comentavam se não teriam sido movidas pelo egoísmo e fugido daquele jeito sem se preocuparem como tudo terminara. Teriam apagado o fogo, houvera vítimas? Na mente de Mariana, Love me tender ecoava sem parar. Junto com a música, aparecia o rosto, o destemor, o nome dele (César Augusto) e parecia-lhe ouvir o tum tum do outro coração batendo de encontro ao dela num ritmo descompassado da canção de amor. Não lembrava se lhe anunciara o próprio nome.

Nunca mais se viram, mas, na mente dela, acomodara-se, em definitivo, aquela música, aquele baile e a forçada separação. Nele, talvez tenha ficado a saudade do que não acontecera. Nela, a inquietação e a busca insôfrega de um estranho sentimento que se lhe apossara sem cerimônia. Talvez residisse, no nefasto acontecimento do passado, a aceitação do compartilhamento de vida com quem não amava e por quem sabia não ser amada como sonhara. Sem se dar conta, passou a associar o mesmo rosto do jovem perdido no passado ao do vizinho do apartamento 312. Quem sabe, um dia, tomaria coragem e lhe pediria emprestada uma xícara de açúcar, farinha talvez. Ou o convidaria, despudoradamente, para dançarem aquela música distante perdida no tempo, cujos acordes nunca deixara de escutar.

E se não a reconhecesse? O que faria dos anos de inconsciente espera que a consumiram? Lá fora, a noite antecipava violento temporal. As horas escorriam lentas, travadas pela angústia e pela expectativa de que o sol acordasse a manhã. Raios tingiam de ouro o céu enegrecido. Por breves e repetidos instantes, a noite se metamorfoseara em dia, tal era a claridade gestada pela fúria da natureza, como se destemido artesão enfeitasse a noite com incríveis fogos de artifício. Na mente dela, trovões repetiam um nome e o coração tamborilava aquela música num ritmo alucinante, cuja cadência se confundia com a irregularidade da respiração e do tumultuado sono. Revirava-se na cama. Nos esparsos momentos de sonolência, revia aquele baile. Em pesadelo, as labaredas, espalhadas pelo salão, fugiam dele e se lhe adentravam o cérebro, esparramando-se pelo quarto. Para se acalmar, fez tocar, no diminuto aparelho de som, à cabeceira da cama, a canção recolhida do passado, que gemia como uma súplica em busca de socorro ao desespero e solidão.

Finalmente, uma tênue claridade despertara-a em sobressalto. O galo caipira, com seu cocoricó teimoso, anunciava um novo alvorecer. Tateando sob a cama, encontrou as chinelinhas de veludo. No banheiro, deixou escorregar ao chão a camisola de seda. Vestiu a roupa escolhida no fim da tarde anterior. Higienizou-se apressada. Reuniu a loira cabeleira e amarrou-a displicentemente. Uma leve maquiagem camuflou a noite mal dormida. Ouvidos atentos, pressentira o único toque da campainha. Abriu a porta com o coração em fúria.

Não era ninguém. A expectativa gerara-lhe uma malévola brincadeira. Retornou ao quarto. Apanhou a bolsa. Iria ao supermercado. Lá, compraria todos os produtos para criar uma magnífica ceia para comemorar a entrada de mais um ano.

Tomou o elevador. Movimentara-se por apenas um andar. Parou. Articulando um indiferente bom dia, entrou o homem, habitante cativo de seu afeto. Com o coração em sobressaltos, percebeu que não a reconhecera. Estaria tão diferente ou, para ele, não passara de mais uma jovenzinha que convidara a bailar? Tudo indicava que sim! Em silêncio, ouvia as batidas aceleradas do coração. Uma súbita vontade de chorar foi se apossando dela. Perdera a juventude à espera da realização de um sonho de amor que só lhe existia no pensamento. Finalmente, o elevador chegou a seu destino. Gentilmente, o cavalheiro deu prioridade à saída da dama.

Já na rua, soltou a loira cabeleira. Movida por uma força interna, queria transformar-se numa nova mulher, que célere, correria atrás do tempo perdido. Afinal, já se anunciava um novo ano. Junto com ele, forjaria uma nova vida. Instintivamente, começou a cantar baixinho:

Este ano, quero paz no meu coração,
Quem quiser ter um amigo, que me dê a mão.
O tempo passa e com ele caminhamos,
Todos juntos sem parar
Nossos passos pelo chão vão ficar
Marcas do que se foi, sonhos que vamos ter
Como todo dia nasce, novo em cada amanhecer.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Cena 2

EPÍSTOLAS PAULIANAS

CONVERSANDO COM MEU AVÔ
MATERNO, JÚLIO XAVIER PINHEIRO


Diadema, minha amada cidade, 29 de dezembro de 2010.

Estimado avô Júlio!

Por Dionísio, como o tempo urge, nem parece que o Senhor embarcou na viagem sem volta para o Olimpo, no fatídico dia 26 de maio de 1966...

Espero que esta missiva cibernética o encontre vigoroso e cuidando dos equídeos, que tanto amava, nas pradarias olimpianas!!!!...

O Senhor nem imagina quantas transformações vertiginosas ocorreram, após a sua partida, neste maltratado e fascinante mundo em que ainda habito!!!! Por conta do avanço da medicina, se o Senhor estivesse entre nós, nos dia em curso, o mal que o afligia, a surdez, seria atenuado, porque existem aparelhos auditivos, que não o deixariam exasperado para entender o que dizíamos... Lembra como era difícil a nossa comunicação, por exemplo, para que entendesse que estava chovendo, precisávamos fazer mímicas!!!...

Que saudades quando o Senhor dizia pincinê, ao invés de óculos, máquina, ao invés de automóvel, bulir, ao invés de mexer, folia ou fuzarca, ao invés de brincadeira!!!... Lembra o seu júbilo com as Festas Juninas, que organizava com entusiasmo?!... Sabe, amado avô Júlio, acho estranho na nossa família não usarmos o diminutivo afetivo, porque nunca o tratei como vovô, mas sempre como avô, como ocorria e ocorre com os meus demais entes queridos...

Mais um ano está para terminar... Fico muito melancólico e saudoso, do meu tempo de infante, que nunca, jamais, em tempo algum, voltará, quando tinha a prerrogativa de me deleitar com seu amor (a avô Belmira Pedroso -1900-1985, sua esposa, era tão fleumática, e seu netinho dileto era meu primo Edson Dias Valente -1957-1982)... Lembra que, no início do ano novo, o Senhor nos dava de mimo (para este agora reles escrevinhador outonal e a linguaruda da Valquíria, minha irmã caçula) uma nota de dois cruzeiros? Quando o Senhor dizia: - “Divida esta nota com sua irmã”, pensava que era para cortá-la e dar a outra metade para a Valquíria[sic]!!!!

