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terça-feira, 17 de novembro de 2009

O belo e o feio

Interessante polêmica instalou-se há algumas semanas, tendo por deflagrador artigo publicado na imprensa pelo historiador Voltaire Schilling, A Cidade das Monstruosidades, em que investiu, ferozmente, contra os monumentos e obras de arte existentes nos espaços públicos da cidade de Porto Alegre, considerando-os monstruosidades e propondo a sua destruição.

Não tardaram os contrapontos e a reação indignada dos artistas e dos especialistas no assunto, como Gaudêncio Fidelis, mestre em Arte pela New York University e doutor em História da Arte pela State University of New York que rotulou de fascista a atitude do historiador, afirmando que "...não é novidade que obras de arte em espaço público desagradem a certas parcelas da população. Sociedades democráticas, entretanto, não propõem a sua destruição, pois isso seria uma atitude fascista, que na mesma moeda de troca sugere uma providência autoritária sobre tudo o que lhes "desagrada". Ao contrário, privilegia-se o respeito à expressão, que é o fundamento básico de democracia..."

Ao argumento do historiador, de que deu "voz ao que a maioria pensa", Fidelis retruca e indaga se o professor realmente sabe que vontade é essa, pois causou (propositadamente) uma grande confusão entre categorias artísticas e adverte que a demagogia nunca busca a clareza, uma vez que privilegia a retórica.

Schilling, em seu manifesto raivoso, desancou a maioria dos monumentos públicos da capital gaúcha, propondo "ação entre amigos" para despachá-los". Ora, isso não é postura de um homem que lida com fatos históricos, um estudioso, em tese, um homem culto, preparado.

Como bem anota seu detrator, não é possível deixar de perceber, no texto belicoso, "as referências subliminares do professor Schilling ao corpo humano, por meio do uso de termos como cuiódromo, vaca premiada e tarugo, de conotação notadamente sexual." O raciocínio culmina com uma apologia à beleza das portoalegrenses, que ele considera "as mulheres mais belas do país", atitude, creio, machista e estereotípica. E arremata Fidelis: "A conclusão parece ser de que as obras de arte públicas deveriam ser tão belas quanto as mulheres gaúchas - afinal, tudo seriam coisas - e nós, portoalegrenses, gostamos de coisas "modernas" e belas, ao menos nas palavras do historiador. Um argumento quase irrefutável."

Pois bem, é muito antiga a discussão sobre o que é belo e o que é feio na arte, sob a perspectiva do olho do espectador de uma obra - seja na pintura, na escultura, na música, na literatura, no teatro, no cinema. Creio que cada pessoa admira ou abomina uma manifestação artística segundo a bagagem cultural que lhe refina o gosto e a sensibilidade. Parece que o professor Schilling desmente essa crença, talvez pelo preconceito, pela arrogância e prepotência de sua manifestação e de outros porquês que não me animo a mencionar, por constrangimento e respeito aos leitores...Aliás, manda o bom senso que não nos manifestemos publicamente sobre aquilo que não conhecemos. Deveria ter ficado calado o professor...

Um documento interessante e esclarecedor sobre o assunto - O Belo e o Feio na Arte Contemporânea, foi produzido por minha irmã, Marcia Andres Finamor, na conclusão de seu curso de Artes Plásticas, na Unijuí, em que mereceu nota 10, com louvor. Vou procurá-lo e disponibilizar o estudo a quem se interessar.

A propósito, a Bienal do Mercosul é uma ótima oportunidade para exercitarmos nosso senso estético.

* "Olhos Atentos", obra de José Resende, comissionada pela 5ª Bienal, foi concebida especialmente para Porto Alegre. Funciona como um mirante, de frente para o Guaíba e já faz parte do imaginário da cidade.

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