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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Ainda o caso Battisti

Ainda algumas repercussões e opiniões na Imprensa sobre a decisão de não decidir tomada pelo Supremo Tribunal Federal em relação ao pedido do governo italiano para a extradição de Cesare Battisti, devolvendo a decisão ao presidente Lula.

Do jornal O Estado de São Paulo: Não há na lei uma só palavra que autorize o presidente da República a deixar de cumprir a decisão concessiva da extradição, na opinião de

Carlos Veloso, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal:

"O Supremo Tribunal Federal, no julgamento da extradição do italiano Cesare Battisti, pedida com base no tratado existente entre o Brasil e a Itália, decidiu que a decisão do ministro da Justiça concessiva do refúgio foi proferida contra a lei brasileira e a convenção de Genebra de 1951, além de usurpar competência do STF.

É que a convenção de Genebra estabelece que não será concedido refúgio a quem haja praticado crime de direito comum.

E a lei brasileira -lei 9.474, de 1997, artigo 3º, inciso III - veda a concessão de refúgio aos que tenham cometido crime hediondo.

O Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), órgão técnico do Ministério da Justiça, indeferiu o pedido de refúgio formulado por Battisti, porque ele fora condenado pela Justiça italiana pela prática de quatro homicídios qualificados que, pela lei penal brasileira, são crimes hediondos.

Convém esclarecer que as sentenças condenatórias foram confirmadas pela Corte de Cassação italiana.

A Justiça francesa, em atenção ao pedido de extradição formulado pela Itália, deferiu o pedido nas mais altas instâncias, o Tribunal de Apelação de Paris, a Corte de Cassação e o Conselho de Estado. Battisti recorreu à Corte Europeia de Direitos Humanos, que negou provimento ao recurso.

Havia, pois, desfavoráveis a Battisti, sete decisões: duas da Justiça italiana, três da Justiça francesa, a decisão da Corte Europeia de Direitos Humanos e a decisão brasileira do Conare. O decidido pelo Supremo Tribunal Federal não teve, de conseguinte, sabor de novidade.

O tribunal, em seguida, deferiu a extradição, pelo voto dos ministros Cezar Peluso, Ricardo Lewandowski, Ellen Gracie, Carlos Britto e Gilmar Mendes.

Até aí, tudo bem. A corte simplesmente exercera a competência que lhe é conferida pela Constituição. A surpresa veio depois.

O STF, por 5 votos a 4, decidiu que, mesmo tendo sido deferida a extradição, caberia ao presidente da República a palavra final.

É dizer, o Supremo autolimitou-se, o que é inédito, porque nunca ocorrera a hipótese de o presidente da República descumprir decisão concessiva de extradição.

E essa hipótese nunca ocorreu porque nem a lei nem a Constituição isso autoriza. Em Estado de Direito, tudo se faz de conformidade com a lei.

A lei brasileira, lei 6.815/80, o Estatuto do Estrangeiro, artigos 76 a 94, cuida minuciosamente do tema.

Concedida a extradição, será o fato comunicado pelo Ministério das Relações Exteriores à missão diplomática do Estado requerente, que, no prazo de 60 dias, deverá retirar o extraditando do território nacional (artigo 86).

Se não o fizer, o extraditando será posto em liberdade, sem prejuízo da expulsão, se o motivo da extradição o recomendar (artigo 87).

É que o Brasil não pode transformar-se em valhacouto de criminosos. Se o extraditando estiver sendo processado ou tiver sido condenado no Brasil, a extradição será executada depois da conclusão da ação penal ou do cumprimento da pena, ressalvado o disposto no artigo 67 (artigo 89).

É dizer, ele poderá ser expulso, ainda que haja processo ou tenha ocorrido condenação (artigo 67).

Todavia, o governo poderá entregar o extraditando ainda que responda a processo ou esteja condenado por contravenção (artigo 90; extradições 947 -Paraguai- e 859 -Uruguai).

Seguem-se os trâmites finais da extradição (artigo 91). Depois de entregue ao Estado estrangeiro, se ele escapar à ação da Justiça e homiziar-se no Brasil, será detido, mediante pedido feito por via diplomática, e de novo entregue, sem outras formalidades.

Não há na lei, portanto, uma só palavra que autorize o presidente da República a deixar de cumprir a decisão concessiva da extradição, decisão que encontra base na Constituição (artigo 102, I, g), na lei (lei 6.815/80, artigos 76 a 94) e no Regimento Interno do STF (artigos 207 a 214).

O que há é que a entrega do extraditando poderá ser adiada se estiver ele acometido de moléstia grave comprovada por laudo médico (artigo 89, parágrafo único, da lei 6.815/80).

