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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Mais anotações: O elogio da lentidão

O que mais se cobra hoje em dia é velocidade. As pessoas têm que ser rápidas, ágeis e eficientes. O sucesso é ser veloz!

Como não sou veloz e gosto das coisa bem feitas, bem pensadas e saboreadas, achei uma preciosidade o artigo de Cláudia Laitano no jornal Zero Hora de sábado, 31 de outubro.

Conta ela que o ensaísta e crítico literário Antonio Candido, há pouco mais de três anos, durante a inauguração de uma biblioteca do MST, em São Paulo, do alto de seus 90 anos, "ousou contrariar um dos clichês mais universais da nossa época."

Antonio Candido assim disse: "Acho que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamin Franklin, 'tempo é dinheiro'. Isso é uma monstruosidade. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo; esse tempo pertence a meus afetos, é para amar a mulher que escolhi, para ser amado por ela. Para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis: isso é o tempo. E justamente a luta pela instrução...é a luta pela conquista do tempo como universo de realização própria. A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: 'eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize'. As bibliotecas, os livros, são uma grande necessidade de nosa vida humanizada...o amor pelo livro nos refina e nos liberta de muitas servidões."

Em sua crônica, Cláudia ainda comenta que a psicanalista Maria Rita Kehl já havia começado a escrever um ensaio sobre relação entre o modo vivemos neste comecinho do século 21 e a explosão do número de casos de depressão no mundo inteiro quando se deparou com a frase de Antonio Candido e teve um "clique teórico". Em seu livro O Tempo e o Cão está o resultado dessa inquietação - a depressão que invade, devassa e devasta os escravos do tempo - como uma reação psíquica ao excesso de coisas que somos cobrados a fazer o tempo todo, inclusive quando deveríamos estar apenas nos divertindo, brincando, sem compromisso agendado...O resultado óbvio é que "o sujeito deprimido pula do trem em movimento da vida contemporânea e fica à margem dos acontecimentos - não por escolha própria, mas por falência geral da engrenagem interna que o faz funcionar no ritmo exigido."

Pois então, senhoras e senhores à beira de um ataque de nervos, tratem de arrumar tempo para viver, para ver a grama crescer, o rio correr, a lua nascer, o sol despontar e o que mais sempre quiseram fazer mas sentiam-se proibidos pela exigência diuturna do produzir, produzir, produzir. Ah! E o fundamental! Ler, ler, ler! Daí brota a fonte da vida! Sem medo de perder tempo... e sem vergonha de se sentirem... humanos!

2 comentários:

Gian Fabra disse...

adorei!!!

estou matutando um texto justamente sobre esse ponto de vista q vc exalta. e adorei 'ouvir' o Antonio Candido...
parabéns pelo seu blog. é inspirador.

já estou seguindo
bjs

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Prezada jornalista Nívia Andres!
Sua brilhante pena sempre nos brinda, além das resenhas de livros imperdíveis, com crônicas palpitantes que não nos deixa indiferentes para o tema em foco, como é o caso da cruciante questão do tempo. Que saudades do meu tempo de pequenino, onde o tempo tinha outro caráter, para este agora inquieto ser vivente outonal. Por que sempre alegamos falta de tempo, para leituras, filmes, teatro, museus e visitas a entes queridos e amigos? Estou propenso a rever a película "Feitiço do tempo"...
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP