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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A dança dos mensalões

As cenas que temos assistido nos últimos dias, somadas às práticas anteriores, de igual e premeditada vilania, são demolidoras da confiança de qualquer pessoa na política. Nos surpreendemos novamente, depois de acreditarmos que nada mais nos espantaria. Completou-se o círculo dos escândalos. Todos os partidos têm o seu mensalão - maior ou menor a cifra, são todos, absurda e tristemente, iguais. Tão iguais, comenta a jornalista Míriam Leitão, em artigo para O Globo "que já se pode dizer que existe uma tecnologia conhecida, causas identificadas e um caminho previsível da corrupção no Brasil. Se há um padrão, pode-se ter uma metodologia de combate ao crime." Aí está o cerne do problema. O padrão está identificado, o antídoto pode ser criado, mas há interesse em frear o crime? A corrupção está de tal modo entranhada na política e nos políticos que não vejo, pelo menos a curto prazo, fórmula eficiente para combater a venalidade que se assenhorou do país.

O modus operandi básico dos mensalões é o mesmo - o dinheiro ilegal é alimentado por empresas fornecedoras do governo ou de estatais, facilidade possibilitada pela falta de transparência existente nos contratos e, é claro, uma rede de operadores criminosos, dispostos a tudo, em troca de favores, dinheiro e poder. Alguns especialistas acham que o remédio é aumentar o acesso da sociedade às informações e que os órgãos de controle sejam fiscalizados por ONGs, associações profissionais e empresariais e da imprensa. Concordo. Mas outras medidas são urgentes e cabe ao governo implementá-las, o que nem de longe se vislumbra vontade. O governo parece mais interssado em tirar poderes do TCU que, mal ou bem, tem exercido algum poder fiscalizador, embora frouxo e demorado.

Claudio Abramo, diretor executivo da ONG Transparência Brasil, acha que uma das causas já identificadas dos desvios é o excesso de cargos em comissão e a ocupação da máquina pública por estes nomeados, na maioria despreparados, ainda que não haja garantia de que isso não ocorra com servidores de carreira.

Fabiano Angélico, jornalista e coordenador de projetos da Transparência Brasil, explicou que no país o número dos cargos que o presidente pode distribuir é desproporcional ao que acontece em outros países: "O presidente americano nomeia pessoas para 900 cargos. No Brasil, o presidente nomeia mais de 60 mil cargos. É uma verdadeira usina de corrupção.

Nos Estados Unidos, a pessoa indicada é investigada antes de ser confirmada. Na montagem do governo Obama houve casos de pessoas que não puderam ser nomeadas por dúvidas quanto ao seu passado." Lembram que alguns políticos nomeados por Obama renunciaram assim que foi levantado algum óbice sobre sua reputação, até mesmo por contas pessoais impagas? Para Fabiano Angélico, "deveria haver mais ONGs especializadas em combate à corrupção, e a imprensa deveria tratar menos da briga política e mais de como combater o crime".

O atual escândalo patrocinado pelo DEM é mais corrosivo porque é possível ver as cenas, explícitas, mas não há mensalão melhor ou menor. Todos são inaceitáveis. No federal, há 39 denunciados e ele movimentou pelo menos R$ 55 milhões. No do PSDB de Minas Gerais saíram das empresas públicas R$ 3,5 milhões e houve empréstimos de R$ 11 milhões feitos por Marcos Valério no Banco Rural para irrigar o sistema. O mesmo esquema com o mesmo personagem e no mesmo banco ocorreu no mensalão do governo Lula. No mensalão do DEM, o país está vendo uma quantidade de cenas de corrupção através dos vídeos gravados por Durval Barbosa. No federal, houve também uma farta distribuição de recursos em quartos de hotéis ou na boca do caixa. Estava tudo na contabilidade da diretora financeira do SMP&B ou nos registros do Banco Rural. Só não foi visto.

No federal, o país foi informado do dinheiro na cueca do assessor do deputado estadual José Nobre Guimarães, irmão do então presidente do PT; mas agora, o país viu o dinheiro abarrotando os bolsos e as meias do presidente da Câmara Distrital, Leonardo Prudente. E a cueca voltou a aparecer como depósito, nada original, mas de igual modo, deprimente.

Essa trágica sequência confirma a impressão de que política é assim mesmo: de que isso é feito “sistematicamente” neste país, onde a corrupção já é fato banal, corriqueiro, cotidiano.

Certamente a causa da repetição dos mesmos crimes é a falta de punição, a quase certeza da impunidade. No Peru, o homem de confiança de Alberto Fujimori gravou a si mesmo distribuindo dinheiro para os deputados. O governo caiu, Fujimori fugiu, Vladimiro Montesinos está preso e agora Fujimori foi condenado. O Peru criou regras de mais transparência e um judiciário especializado em crimes de corrupção. Os escândalos vão acontecendo, em camadas, se sobrepondo. Diante de um novo caso se esquece o anterior e o povo que se exploda.

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