Não há nos dispositivos mencionados, constitucionais ou infraconstitucionais, vale repetir, nada que autorize o presidente da República a deixar de cumprir o decidido pelo STF.

A menos que seja ressuscitado o que o constitucionalismo sepultou há mais de 200 anos: o direito divino dos reis e dos imperadores, que podiam decidir contra a lei."

Fica a pergunta: Se a lei é só uma, como pode haver tantas interpretações? Falha do legislador? Interessante é que os ministros, em seus doutos e extensos votos, tantos os pró como os contra, interpretaram a mesma lei de forma diametralmente oposta. Um deles, surpreendentemente, conseguiu a façanha de navegar pelas duas margens.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Coisas do tempo. E do vento.

Há um interessante artigo de J.R. Guzzo na revista Veja de 11 de novembro, intitulado O fim do mundo, em que faz algumas observações pertinentes sobre a polêmica das mudanças climáticas e especificamente, do aquecimento global, que será a estrela da próxima Conferência da ONU, marcada para Copenhague, em dezembro, reunindo 170 países e cerca de 8.000 cérebros, ávidos por apresentarem suas teorias e conclusões acerca do assunto, cada vez mais catastróficas e alarmantes.

Pois o articulista sugere o estabelecimento de uma separação entre o que possam ser problemas reais e o que é uma espécie de "culto psicótico" ao fim do mundo. Mas conclui, imediatamente, que "trata-se de uma tarefa com poucas chances de sucesso."

E explica porquê, baseando-se na voz corrente, cada vez mais generalizada e agressiva, de que as pessoas têm que acreditar que o clima está mudando para pior e que a catástrofe é iminente. Importante mencionar que não admitem dúvidas ou contrapontos. É e pronto. Daí a necessidade, afirmam, de sair de Copenhague com uma solução definitiva para o aquecimento global e as emissões mundiais de carbono. Os organizadores da Conferência e os chefes de estado envolvidos alardeiam que é preciso achar uma saída, mesmo que não saibam qual é...

Nesta altura, o articulista nos brinda com fina ironia: "A ideia geral, em suma, é que o cidadão, ao sair de casa um dia desses, pode sofrer um ataque do efeito estufa e cair morto no meio da rua."

Na verdade, se faz urgente mais informação científica que saia da boca de pesquisadores idôneos para afastar "essa insistência em criar uma unanimidade de pensamento, que vem recheada de uma extensa mistura de mistificação, desinformação, pseudociência, demagogia, charlatanismo, fatos sem confirmação e números cuja veracidade não pode ser certificada."

Agora terra rachada pela seca do Nordeste (mesmo que, desde de tempos imemoriais aconteça), é culpa do aquecimento global; também a alternância de secas e chuvas no sul são prova veemente da hecatombe climática, escusado dizer que El Niño e La Niña apareceram agora...

Conta, ainda, o cronista, para ilustrar a sanha autoflagelatória dos arautos da tragédia que, há um ano, "a Inglaterra aprovou uma lei pela qual o país terá que cortar 80% de suas emissões de carbono até 2050", mesmo ninguém sabendo como isso poderá ser efetivado... Vejam só, no exato momento em que a lei estava sendo discutida, começou a nevar em Londres, fenômeno que não acontecia em outubro há exatos 74 anos! Certamente um aviso do além para que a matéria fosse aprovada...

De qualquer maneira, há esperança. Cifras cada vez mais generosas serão liberadas, não se sabe se 100 bilhões por ano em 2020 ou até um trilhão, para ajudar os países pobres a participarem do combate ambiental e para que Brasil, Índia ou China sejam compensados das despesas que terão para deixar de ameaçar o mundo com o seu desenvolvimento...

Aí está o ponto nevrálgico da questão. Os países ricos rechaçam qualquer providência mais enérgica para diminuir as emissões de carbono, mas destinam rios de dinheiro para que as nações em desenvolvimento, as chamadas emergentes, parem de poluir. A agenda de Copenhague é deles, com seus números, profecias e cientistas.

Por derradeiro, a boa sugestão do articulista aos governantes: "O Brasil, em vez de reagir ao debate dos outros, faria melhor pensando primeiro em seus interesses. Para isso, precisaria saber o que quer. Parece bem claro que o país, antes de ter um problema ecológico, tem um problema sanitário; nossa verdadeira tragédia ambiental é o fato de que 50% da população não dispõe de rede de esgotos ou de que dois terços dos esgotos são lançados nos rios sem tratamento nenhum. Na Amazônia, onde há o maior volume de água doce do mundo, a maioria da população não tem água decente para beber. Nas área pobres das cidades, o lixo não é coletado - acaba em rios, represas ou na rua. A questão ecológica real, no Brasil, chama-se pobreza."

É isso aí. Concordo. Mas o governo brasileiro prefere gastar milhões para assegurar que o filme Lula, o Filho do Brasil, seja assistido por toda a população mais pobre do país, garantindo-lhe o essencial - pão, circo e voto, bem melhor do que água encanada e esgoto. Afinal, obra enterrada não aparece, nem elege ninguém... O tempo, o vento, o apagão, o desmatamento da Amazônia, isso a gente discute na Dinamarca, bem longe, para não atrapalhar o lançamento do filme...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Resposta

Não ia comentar o assunto porque cansaria os meus dedinhos em vão, mas abri mão do descanso para responder a um gentil e querido amigo, sobre minha opinião acerca dos desmandos e ataques ao erário e ao povo pelos tresloucados parlamentares municipais, principalmente os instalados nas fofas cadeiras das casas legislativas no entorno de Santiago, em sua saga turístico-cultural, por viagens e cursos de aperfeiçoamento(?), não importa o destino. O que interessa é a grana que vem gorda, apetitosa, perfumada, em forma de diárias.

Pois então, vejam só. Parece que as excelências ainda não conjuminaram, ligando o tico ao teco, que o dinheiro é do povo que os elegeu, sim, mas para legislarem, defendendo os interesses da comunidade e não para dilapidarem a sacolinha municipal, tão escassa quanto deficitária para construir escolas, pagar professores, levar água onde não tem, oferecer atendimento básico de saúde, coletar o lixo e por aí vai.

Aliás, se decidisse me candidatar a vereança, começaria a estudar muito tempo antes. Um candidato a candidato precisa conhecer profundamente todos os aspectos que dizem respeito à sua cidade. Não tem que descobrir sua ignorância depois de eleito. Se for necessário, que vá aperfeiçoar-se às suas expensas e não à custa da rapinagem dos cofres do Legislativo. Ora, eu sei que existe o duodécimo. Mas é para as despesas essenciais do Parlamento, o que não inclui, por certo, viagens turísticas e cursos que não ensinam nada.

Gostaria, imensamente, de assistir a uma sessão da Câmara nesses municípios, quando estivesse sendo discutido o Orçamento Municipal proposto pelo Executivo. Escusado dizer que, no mais das vezes, nem o prefeito conhece ou maneja a peça orçamentária, obra do contador municipal, o dono do pedaço. É risível, de fato, assistir ao evento, porque ninguém sabe interpretar o contéudo da mensagem e seus desdobramentos. Alguns até tentam, mas o Orçamento é aprovado sem emendas, por deficiência intelectual de quem tinha por dever destrinchá-lo, analisá-lo e melhorá-lo. Assim, o Executivo continua levando vantagem em todas. Falta tirocínio (ahahahahaha)!

De quem é a culpa do descalabro? Ora, é do povo que elege os indigentes e não tem boca para cobrar. E eleitos foram, são autoridades. Tem culpa o Sistema que aceita candidatos analfabetos funcionais, despreparados para decodificar um simples texto, que direi, então, de analisá-lo.

E ou não é? Perdoem-me os bons vereadores (são raros, mas existem) que fazem da função um verdadeiro exercício de cidadania e aprendizado.

Tina. Caio.

Maurício de Sousa, pai da Mônica e da Magali, do Cebolinha, do Franjinha, do Cascão, do Chico Bento, do Horácio... criou nova revista, o Almanaque Turma da Tina, dedicada a um público, digamos, mais crescidinho, pré-adolescentes e adolescentes (será que ainda leem gibizinhos?).

Nova em termos, porque já está no número seis. Mas agora é que tem chamado a atenção, em virtude da entrada em cena ou melhor, nos quadrinhos, de um novo personagem, o Caio, melhor amigo da Tina, agora jovem estudante de Jornalismo. Adivinhem por que? Ora, porque ele é gay.

A assessoria de Maurício de Sousa apressou-se em avisar que o autor está cumprindo a promessa de discutir questões ligadas ao universo adolescente de forma tranquila e sem levantar bandeiras.

A novidade tem causado alguma celeuma. Há poucos dias o programa radiofônico Polêmica, da rádio Gaúcha, debateu a questão. Blábláblá, blábláblá, blábláblá, analisa aqui, opina ali, pedagogueia lá, psicologiza acolá, tudo ok, tudo muito bem, tudo muito natural. Ótimo. A patuleia é que estranhou, nas entrevistas de campo. Óbvio.
Tina e Caio
Especula-se, sem confirmação, de que o nome Caio seria uma homenagem de Maurício de Sousa ao nosso Caio Fernando Abreu, gaúcho, santiaguense, ou melhor, do Passo da Guanxuma (como ele gostava de chamar Santiago), de bela memória e obra. Se for, é comovente.

Flor de reacionarismo

A expressão quem cunhou foi Cláudia Laitano (parafraseando Nelson Rodrigues), elegendo-a título de sua crônica de sábado, 17, em Zero Hora, comentando os desajustes estéticos e as frequentes críticas que sofrem as manifestações artísticas e culturais que saem dos padrões esteticamente estabelecidos, além da vergonha de certas pessoas de tornarem públicas suas preferências, pelo temor de parecerem idiotas. É a ditadura do gosto.

Detestável esse poder exercido arbitrariamente. Ainda bem que, segundo a cronista, pouca gente se interessa, atualmente, pelo que pensa certa "aristocracia intelectual" e avança, referindo que mais aguda é a ditadura da mediocridade, da desqualificação da cultura letrada, da diminuição das diferenças culturais, da estupidificação de estudantes com pouca ou nenhuma exigência na escola, da incapacidade de pensar além do senso comum (como se o que a "maioria" gosta fosse o ápice da civilização ocidental)."

7ª Bienal do Mercosul e a flor do reacionarismo

Continuam abertos à visitação pública os espaços destinados à 7ª Bienal do Mercosul, no Cais do Porto, no MARGS e no Santander Cultural, em Porto Alegre. Também, acompanhando as condições climáticas ribombantes de raios, trovões, rajadas de vento, chuvas copiosas e desabrigados em penca, avolumam-se as críticas à exposição, ferinas, diria, a começar pelo renomado jornalista e escritor Flávio Tavares, antecedido pelo historiador Voltaire Schilling que, há dois meses, atacou ferozmente as obras de arte colocadas nos espaços públicos da capital, que já me referi neste blog.

Ainda não havia visitado a Bienal, atitude que tomei nesse domingo, muito curiosa com o ataque veemente de Flávio Tavares. Afinal, o que terá levado um prócere do jornalismo, um homem culto e experiente a manifestar-se de forma tão virulenta contra o que ele chama de "pobres extravagâncias com a denominação de arte conceitual"?

Pois bem, não sou artista nem versada em arte. Sou apreciadora do que é belo (segundo meu cérebro capta, percebe, processa e responde), reagindo às mensagens que meus olhos enviam. Nos armazéns do Cais do Porto observei quantidade de instalações e propostas, ali colocadas por artistas de todo o mundo. Nada vi que estarrecesse ou provocasse reação de náusea nem de vilipêndio à arte.

Destinei especial atenção a uma instalação que Tavares mencionou em seu libelo contra a Bienal - uma área interna enorme, coberta por toneladas de areia que simulam subidas e descidas em caminho com leito de taquaras. As inferências são múltiplas, conforme o olhar do espectador, mas Tavares preferiu indagar se "seria uma advertência sobre a desolação geração peladestruição do meio ambiente,em que tudo virará deserto? Mas aquela areia roubada do fundo do rio não é, em si, um ato de destruição ambiental? Concluída a Bienal, será posta num caminhão para misturar-se ao cimento em algum edifício da cidade vertical!" E conclui: "Esse tipo de coisa chama-se "instalação". Em teoria, surgiu como revide às exigentes regras da arte clássica. Como expressão, é algo subjetivo, ou inventado, em que só o autor conhece o significado que pretendeu dar. No fundo, uma ilusão. Ou uma brincalhona falcatrua em nome da arte."

Forte. Muito forte. E reacionário. Flor de reacionário. Mas afinal, Flávio Tavares deve ser respeitado em seu olhar. Nosso tempo, tão diverso e multifacetado em todas as suas manifestações, merece observação e explicação. Na arte, como na vida, tudo se transforma, sob a ótica de cada olhar...Todo grito merece escuta, mesmo que o som não seja o que desejamos ouvir.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Salve, lindo pendão da esperança! Salve, símbolo augusto da paz...

Antes do ciclone devastador que atingiu o estado, na manhã de hoje, em caminhada cívica para comemorar o Dia da Bandeira, o pequeno Gabriel José dos Santos, de três anos, roubou a cena, ajudando a carregar a Bandeira Brasileira, vestido ccom o uniforme dos fuzileiros navais.

Imagem: Ronaldo Bernardes, em zerohora.com

O prazer de ler. De escrever. E de compartilhar!

Ler, para mim, é um imenso prazer. Compartilhar livros, igualmente! Pode ser uma contribuição modesta, sugerir, estimular leitura e emprestar livros. Porém, creio que faço a minha parte. E não considero prejuízo quando o empréstimo não retorna. Pode ser que a pessoa tenha se apaixonado pelo exemplar...Assim, quando o livro é muito especial, compro dois. O meu estará sempre garantido, à vista de um simples olhar.