Por conta da sua decisão de não retornar mais ao bairro paulistano de Santana, onde nasceu, após a carnificina de 1924 (lembra que o Senhor fugiu apavorado com a avó Belmira Pedroso Pinheiro e sua então primogênita, Matilde Pedroso Pinheiro -1923-2008, minha adorada e saudosa mãe, que tinha um ano, para o sítio do seu sogro, Antônio Manoel Pedroso, em São Bernardo?!...), conhecida como Revolução de 1924, que ceifou muitas vidas dos seus contemporâneos, ainda continuo residindo na Freguesia de São Bernardo, que na contemporaneidade é composta de sete municípios, com um pouco mais de 2.500.000 habitantes, na antiga Vila Conceição, que agora é um pujante município chamado Diadema!!!!...

Estou muito apreensivo com o ano novo, porque não sabemos de fato o que nos espera, tendo em vista que a nova presidente eleita é uma neófita em cargos eletivos e nos deixa apreensivos com os rumos que teremos na sua gestão...

Enquanto isto, aguardo a minha partida para ir ao seu encontro no Olimpo, num dia incerto e não sabido...

Sua bênção, avô Júlio! Sempre o amei, amo e amarei!!!!!...

Afetuosíssimo e calorosíssimo abraço!

Do seu neto, que nunca, jamais, em tempo, algum, o esquecerá!!!!!!!

Até breve...

João Paulo de Oliveira

Família de Matilde, neé Pedroso Pinheiro; após o casamento, Pinheiro de Oliveira, mãe de João Paulo. A foto é de 1935 ou 36.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Cena 1


OS BOMBEIROS E O BOLO

No Réveillon de 2001, estava nos Estados Unidos, na casa de minha filha. Havia dias que nevava e ventava muito, fazendo um "frio de congelar rabo de cachorro"! Fui incumbido de preparar o assado e a sobremesa para a ceia de "Ano Novo"e logo de manhã comecei os preparativos. Enquanto eu assava o bolo, saia a todo momento para fumar (sou inveterado) e admirar os enormes flocos de neve que caiam mansamente.

Lá pelo meio dia, o bolo já estava pronto, lindo, todo enfeitado com glacê e morangos. Coloquei-o numa bancadinha de granito, bem debaixo da vidraça da cozinha e fui cuidar do assado. Liguei o forno no máximo pois o pernil era dos grandes e saí para fumar novamente. Por lá é costumeiro ter duas portas na cozinha, uma de madeira e outra "mosquiteiro". Como as tragadas seriam rápidas, saí sem o casaco, apenas com um cachecol. Aconteceu que a porta se fechou, com o trinco de trava virado e lá fiquei eu trancado prá fora, num frio de 30 graus negativos.

"Maldito vício, e agora, que fazer?!" Forcei todas as portas e janelas mas estavam perdidamente cerradas para mim. Tentei proteger-me num chalezinho do quintal onde meu genro guarda seus apetrechos esportivos mas, sem aquecimento, era mais frio que lá fora.

Sai pela rua e entrei no Duty Free da esquina. Comprei um Malboro Light, tomei um café horroroso servido num copo enorme e fiz horas por alí até quando a dona começou a olhar feio. Saí, mesmo porque não tinha mais dinheiro para comprar nada.

Bem; encurtando a estória, depois de umas três horas fiquei desesperado pois os pés estavam formigando, o nariz e orelhas não podiam ser tocados com perigo de se quebrarem. Olhei para o pequeno vitrô da cozinha e pensei: é melhor comprar outra janela que morrer congelado. No momento em que ia bater a barra de ferro na vidraça, ação que iria me salvar mas inevitavelmente, destruir meu bolo que estava bem embaixo, ouvi o alarme disparando: "Meu Deus, o assado deve estar queimando e enfumaçando a cozinha!"

Assim como Marta, eu pensei, abaixando o ferro: "relaxe e goze..." Em questão de minutos os bombeiros (eram em seis) chegaram, naquele estardalhaço. Antes que esticassem as mangueiras, consegui explicar o ocorrido. Com suas ferramentas, abriram a porta, desligaram o alarme e acionaram o sistema de ventilação. Antes que eles me dessem uma lição de moral ou multa, ofereci um pedaço do bolo que realmente tinha uma aparência apetitosa.

Não só aceitaram como devoraram quase o bolo inteiro.

Enquanto entrava na banheira de água quente pensei, aliviado: "Dessa eu me safei mas e agora, como fazer com a sobremesa?" Resolví fazer às pressas um pudim de claras e com as gemas, preparei um quindão que ficaram prontos quando os convivas já estavam chegando.

De qualquer forma foi um sucesso e vou passar as receitas:

PUDIM DE CLARAS COM DAMASCOS: 12 claras; 24 colheres de açucar; 1 colher (chá) de pó royal; 2 colheres (sopa) rasas de maizena; damascos ou raspinhas de limão. Bater as claras em neve (numa vasilha grande), colocar o açúcar aos poucos, o fermento, a maizena e os damascos (afervente-os, antes, em água com açucar e bata no liquidificador até formar uma massa) ou as raspinhas de limão. Bater bastante, por uns 10 minutos. Unte uma forma grande (de buraco no meio)com margarina e açúcar. Assar em "banho-maria" e desenformar ainda quente, espalhando por cima um creme de baunilha. Creme de baunilha:1/2 litro de leite; 1 gema desmanchada no leite frio; 4 colheres de açúcar, 4 ou 5 gotas de baunilha e 2 colheres de maizena desmanchada em um copo de leite frio e acrescentada à mistura um pouco antes da fervura. Mexer bem.

QUINDÃO: 12 gemas mais dois ovos inteiros; 3 colheres cheias de manteiga ou margarina sem sal; 2 xícaras de açúcar; 1 pacote de coco ralado (ou Flococo). Misturar todos os ingredientes, sem bater e levar ao forno em forma untada com bastante manteiga e polvilhada com açúcar. Assar em "banho-maria"

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*João Batista Gregório, paulista de São João da Boa Vista, é cronista de mão cheia. Publicou, em 2009, suas crônicas reunidas em Crenças e Desavenças e, em 2010, seu novo livro, Qual será o Sabor da Crônica?, lançado durante a Bienal do Livro de São Paulo. Para conhecer a sua produção, acesse o blog do JB, cheio de histórias divertidas, onde cada crônica pitoresca acaba com uma receita culinária especial, testada e aprovada pelo autor! Clique no endereço abaixo e delicie-se! http://contoscurtosgrandesreceitas.blogspot.com/
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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Cena 4


O DESPERTAR DE UMA ESPERANÇA


A noite estava quente. O céu, adornado por milhares de estrelinhas, enfeitara-se para anunciar que, dentro de dois dias, seria Natal. Da janela de um quarto de hospital de Porto Alegre, espiava a noite, enquanto velava o sono de meu menino que ali se encontrava há longos e sofridos meses. A tarde escorrera lenta, porque o vai e vem rotineiro de médicos e enfermeiras, tentando reter a vida de meu pequenino, como que anunciando um milagre, cedera espaço para uma presságica calmaria.

Ao longe, o grito, em desespero, de uma sirene anunciava esperança de vida ou agourava o desenlace de alguém. O meu coração, aos prantos, implorava que não fosse mais um inocente e outra mãe a passarem pela dor que me acompanhava há tanto tempo.

Existem certos sofrimentos que não podem ser abrandados com palavras de consolo. Somente o abraço solidário de alguém irmanado na dor pode mitigar as mazelas que parecem intermináveis e a dor, por nada se poder fazer por um filho, que fenece num leito de hospital, só se apazigua quando se encontra identificação com igual sofrimento.

Quase um ano se passara e o 25 de Dezembro já se engalanava, vestindo-se com as mais belas roupagens de festa. Aquela noite, antevéspera de Natal, servira como uma estranha provação à minha resistência física e gestara em mim uma inusitada crença de que algo aconteceria antes que os sinos badalassem, anunciando os cerimoniais natalinos.

Ao longe, um bling bleng blong festivo de alguma igreja chamava os fiéis à prece. Súbito, os meus pensamentos voaram até o altar onde imaginara estar ocorrendo uma celebração religiosa. O meu agnosticismo e a minha incredulidade homogeneizaram-se numa prece silenciosa, num desesperado pedido de socorro. Naquela hora, era uma mãe movida por um único e aflitivo pedido, que suplicava pela vida de seu filho tão indefeso. Que me fossem tiradas futuras alegrias, mas que, naquele Natal, pudesse voltar a sorrir e me fosse permitido retornar ao meu lar para, junto com meu marido e familiares, festejar o retorno à vida saudável de meu menino.

Foram tantas noites indormidas que aquela me parecera a menos longa porque acreditava que algo muito especial iria acontecer. Era tão intensa a convicção de que logo o meu garotinho deixaria, em definitivo, aquele leito hospitalar que, de inicio, apenas sorri, depois, um riso tênue foi quase se transformando em gargalhadas. Parecia que forças oriundas de mundos muito especiais tomavam conta de mim e, com elas, a certeza de que, no Natal, estaria em casa ou celebrando em algum lugar fora do hospital. O contumaz desânimo que, sorrateiramente, abatera-me, a partir daquela prece, feita numa igrejinha no não sei onde, uma mulher mais forte e com renovados ânimos tomou o frágil corpo do menino doente e, apertando-o de encontro ao coração, transmitiu-lhe a própria força, mentalmente acreditando que lhe estava restaurando a vida.

Os primeiros raios de sol, indiscretos, foram se infiltrando pelo alvo quarto de hospital. Um novo dia se anunciava. Nem mesmo a longa espera em frente à sala, onde o meu menino submeter-se-ia à longa e sofrida bateria de novos exames, conseguia arrefecer-me a esperança de que algo aconteceria. Não sei se o que se apossara de mim poderia ser chamado de esperança, convicção, amor de mãe ou que outro nome serviria para o que sentira desde aquela prece?

Nem mesmo os gritos desesperados de meu bebê ante todos os sofrimentos que lhe infligiam, tornavam-me menor a crença de que algo sucederia. Já de volta ao quarto, preparava-me para, passado mais um dia, receber o resultado de todos os exames a que o garotinho fora submetido. Uma única frase ecoava: tudo vai terminar bem. No início, como se alguém a soletrasse para mim: tu-do vai ter-mi-nar bem! Depois, como se cândidas vozes a entoassem numa suave canção: Tudo vai terminar bem!

Dizem que a solidão e o sofrimento tornam as mães seres indestrutíveis e que a crença que se derrama sobre elas fazem-nas seres especiais e iluminados. Naquela véspera de Natal era, exatamente, assim que eu me sentia. Transformara-me num ser poderoso, como se uma única pergunta aceitasse uma uníssona resposta: Se eu lhe dera a vida, não deveria encontrar as forças fundamentais para restaurá-la?

A fé de que algo muito especial aconteceria, martelava-me o cérebro e era somente nisso em que pensava. Dia e noite. Intermitentemente, naqueles dias que antecipavam o Natal. Nem a fome que, às vezes, sentia e que protelava em afastar-me para saciá-la com medo de perder o meu menino, há muito desaparecera porque me alimentava com aquela certeza.

Uma leve batida à porta. O meu coração, aos pulos, antecipou-se à ação. O médico que tratava de meu filho naquele interminável quase ano, sorrindo, aproximou-se de mim e, de supetão, interrogou-me: “Tu acreditas em milagres? Pois o Rodrigo está curado. Tu vais poder passar o Natal em tua casa.” Não me lembro se chorei. A cena de que me recordo é que me abraçara ao médico e o beijara agradecidamente. Este, comovido, chorava compulsivamente porque ele ainda acreditava em milagres.

Não voltei à minha terra tão distante da capital naquele Natal, mas, junto com o meu marido, irmão e irmã, que o acompanharam na esperança de retornarmos a casa, festejamos o renascimento do Menino da Virgem de forma inusitada. De carro, vagamos pela noite portoalegrense, uma capital sem assaltos e sem banditismos naquela época, visitando todas as igrejas que celebravam a Missa do Galo. Não nos sentíamos plenamente felizes, porque não tínhamos um lar para festejar e em paredes estranhas não seria a festa natalina que tanto sonháramos: a primeira como pais e tios.

Muitos anos já se passaram. Tantos natais já festejei, todavia, em cada noite natalina, os meus pensamentos retornam àquela igrejinha e, silenciosamente, refaço a mesma prece ditada pela força interior que para lá me conduziu. Nessas noites mágicas, recordo-me também daquele médico que, diante de tanta dor e sofrimento, nunca deixou de acreditar em Deus e em milagres.

Também eu, mesmo que tenha demorado a aceitar e a compreender, o que, realmente, aconteceu com o meu menino foi um doce milagre que ganhou forças e se corporificou porque era quase Natal... Desde então, em cada noite natalina, olho-o, agora homem feito e agradeço por bebês não terem consciência de todo o sofrimento por que passaram. Nesses momentos, lágrimas escorrem fugidias porque acredito que crianças jamais deveriam ser tomadas pela dor e desejo, piamente, que, para o meu e para todos os meninos e meninas, que, na infância, sofreram acometidos por estranhas ou terminais doenças, o Natal aconteça todos os dias...

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Arlete Gudolle Lopes é santiaguense, casada, mãe de três filhos, dois netos, o Andrei e a Marianna, professora de Português, palestrante, revisora de trabalhos acadêmicos, livros e todo tipo de textos e... blogueira nas horas vagas. Seu blog Palavras ao Vento é fruto de uma necessidade interior de corrigir deslizes orais ou escritos, presenciados no cotidiano; mostrar a urgência de se fazer da educação prioridade nacional; discorrer sobre trivialidades, mostrando o porquê disso ou daquilo e destacar a força que a palavra tem naqueles que captam o sentido das entrelinhas. Visite seu maravilhoso blog em http://palavrasdearlete.blogspot.com/
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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Cena 3


A 1ª DAMA E O MENDIGO

Em outra ocasião tive a oportunidade de falar sobre Elza Camacho, a mulher do prefeito de um município vizinho, muito aloprada, mas perfeitamente atuante nos eventos e festas promovidos na cidade.

Por ocasião do Natal, ela agitava a cidade inteira, arrecadando dinheiro e doações junto aos empresários e fazendeiros do município. O produto da arrecadação era, integralmente, utilizado na decoração das ruas e prédios públicos da cidade, bem como na compra de brinquedos para presentear as crianças carentes dos bairros de periferias.

Semanas antes do Natal ela tomava a perua da prefeitura e seguia, somente com o motorista, para São Paulo a fim de comprar os brinquedos diretamente nas fábricas e alguns dos materiais que seriam utilizados nas decorações. Saiam de madrugada e só voltavam bem tarde da noite, com a “Kombi” abarrotada.

Numa dessas ocasiões, após ter comprado todos os brinquedos, o motorista deixou-a na Rua 25 de Março para comprar veludos e poás para a roupa do Papai Noel, enquanto ele seguia até o posto de gasolina mais próximo para abastecer o veículo

Por infelicidade, numa das esquinas da Baixada do Glicério, a perua foi violentamente abalroada e arrastada por um troleybus. O pobre motorista, inconsciente, foi levado para o Hospital das Clínicas e ali ficou por horas, até recobrar os sentidos.

Terminadas as compras, já bem no final da tarde, Dona Elza seguiu em direção ao “mercadão”, local onde o motorista combinara de esperá-la. Passada as 5 horas, passada as 6, chegada as 7 e nada de a perua aparecer. Lojas fechadas, nenhum transeunte para socorrê-la; a coitada ficou apavorada, refugiando-se na marquise de um dos vetustos prédios da região sinistra.

Ali pelas 8 da noite aproximou-se dela um mendigo, com várias sacolas na mão, que foi logo lhe dizendo: “- Olha, Dona, esse lugar é meu... Se a senhora quiser se acomodar, ajeita o outro canto, pois neste aqui é onde eu estendo meu cobertor!”

Dona Elza, assustada e meio nauseada com o forte cheiro acre/rançoso que exalava do mendigo, encolheu-se do outro lado, junto com suas sacolas. Quase chorando, não sabia se rezava ou se amaldiçoava o motorista. O mendigo arrancou da sacola um marmitex, todo amassado e perguntou , com voz enrolada: “- Quer dividir a comida? O rango é pouco mas parece que a senhora não comeu nada ainda hoje... tá com o zóio fundo!”

Realmente, ela estava morta de fome, pois não comera nada, por conta do corre-corre das compras. Quando, mais tarde, o homem sacou de dois pãezinhos e algumas bananas, ela não aguentou e aceitou o sanduíche de pão com banana. A noite ia avançada e fria, quando ela começou a chorar baixinho.

Lá pelas dez horas da noite, horário previsto de chegada, os parentes de Dona Elza começaram a preocupar-se com a demora. Ao celular que ficara na perua, ninguém atendia e daí, começaram a ligar para a polícia, necrotérios e hospitais até que descobriram o paradeiro do motorista, já consciente, mas completamente “zureta”, não se lembrando de nada.

Resumindo a ópera, a primeira dama somente foi resgatada por volta das 5 da matina, dormindo, sentada no cobertor do mendigo e enrolada nos veludos do Papai Noel. Foi uma noite do cão, mas reconhecida pela bondade do companheiro, levou-o consigo para sua cidade, convencendo o marido/prefeito a contratá-lo em “serviços gerais” no pátio da prefeitura.

Naquele Natal, o Papai Noel foi um mendigo resgatado das ruas de São Paulo.

E já que falei em Papai Noel e Natal, vou passar uma receita de rabanadas de minha tia Olívia:

RABANADAS: Uma bengala de pão amanhecida de três dias e cortada em fatias; 1 litro de vinho tinto seco; 1/2 kg de açúcar; 2 colheres (de chá) de canela em pó. Misturar tudo e passar as fatias de pão neste melado (dos dois lados). Fritar numa panela ou frigideira tefall (dos dois lados). Colocar, em camadas, numa travessa e espalhar por cima açúcar e canela. Com o vinho que sobrou, apurar uma calda rala, esperar amornar e despejar sobre as rabanadas. Levar à geladeira.

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*João Batista Gregório, paulista de São João da Boa Vista, é cronista de mão cheia. Publicou, em 2009, suas crônicas reunidas em Crenças e Desavenças e, em 2010, seu novo livro, Qual será o Sabor da Crônica?, lançado durante a Bienal do Livro de São Paulo. Para conhecer a sua produção, acesse o blog do JB, cheio de histórias divertidas, onde cada crônica pitoresca acaba com uma receita culinária especial, testada e aprovada pelo autor! Clique no endereço abaixo e delicie-se! http://contoscurtosgrandesreceitas.blogspot.com/
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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Cena 2

"Caros(as) confrades!

Para o meu grande deleite fui convidado pela minha estimada amiga, a jornalista Nivia Andres, para escrever no seu imperdível espaço cibernético, que nos possibilita refletir sobre fatos do cotidiano, com outros vieses.