Pequeno prolegômeno para lhes contar uma historia.

Inés de Minha Alma, de Isabel Allende, é a sétima obra que sugiro aos leitores do Blog do jornalista Edward de Souza, de Franca, SP. Comecei com 1808, de Laurentino Gomes; depois, indiquei O Leitor (livro e filme), de Bernhard Schlink; A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón; A Caverna, de José Saramago; A Cabana, de William P. Young e As Virtudes da Casa, de Luiz Antonio de Assis Brasil.

Comecei a colaborar com o Blog do jornalista Edward de Souza em maio de 2009, por convite de seu titular, que leu minha crônica Como se constroi uma paixão, entrou em contato comigo e pediu-me para publicá-la. Acho que o pessoal gostou porque, em seguida, veio o convite para que colaborasse regularmente com textos para o seu blog em que também escrevem outros renomados jornalistas e radialistas como J. Morgado, Milton Saldanha, Oswaldo Lavrado, Édison Motta e Ademir Medici, além do Edward, é claro, o seu criador e campeão de acessos. Em pouco mais de dez meses de vida, o blog contabiliza a fábula de quase 100 mil acessos! Merecidamente, ficou em 4º lugar no prêmio Top Blog. O que mais me apraz e estimula é a interação com os leitores. Cada texto publicado conta, em média,com 40 comentários, instalando discussões fantásticas e valiosas.

Entre nossos amáveis leitores e comentaristas diários contamos com algumas dezenas de estudantes de jornalismo, que contribuem enormemente para o sucesso do blog com opiniões contundentes, além de muitos profissionais de todas as áreas de atuação, que nos brindam com suas observações sempre oportunas e fundamentadas, até quando demonstram discordância. Ah! Também temos a companhia frequente de um professor que dá aulas para crianças e seguidamente oportuniza que os seus pupilos comentem no blog. O professor João Paulo é louco por cinema e em seu blog aparece como partner de famosas estrelas, em imagens sensacionais! Para completar, temos a nossa dose diária de riso assegurada com a companhia de um padre que não é padre, o Euvídeo, louco por pererecas.

Como veem, posso lhes dizer que é fascinante fazer parte deste blog e desfrutar da interação cotidiana por ele proporcionada. Crescemos todos. É imperdível!

Só para ilustrar - neste momento, minha resenha acerca do livro Inés de Minha Alma já conta com 16 comentários. Para agradecer aos leitores que comentam sobre a obra sugerida, o blog dá o livro de presente para aquele que melhor demonstrar o seu desejo em lê-lo.

Quer conhecer mais e participar? Acesse

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Crédito

Para aqueles que desejam fama e reconhecimento por seus feitos, uma palavra sábia de Catão, o mais velho:

"Dizendo-lhe seus amigos que nas praças de Roma se haviam erigido arcos triunfais e estátuas a outros varões ilustres, e dele haviam se esquecido, respondeu: "Maior crédito meu é que perguntem aos vindouros por que não me puseram estátua, do que por que a puseram."

In Delenda Cartago, artigo do professor Luís Augusto Fischer, em ZH Cultura, de 14 de novembro de 2009, em que o autor homenageia seu amigo, Aníbal Damasceno Ferreira, contando que, há anos, ele se nega a conceder-lhe entrevista a respeito de como resgatou a obra de Qorpo Santo, quando ninguém dava um pila pelo dramaturgo amalucado e talentoso...e suas consequências.

A resposta de Damasceno Ferreira foi a frase de Catão. Leiam o artigo, no Segundo Caderno, Cultura, de ZH. Um primor.

O belo e o feio

Interessante polêmica instalou-se há algumas semanas, tendo por deflagrador artigo publicado na imprensa pelo historiador Voltaire Schilling, A Cidade das Monstruosidades, em que investiu, ferozmente, contra os monumentos e obras de arte existentes nos espaços públicos da cidade de Porto Alegre, considerando-os monstruosidades e propondo a sua destruição.

Não tardaram os contrapontos e a reação indignada dos artistas e dos especialistas no assunto, como Gaudêncio Fidelis, mestre em Arte pela New York University e doutor em História da Arte pela State University of New York que rotulou de fascista a atitude do historiador, afirmando que "...não é novidade que obras de arte em espaço público desagradem a certas parcelas da população. Sociedades democráticas, entretanto, não propõem a sua destruição, pois isso seria uma atitude fascista, que na mesma moeda de troca sugere uma providência autoritária sobre tudo o que lhes "desagrada". Ao contrário, privilegia-se o respeito à expressão, que é o fundamento básico de democracia..."

Ao argumento do historiador, de que deu "voz ao que a maioria pensa", Fidelis retruca e indaga se o professor realmente sabe que vontade é essa, pois causou (propositadamente) uma grande confusão entre categorias artísticas e adverte que a demagogia nunca busca a clareza, uma vez que privilegia a retórica.

Schilling, em seu manifesto raivoso, desancou a maioria dos monumentos públicos da capital gaúcha, propondo "ação entre amigos" para despachá-los". Ora, isso não é postura de um homem que lida com fatos históricos, um estudioso, em tese, um homem culto, preparado.

Como bem anota seu detrator, não é possível deixar de perceber, no texto belicoso, "as referências subliminares do professor Schilling ao corpo humano, por meio do uso de termos como cuiódromo, vaca premiada e tarugo, de conotação notadamente sexual." O raciocínio culmina com uma apologia à beleza das portoalegrenses, que ele considera "as mulheres mais belas do país", atitude, creio, machista e estereotípica. E arremata Fidelis: "A conclusão parece ser de que as obras de arte públicas deveriam ser tão belas quanto as mulheres gaúchas - afinal, tudo seriam coisas - e nós, portoalegrenses, gostamos de coisas "modernas" e belas, ao menos nas palavras do historiador. Um argumento quase irrefutável."

Pois bem, é muito antiga a discussão sobre o que é belo e o que é feio na arte, sob a perspectiva do olho do espectador de uma obra - seja na pintura, na escultura, na música, na literatura, no teatro, no cinema. Creio que cada pessoa admira ou abomina uma manifestação artística segundo a bagagem cultural que lhe refina o gosto e a sensibilidade. Parece que o professor Schilling desmente essa crença, talvez pelo preconceito, pela arrogância e prepotência de sua manifestação e de outros porquês que não me animo a mencionar, por constrangimento e respeito aos leitores...Aliás, manda o bom senso que não nos manifestemos publicamente sobre aquilo que não conhecemos. Deveria ter ficado calado o professor...

Um documento interessante e esclarecedor sobre o assunto - O Belo e o Feio na Arte Contemporânea, foi produzido por minha irmã, Marcia Andres Finamor, na conclusão de seu curso de Artes Plásticas, na Unijuí, em que mereceu nota 10, com louvor. Vou procurá-lo e disponibilizar o estudo a quem se interessar.

A propósito, a Bienal do Mercosul é uma ótima oportunidade para exercitarmos nosso senso estético.

* "Olhos Atentos", obra de José Resende, comissionada pela 5ª Bienal, foi concebida especialmente para Porto Alegre. Funciona como um mirante, de frente para o Guaíba e já faz parte do imaginário da cidade.

sábado, 14 de novembro de 2009

Uma lição ao país sem memória

O artigo publicado no http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/, que reproduzo abaixo, mostra, com muita clareza, a diferença comportamental do presidente Lula em relação ao ex-presidente Fernado Henrique Cardoso, na condução dos assuntos econômicos, sociais e políticos do Brasil:

Em muitos anos de silêncio, Dilma Rousseff consolidou a imagem da superministra onisciente e arrogante. Em poucas semanas de verborragia, sobrou a arrogância. “Tudo o que a oposição não quer é que comparemos o governo do presidente Lula com o anterior, porque o anterior perde de 400 a zero”, disse há dias a candidata. Só uma oposição exemplarmente inepta ouve em silêncio esse hino à soberba sem reduzir a autora a suas dimensões liliputianas.

Releiam, por exemplo, o que acaba de dizer a gerente-geral da República sobre o apagão rebatizado de blecaute. “Para o sistema ser 100% seguro, seria muito mais caro e nós teríamos que pagar uma conta de luz bastante mais gorda do que nós pagamos. Porque nenhum país do mundo tem esse nível de redundância”. Em seguida, confrontem a conversa de colegial tatibitate com qualquer trecho do depoimento de Fernando Henrique Cardoso que começou a ser publicado. Foram quase duas horas de conversa sem agressões ao idioma ou à lógica.

Fica claro que o Brasil é que atingirá um altíssimo “nível de redundância” se, depois do monumento à ignorância, eleger a fraude de terninho, diariamente escancarada por algum falatório sem pé nem cabeça. Dilma não sabe o que diz, não diz o que sabe e não sabe dizer coisa com coisa. Pode-se discordar de coisas que Fernando Henrique diz, mas é possível entender tudo o que está dizendo. Também por isso a entrevista foi alojada na seção O País quer Saber.