Considero-a minha Fada Madrinha, porque sempre me instiga a escrever minhas Epístolas Paulianas que, aliás, têm este título graças a sua maravilhosa verve!!! Tive a gratíssima satisfação de conhecê-la virtualmente no ano passado e desde então mantemos colóquios cibernéticos quase que diariamente!!!

Criei as personagem da Dona Miquelina, a copeira Hermenegilda, o bombeiro Godofredo e, depois, o Coronel Epaminondas Albuquerque Pinto Pacca, acatando a sugestão da Nivia. A Dona Miquelina mora no bairro paulistano de Santana, é beata zelosa, ficou viúva quatro vezes e faz pouco tempo, contraiu matrimônio com o Cel. Pinto Pacca. Sempre às quartas-feiras vai à Cripta da Catedral da Sé, onde desfia o Santo Rosário, rogando pela intercessão do poderoso Cacique Tibiriça e da Nossa Senhora de Guadalupe, para nos livrar dos males que nos afligem e de pessoas peçonhentas, aquelas que padecem da “cegueira branca”!! Como não tem nenhum interesse em aprender a interagir com o mundo eletrônico, pede minha intercessão para fazê-lo, com o escopo de externar o que pensa!!!

Meu nome é João Paulo de Oliveira, ocupo dois cargos públicos de Professor das séries iniciais do Ensino Fundamental e atuo como Coordenador Pedagógico. Sou vassalo mor e fã ardoroso da atriz Gene Tierney; aprecio sobremaneira conhecer pessoas argutas, bem como ler, ler, ler, ler, ler e a única certeza absoluta que tenho é que sei que nada sei!!!!... Mantenho na internet o blog Celulóide Secreto, Outro Viés, se alguém quiser tornar-se passageiro do meu vagão do Expresso Oriente, é só clicar http://joaopauloinquiridor.blogspot.com

Vamos conhecer mais amiúde a minha amiga, a Dona Miquelina e seus pupilos?

Max!!!!!... Traga meus sais centuplicados!!!!..."


EPÍSTOLAS PAULIANAS

CONVERSANDO COM A MINHA AMIGA,
DONA MIQUELINA, AO TELEFONE

Estava eu agradavelmente aconchegado em minha chaise longue, sob o encantamento da leitura da obra "D. Pedro II e o Jornalista Koseritz", quando meu telefone portátil vibrou!!!... Preciso dizer quem era?!... Claro que era a minha amiga, a Dona Miquelina (huhum)!!!!...

Ela disse-me que está arrependida, porque num momento de exasperação exacerbada pensou em tornar-se incrédula, mas quando se entregou aos braços de Morpheu recebeu a visita do poderoso Cacique Tibiriça e da Nossa Senhora de Guadalupe, que a demoveram desta nefasta ideia, porque sem a sua presença fervorosa, a Cripta da Catedral da Sé perderia o brilho e seus rogos precisam continuar, veementes, em prol de dias melhores e gestores mais dignos e probos para o nosso Brasil.

Dona Miquelina está felicíssima, porque finalmente conseguiu contrair núpcias, pela quinta vez, com o vigoroso Coronel Epaminondas Albuquerque Pinto Pacca!!!... Nem preciso dizer que os nubentes foram unidos pelos sagrados laços do matrimônio na Catedral da Sé, mas a cerimônia não aconteceu na Cripta, devido ao elevado número de convidados... Após uma belíssima recepção, os nubentes viajaram ao México para usufruir a Lua de Mel, porque a Dona Miquelina sempre quis conhecer Tepeyac, o local em que apareceu a Madona da qual é devota.

Conta-me ela que o Coronel Epaminondas Albuquerque Pinto Pacca é um monarquista de carteirinha!!!... Apresso-me em revelar que ele tem grande veneração pelo saudoso, garboso e erudito D. Pedro II, patrono da valorosa Corporação do Corpo dos Bombeiros da qual, com muito orgulho, o Coronel Pinto Pacca é comandante de um dos batalhões sediados na capital paulista!!! Como também ele é um beato zeloso, juntamente com sua adorada esposa, está organizando uma Festa de Natal para os pequeninos desvalidos da Vila Brasilândia, numa creche em que ela é voluntária!!!!...

Aliás, a fiel copeira Hermenegilda e seu noivo (Ché, este noivado está muito longo...), o bombeiro Godofredo, estão incluídos nesta empreitada solidária!!!! Dona Miquelina segreda-me que o seu sonho é trazer o valoroso e doce Leon, que mora na capital do pujante Estado Meridional, onde também nasceu o notável escritor João Simões Lopes Neto, para abrilhantar a festa, como o Papai Noel dos pequeninos desvalidos!!!!... Caso ela tenha a graça de receber o Leon (o Coronel nem imagina que a Dona Miquelina já suspirou e sonhou com o Leon...), o Coronel Pinto Pacca prometeu incumbir o bombeiro Godofredo para buscá-lo no Aeroporto de Congonhas, numa máquina rodante do Corpo de Bombeiros, para deixar as crianças em estado de deleite ao verem Papai Noel chegar num veículo da Corporação!!!!!... A copeira Hermenegilda já foi incumbida de preparar incontáveis fornadas das suas disputadíssimas rosquinhas!!!! O bombeiro Godofredo prometeu acionar as possantes mangueiras do veículo em que conduzirá o Leon para refrescar os pequeninos e proporcionar-lhes incontáveis sorrisos de satisfação!!!

Enfim, esta magnífica Festa de Natal promete deixar marcas indeléveis nos infantes desvalidos, que não podem ser penalizados por viverem num país onde seus direitos constitucionais não são observados.

A ligação foi interrompida de supetão!!!!...

Advirto-os de que já estou acostumado com essas interrupções intempestivas!!! Relevo-as, porque a minha queridíssima amiga deve estar voando sustentada por anjos, tanto são os afazeres e providências que tem a tomar para que as crianças da Brasilândia tenham um Natal mais feliz!

O que seria da minha insulsa existência se não tivesse a minha amiga, a Dona Miquelina para não deixar a minha “peteca” cair?!...

Max!!!... Traga meus sais centuplicados!!!!...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Cena 1


Leon



Morava naquele prédio há pouco tempo e, como acontece nas cidades grandes, não conhecia os vizinhos, com quem cruzava, eventualmente, nos corredores, saudando-os com um cumprimento cordial. Não sei exatamente quando comecei a notar uma presença que, aos poucos, foi se tornando marcante, talvez pela inusitada estampa da pessoa, talvez pelo seu procedimento sistemático. Ele morava no fundo do corredor, no mesmo andar.

Era um velhinho, cabelos brancos, abundantes, ondulados, bem-penteados. A barba igualmente branca, maçãs do rosto rosadas, sorriso comedido e uns olhinhos... hum! pra lá de matreiros, que se sobrepunham aos óculos de armação redondinha! Vestia roupas comuns, simples, mas que lhe caiam perfeitamente, escondendo o ventre algo proeminente.

Eu saía para o trabalho, todos os dias a mesma hora, geralmente apressada, cheia de anotações mentais, preocupada com a agenda diária a ser cumprida. A primeira vez que o vi, entramos juntos no elevador. Cumprimentei-o e sorri. Ele apertou o botão e notei que segurava um saco de tecido em uma das mãos. Dobradinho. Descemos. Agradeci quando abriu a porta e saímos, cada qual para o seu lado. E assim sucederam-se os dias. Olá! Bom-dia! Como vai? Que dia lindo! Como está frio! Será que ainda vai chover muito?

Raramente o via quando voltava do trabalho, já que não tinha horário. Uma noite, já bem tarde, ao entrar no prédio, vi que ele também aguardava o elevador. Desta vez, devolvi a gentileza, apertando o botão do nosso andar, porque ele trazia o saco, que segurava com as duas mãos. Parecia pesado e ele, cansado.

Fiquei extremamente curiosa com aquela situação que virava rotina e indaguei ao porteiro quem era aquela figura. – Ah! É o Seu Leão. Desde que veio morar aqui, é assim... Saco vai vazio, vem cheio. É boa gente, sempre sozinho, a esposa já se foi, faz tempo. Não sei o que ele faz, não dá entrada pra conversa... Acho que é aposentado.

Na manhã seguinte, na mesma hora, no mesmo corredor, cumprimentei-o: - Bom-dia, Seu Leão! Ele sorriu e respondeu, com um sorrizinho travesso:- Bom-dia, mas não é Leão; é Lé-on, disse ele, fazendo questão de pronunciar o "e" bem aberto. - Ah! Como o Tolstoi, brinquei... – Isso! É o Jesus que me chama de Leão... - E a senhora, qual é o seu nome? – Sou Maria. – Lindo nome, como a Mãe do Nosso Senhor. Concordei e nos despedimos.

Assim foi, por meses. Na correria antes das festas de fim de ano, me dei conta que naquele dia não tinha me deparado com o Leon. Lendo as notícias na internet, uma, em especial, chamou minha atenção: “Idoso atropelado num cruzamento no centro – carregava saco cujo conteúdo ficou espalhado na rua”. Leon Pinheiro está hospitalizado no Divina Providência e chama por Maria... Li as últimas palavras já com a certeza de que a Maria era eu e voei para lá, com o coração na mão.

- Sou a Maria que o Seu Leon Pinheiro chama.

- É parente? – Não, sou vizinha. Ele não tem ninguém.

– Entre, então, porque ele não para de chamá-la!

Leon, deitado no leito, tinha cara de desespero profundo; a perna engessada. Quase não podia falar. Quando me viu, serenou, ensaiou um sorriso dolorido e puxou algo debaixo do travesseiro. – É a chave do apartamento. Entra lá e saberá o que fazer. Desde o dia em que pronunciou o meu nome, sabia que podia contar contigo. Saí e disse que voltaria, mesmo ainda em dúvida de que missão me havia sido delegada.

Entrei silenciosamente no apartamento de Leon. Tudo imaculadamente limpo. Fui de aposento em aposento, até me deparar com um quarto cheio de sacos. Sacos cheios! Um, dois, três... 365 sacos! Em cada um, havia a anotação, em letra caprichosamente traçada: Para os meninos do Presídio Central; para as meninas do Lar de Miriam; para as crianças do Hospital Santa Casa; para as vovós do Asilo Padre Cacique... E assim fui lendo, como pude, as mais de três centenas de bilhetinhos, porque as lágrimas teimavam em cair, embaçando a minha visão...E em todos, uma assinatura: Papai Noel. Claro! Papai Le-on!

Pedi ajuda a amigos, parentes, vizinhos, para que os sacos de Papai Leon chegassem, sãos e salvos, ao seu destino. Ao retirar o último, notei que um pequeno saco tinha ficado no chão e me abaixei para pegá-lo. Parecia vazio. Também tinha um bilhetinho: Para Maria, do Papai Noel. Abri, curiosa, e dentro encontrei outro saco, igual aos de Leon. Entendi a mensagem – ele tinha me tornado parceira de sua missão, antes mesmo de saber que não poderia completá-la sem a minha ajuda.

No dia de Natal, fui visitar Leon e o encontrei sorridente, recuperando as energias. Já o tinha avisado da missão cumprida. Fui desejar-lhe Feliz Natal e mostrar que a parceria havia sido aceita – levei 365 sacos, iguais aos dele, pronta para imitá-lo na mais gloriosa jornada que alguém pode empreender – a da solidariedade!

Desejo a todos um feliz e abençoado Natal e que em seus corações reservem um espaço para a solidariedade – seja a de um sorriso, a de um aperto de mão, a de um abraço ou a de uma pequena lembrança que traduza o seu carinho para quem nada tem. Também sou Maria. Nivia Maria, como minha bisavó, minha avó e minha mãe. Também conheci um Leon, meu pai, Luiz Carlos. Eles me ensinaram a ser solidária. A historinha fica por conta da minha emoção e da arte maravilhosa de juntar as palavras, dando-lhes um sentido. E escrevendo-as com amor. Todas as palavras que eu juntar ainda vão ser poucas para traduzir o agradecimento a todos vocês, queridos amigos, que me brindaram, neste ano, com o melhor presente que alguém que escreve pode receber – a sua atenciosa leitura!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Violência na Escola. Também sobra para o professor

Assisti, na semana passada, na TV Globo, ao programa Profissão Repórter, do excelente jornalista gaúcho Caco Barcelos. O assunto da vez era a violência que assola as escolas brasileiras, especialmente os ataques de alunos a professores, o que tem causado, além de graves danos à integridade física, uma espécie de pânico generalizado entre os professores, afetados por doenças psicossomáticas que os impedem de manter a regência de classe. Muitos se afastam e não voltam, incapazes de superar as pequenas tragédias diárias, acumuladas ao longo de anos, num espaço que deveria ser de aprendizado constante para a superação da ignorância, onde vigorassem a paz e a harmonia, amparadas no respeito mútuo e na disciplina.