Milhões de jovens que não conheceram o Brasil devastado pela inflação precisam conhecer o homem que derrotou o inimigo aparentemente invencível. Os brasileiros de todas as idades precisam lembrar que é possível presidir o Brasil sem escorregar em bravatas, bazófias, grosserias. Precisam também reaprender que diploma não é prontuário, que saber não é defeito e, sobretudo, que a formação escolar indigente jamais será virtude.

FHC pratica com naturalidade o convívio dos contrários só permitido a quem enxerga os erros que cometeu, sabe contemplar-se com ironia, não se considera onisciente nem dá conselhos ao mundo e conhece a diferença entre a divergência democrática e o ataque boçal. Ao longo do depoimento, sem renunciar ao tom crítico, contempla Lula com o respeito que, dias depois da entrevista, novamente lhe seria negado pelo sucessor.

Num artigo publicado no Estadão, o ex-presidente amparou-se em sólidos argumentos para apontar os riscos embutidos no “autoritarismo popular” que marca a Era Lula, e pode instituir no Brasil uma espécie de subperonismo. Lula não sabe quem foi Perón, nem o que quer dizer subperonismo. Incapaz de sustentar um debate civilizado com quem pensa, refugiou-se no reducionismo de praxe. É inveja, decidiu.

Revejam o que andam dizendo a mãe do Pac e o maior dos governantes, comparem a discurseira com o depoimento do ex-presidente. Fernando Henrique não tem motivos para invejar os dois. Dilma tem mais de 400. Lula, que vê o mundo em forma de urna, tem pelo menos duas derrotas no primeiro turno.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Cientistas em êxtase. Tem água na Lua!

A Nasa anunciou hoje a descoberta de água na lua, situação que abre um novo capítulo na prospecção do satélite terrestre. Os segredos da Lua, aos poucos, vão sendo revelados, após bilhões de anos, para o deleite de cientistas e entusiastas do espaço", informa, radiante, a agência espacial americana.

No dia 9 de outubro, a Nasa fez a sonda LCROSS e seu foguete Centauro se chocarem no fundo da cratera Cabeus, no polo sul da Lua, em uma operação que buscava confirmar a presença de água no satélite natural da Terra.

A colisão levantou uma coluna de material do fundo de uma cratera que não recebeu a luz do Sol por bilhões de anos, explicou a agência. Esta primeira parte era uma coluna de vapor e poeira fina. O segundo material expelido era mais pesado.

Cientistas especulam há muito tempo sobre a fonte de grande quantidade de hidrogênio observada nos polos lunares. As descobertas da LCROSS adicionam informações na questão da água, que pode estar mais espalhada e numa quantidade maior do que se pensava anteriormente.

É este o êxtase! Nada romântico... Espero que os cientistas não acabem furando a Lua, de tantas explosões e perfurações exploratórias, provocando um apagão permanente, inutilizando-a para aqueles que realmente precisam dela - os poetas.

Fonte: Zero Hora.com

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Memória das trevas

Ainda não se tem ideia do que causou o apagão que deixou quase metade do território brasileiro às escuras, ontem à noite. As autoridades continuam negando que o problema tenha acontecido na hidrelétrica de Itaipu, a maior geradora de energia para o Brasil e o Paraguai. Especula-se que a treva tenha advindo de pane nas linhas de transmissão do sul e do sudeste. A energia só foi restabelecida totalmente no começo da manhã, às 5h.

Espera-se, agora, a palavra do Operador Geral do Sistema, para esclarecimento das causas do sinistro. De qualquer maneira, alguma coisa não vai bem no sistema. Acidente atmosférico ou qualquer outra explicação plausível não podem esconder que a gestão do sistema de transmissão ainda é frágil.

Fica a indagação. Um país que pode ficar no escuro por horas a fio sem saber por quê, com autoridades incapazes de dar explicações e que ignoram os meios eletrônicos existentes para informar o que se passa (não havia uma linha sobre o assunto nos sites oficiais do governo), está com um grande problema. Há que se recuperar a memória das trevas.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Precisa explicar?

A charge é um instrumento fantástico de comunicação em que o artista representa a realidade através de imagens e palavras, articulando, harmoniosamente, a linguagem verbal e a não-verbal.

A charge não se limita apenas em ironizar, mas acrescenta ao cômico, criado pela deformação da imagem, um dado singular - a crítica , que pretende levar o leitor a solidificar sua posição acerca de determinado aspecto da realidade, principalmente fatos ou situações políticas.

Aprecio muito a expressão artística de Sponholz, Amarildo, Marco Aurélio, Iotti, Elias, Tiago Recchia, Pancho, Benett e os nossos talentosíssimos conterrâneos Santiago (Neltair Abreu) e Sidnei Garcia, o Sid, do jornal Expresso Ilustrado.