Por mais que já conhecesse sobre o assunto, fiquei horrorizada pelo nível da violência praticada pelos estudantes. Até mesmo crianças pequenas munem-se de paus, porretes, pedras, tijolos e qualquer material que possa servir para hostilizar e ferir quem os “ameaça”. No caso, a ameaça, vejam só, é tentar ensinar, é ousar manter os alunos em sala de aula, é querer que aprendam a ser cidadãos...

Sei que já vai longe o meu tempo de estudante, mas não presenciei, jamais, seja no primário, no secundário, no médio ou na universidade, qualquer situação parecida. Quando fui cumprir o estágio regulamentar do curso de Letras da UFSM, a instituição era o Colégio Hugo Taylor, escola pública que funcionava no prédio que pertencera à Cooperativa dos Ferroviários de Santa Maria, outrora poderosa mantenedora de extraordinários cursos profissionalizantes. Hoje, infelizmente, com o desaparecimento do transporte ferroviário, o imóvel abriga o supermercado Carrefour. Pois bem, peguei uma turma de 30 meninos, da quinta série. –Terríveis, me advertira o diretor: - Mantenho a turma, aqui, ao lado da sala da direção, porque não há dia em que não aprontem. - Ninguém os quer! Confesso que entrei na sala um pouco temerosa. Inglês era a disciplina. Porém, o temor desapareceu em segundos e o que se estabeleceu durante os seis meses em que atuei, como estagiária, foi uma agradável parceria, amizade mesmo. Nas primeiras semanas, o diretor vinha espiar, constantemente, pela porta envidraçada, incrédulo, talvez, com a mudança dos meninos. Devo dizer que naquela época não havia violência, apenas indisciplina e desinteresse. Acontece que os tratei com amor e o resultado veio. Foi a minha única experiência como professora. Preferi o jornalismo. Letras era, apenas, o curso acessório ao de Comunicação.

De qualquer maneira, posso avaliar o que sofrem hoje os professores. Mal pagos, mal preparados, reféns de políticas de educação de péssima qualidade. Recebem, a cada ano, um depósito de crianças desajustadas, sem referências familiares de afeto, segurança, proteção e, principalmente, de limites. Então, só podemos esperar que impere a lei do cão.

Escutei, esses dias, num programa de rádio que discutia a violência causada pelo consumo de drogas (inclusive nas escolas), uma frase lapidar do psicanalista Paulo Alberto Rebelatto: “uma criança que não é criada próxima da barra da calça do pai e da barra da saia da mãe e não aproveita a barra de giz da escola, está fadada à barra das grades da cadeia e à barra de madeira de um caixão”. Triste, mas verdadeira a sentença.

O que podemos fazer para mudar essa realidade?

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Abu não deu bi

Nunca poderia imaginar que o Internacional de Porto Alegre iria perder para o Mazembe do Congo, tal o aparato criado para a vitória. O time desembarcou do Campeonato Brasileiro com muitas rodadas de antecipação, como se o título (possível) não interessasse. Tudo girava em torno do Mundial.

Jamais vista a cobertura da mídia. Investiram fortunas. Até colunista social levaram para Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. Jornal gaúcho diário na porta dos apartamentos de hotel. Três mil radinhos gratuitos e Rádio FM sintonizada num raio de 10 Km do estádio. Os jogadores, elevados à categoria de deuses, foram levados a acreditar, pelo clima que os envolvia, que eram imbatíveis. E o contingente formidável de torcedores apaixonados também acreditou, não no sonho, ou na perspectiva, mas na realidade criada.

O que saiu errado? Cedo, bem cedo, após 20 minutos de partida, os jogadores perceberam que a realidade era outra. O humilde Mazembe do interior da África não era tão porcaria assim e resistia. E resistia. Ao marcar o primeiro gol, não ensejou reação, a não ser a de surpresa - da imprensa, dos jogadores, do público presente. O segundo gol selou a revelação: Nada se ganha por antecipação. Até mesmo de um time dos grotões da África cuja principal ambição talvez fosse perder por pouco do Inter imbatível, campeão de tudo.

Após a derrota, outra revelação. A imprensa, especialmente a de rádio, acostumada a criar ídolos tão rapidamente quanto os demoniza, falou em vexame e vergonha. O Inter fracassou em seu objetivo porque não foi capaz de fazer os gols necessários à vitória, pelos méritos do adversário, mas não creio que tenha dado vexame ou seus jogadores devam ficar envergonhados. Jogaram lisamente, respeitaram as regras do jogo, só não foram competentes para ganhar. Dino Sani dizia que, em futebol, três resultados são possíveis: vitória, empate e derrota. Hoje, só dois eram viáveis - a vitória de um, com a consequente derrota do outro. Infelizmente, o derrotado foi o Inter…

Com o infortúnio, o time vencedor de tudo, cantado e decantado, passou a vilão - os jornalistas já mandaram embora o técnico e metade dos jogadores… Isso tudo em duas horas de contenda. O futebol é cruel.

Afinal, o que aconteceu? Autossuficiência, salto 15, falta de humildade, incompetência, insegurança? Não sei. Minha reação, a cada gol, foi a de rir. Não para debochar do sofrimento alheio, mas de incredulidade, já que fomos preparados para a vitória do Inter por aparato monumental. Fiquei triste.

Não se espantem. Sou jornalista e gremista.

Escrevi ontem o texto acima. Hoje, ainda enojada com a boçalidade da maioria dos jornalistas esportivos gaúchos, que só falam em fiasco, vexame e vergonha, fui dar uma olhada nos jornais do país e achei uma opinião equilibrada no Estadão, na coluna de Antero Greco. Leiam, é sensato:





INTERNACIONAL, VÍTIMA DE UM VELHO PECADO MORTAL: A PRESUNÇÃO

"O sonho do bicampeonato mundial morreu para o Internacional, no início da noite, em Abu Dhabi, em consequência de um mal recorrente no futebol: a presunção. O time brasileiro tecnicamente era melhor do que seu rival Mazembe, o quase desconhecido representante da África, criou mais oportunidades e teve sempre a certeza da vitória. Até levar o primeiro gol. Então, se descontrolou, abriu-se, deu espaço para o contra-ataque e para os 2 a 0 finais.A responsabilidade de desempenhar papel bonito era do Inter, que entrou em campo com a obrigação de honrar o peso de sua história. Elenco mais badalado, campeão sul-americano, uma vez também campeão do mundo. Tudo a favor dos gaúchos – na teoria. Na prática o favoritismo quase se tornou realidade já aos 10 minutos do primeiro tempo, num chute de Alecsandro que Kidiaba defendeu. O toque de bola também tinha mais qualidade.

Esses indícios de superioridade relaxaram o Inter e foram fundamentais para despachá-lo para a vala das equipes comuns. Guiñazu e sua turma jogaram a etapa inicial com a certeza de que a vitória seria questão de tempo. Minuto a mais, minuto a menos e os africanos seriam devolvidos para o esquecimento de onde vieram. Não havia motivo para apreensão para os milhares de torcedores colorados que se mandaram para o Oriente Médio para fazer festa. O maldito pecado mortal que costuma derrubar gigantes.

A alegria, porém, foi da zebra, que se desgarrou com o gol de Kabangu aos 11 minutos da segunda fase e atropelou o Inter com Kaluyituka aos 40 minutos. Dois gols bonitos, que contaram também com vacilos oceânicos do sistema defensivo brazuca. De quebra, o endiabrado Kidiaba fez mais duas proezas e ainda divertiu a plateia com sua dancinha solitária, sentado e aos saltinhos.

Celso Roth havia dito na véspera do jogo que o Mazembe deveria justificar a segurança de seu treinador, o senegalês Lamine N’Daye, que prometia nova surpresa, depois de derrubar os mexicanos do Pachuca. Pois os africanos, franco-atiradores, não se intimidaram, jogaram sua bola simples e entusiasmada e colocaram o continente pela primeira vez na história na rota de um título mundial. E Roth se enrolou nas substituições, porque não adiantou tirar jogadores experientes como Tinga, Alecsandro e Rafael Sobis. As mudanças reforçaram o fiasco.

Fica a lição para Rafael Benitez, técnico da Internazionale que esteve no estádio. Se sua equipe, que não anda bem das pernas, passar hoje pelo teste com o Seongnam, da Coreia, que se cuide: esse pessoal do Congo gostou de fazer estragos."

Para descontrair, comentário jocoso, enviado para o Estadão por um torcedor, quem sabe gremista, que se denomina brasil!

"Se sou presidente do Grêmio, contrato um dos jogadores do Mazembe. Ou o goleiro ou o que fez o primeiro gol. Pouco importa se são ou não jogadores pro Grêmio. Seria uma jogada de mestre de marketing, e o investimento seria pago em pouquíssimo tempo. Imagine, por exemplo, quantas camisas do Grêmio com o nome de um desses jogadores do Congo seriam vendidas. Fora outras jogadas que poderiam ser feitas."

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O papel do consumidor na mudança de visão das empresas

Minha sobrinha, Marcela Andres Finamor, publicou mais um artigo na mídia, desta vez no Portal UOL - Coluna Tendências, sobre o papel que exerce o consumidor na mudança de visão das empresas. Apreciem.

A Revolução Industrial, sem dúvida, foi o marco inicial da criação do conceito de empresa e, com ele, surgiram as ideias de produção em escala, em série e de homogeneização, a fim de aumentar o número de produtos no mercado para reduzir o custo. Mas foi a partir da 2º Guerra Mundial, com o advento da Revolução Tecnológica, que ocorreu sua consolidação.

A visão da empresa, naquela época, se baseava na unilateralidade da produção, isto é, o fornecedor estabelecia o que, como e quando produzir. Como consequências deste modelo advieram os vícios e os defeitos nos produtos e serviços. Então, no intuito de amenizar as lesões provocadas ao consumidor por este modelo, no decorrer do tempo foram criados mecanismos de proteção, tanto na ótica do regramento jurídico como nas questões de educação da sociedade.

No Brasil, a defesa do consumidor foi tratada como direito fundamental expressamente disposto na Constituição Federal. Porém, para regulamentar tal direito foi necessária a elaboração de uma norma. Assim, em 1990, nasceu o Código de Defesa do Consumidor (CDC), que delimitou os direitos e os deveres dos participantes da relação de consumo, entendidos como consumidor, fornecedor e produtor.

Nestes 20 anos de existência do CDC, a legislação não cumpriu apenas o papel de punir as práticas ilícitas no comércio. Foi além, pois, aliado ao trabalho de educação e informação realizado por órgãos da sociedade, tornou o consumidor consciente de seu status de sujeito de direitos e deveres, possibilitando que, cada vez mais, reclame qualidade e respeito no que lhe é ofertado. Este novo posicionamento influencia diretamente no processo de tomada da decisão de compra. A tendência é de se ver consumidores socialmente responsáveis, exigindo das empresas produtos e serviços engajados nessa causa, melhoria contínua em seus processos e produtos e comprometimento com todas as partes interessadas.

Desta forma, a antiga visão centrípeta de empresa, baseada no lucro a qualquer custo, vem dando espaço à visão de sustentabilidade empresarial, definida como um conjunto de práticas que procuram demonstrar o seu respeito e a sua preocupação com as condições do ambiente e da sociedade em que estão inseridas. Esta nova mudança de comportamento foi motivada por várias questões, tais como regulação de leis, de valores morais e de regras de conduta, considerando-se os consumidores, a comunidade e os colaboradores como elementos essenciais para o desenvolvimento e atuação das empresas no mercado. O reflexo destes novos valores traz uma mudança radical no papel das corporações diante da sociedade, pois com a reavaliação de antigos conceitos, aos poucos, revelam-se companhias realmente comprometidas na construção de uma cidadania, desde que se engajem na busca de soluções para os problemas que vivemos.

Assim, o cenário vai se modificando, ocasionando a flexibilização do lado selvagem do capitalismo em prol da estabilidade. As empresas que pretendem se consolidar no mercado precisam se adaptar aos acionistas, à comunidade e, acima de tudo, aos consumidores, os quais exercem um papel cada vez mais influente nessa mudança enfrentada pelas corporações em todo o mundo.

Para tanto, as empresas precisam agregar a dimensão da sustentabilidade em suas atividades, com perspectiva de médio e longo prazo, compreendendo que devem exercer um papel estratégico nos temas acima mencionados. Um bom exemplo de como operacionalizar tal dimensão em seus negócios pode ser visto quando as companhias criam critérios de sustentabilidade para aquisição de seus bens e serviços, criando uma cultura nova que atinge toda a cadeia produtiva, assegurando com isso que o consumidor possa exercer uma escolha adequada em termos de seus próprios valores no seu cotidiano.

*Marcela Andres Finamor é advogada do escritório Emerenciano, Baggio e Associados – Advogados, filial de POA.