A charge acima é de Tiago Recchia, da Gazeta do Povo, de Curitiba.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Vida, milagre, sabedoria & paciência

Nilson Souza, sensibilíssimo colunista de Zero Hora, escreve, hoje, que, em seu calendário de mesa, há uma frase de Albert Einstein: "Existem apenas duas maneiras de ver a vida. Uma é pensar que não existem milagres e a outra é que tudo é um milagre."

E fala sobre a pressa que toma conta das pessoas quando o ano se aproxima do fim, dizendo que é um "...tempo de bipolaridade, de euforia e depressão."

E indaga: "Temos pressa de quê?

Se não existem milagres, é bom que façamos as coisas devagar e bem-feitas, já que a construção do mundo depende da nossa inteligência e da nossa capacidade de realizar. Se tudo é fruto de um prodígio acima da nossa compreensão, de um sopro no barro ou de uma explosão galáctica, mais razão ainda para curtir com gosto e prazer a parte que nos toca. Como não posso parar o planeta, nem fazer a vida recuar, faço o que está ao alcance de minhas mãos e retrocedo duas folhas no calendário. Encontro em setembro uma frase de Santo Agostinho - ou atribuída a ele, sempre é bom frisar - que talvez seja a resposta para esta angustiada reflexão: "Não há lugar para a sabedoria onde não há paciência."

Então, caros, a paciência é uma virtude, especialmente praticada pelos sábios. Milagre? Não, hábito!

Lista de compras

A 55ª Feira do Livro de Porto Alegre está bombando! É por isso que não ando aparecendo muito, no blog, ultimamente... Já tenho comigo Caim, de José Saramago; Baudolino, de Umberto Eco; A Parede no Escuro, de Altair Martins (Prêmio São Paulo de Literatura 2009. Gente nova, talentosa!) e Balaio de Causos, de Odilon Abreu.

Ainda quero adquirir O Tempo e o Cão, de Maria Rita Kehl, Rimas da Vida e da Morte, de Amós Oz; e Manual da Paixão Solitária, de Moacyr Scliar (Prêmio Jabuti, Livro do ano!)

E procurando...A lista não tem fim!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Mais anotações: O elogio da lentidão

O que mais se cobra hoje em dia é velocidade. As pessoas têm que ser rápidas, ágeis e eficientes. O sucesso é ser veloz!

Como não sou veloz e gosto das coisa bem feitas, bem pensadas e saboreadas, achei uma preciosidade o artigo de Cláudia Laitano no jornal Zero Hora de sábado, 31 de outubro.

Conta ela que o ensaísta e crítico literário Antonio Candido, há pouco mais de três anos, durante a inauguração de uma biblioteca do MST, em São Paulo, do alto de seus 90 anos, "ousou contrariar um dos clichês mais universais da nossa época."

Antonio Candido assim disse: "Acho que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamin Franklin, 'tempo é dinheiro'. Isso é uma monstruosidade. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo; esse tempo pertence a meus afetos, é para amar a mulher que escolhi, para ser amado por ela. Para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis: isso é o tempo. E justamente a luta pela instrução...é a luta pela conquista do tempo como universo de realização própria. A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: 'eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize'. As bibliotecas, os livros, são uma grande necessidade de nosa vida humanizada...o amor pelo livro nos refina e nos liberta de muitas servidões."

Em sua crônica, Cláudia ainda comenta que a psicanalista Maria Rita Kehl já havia começado a escrever um ensaio sobre relação entre o modo vivemos neste comecinho do século 21 e a explosão do número de casos de depressão no mundo inteiro quando se deparou com a frase de Antonio Candido e teve um "clique teórico". Em seu livro O Tempo e o Cão está o resultado dessa inquietação - a depressão que invade, devassa e devasta os escravos do tempo - como uma reação psíquica ao excesso de coisas que somos cobrados a fazer o tempo todo, inclusive quando deveríamos estar apenas nos divertindo, brincando, sem compromisso agendado...O resultado óbvio é que "o sujeito deprimido pula do trem em movimento da vida contemporânea e fica à margem dos acontecimentos - não por escolha própria, mas por falência geral da engrenagem interna que o faz funcionar no ritmo exigido."

Pois então, senhoras e senhores à beira de um ataque de nervos, tratem de arrumar tempo para viver, para ver a grama crescer, o rio correr, a lua nascer, o sol despontar e o que mais sempre quiseram fazer mas sentiam-se proibidos pela exigência diuturna do produzir, produzir, produzir. Ah! E o fundamental! Ler, ler, ler! Daí brota a fonte da vida! Sem medo de perder tempo... e sem vergonha de se sentirem... humanos!

Anotações & Reflexões

Depois de alguns dias em branco, Interface Ativa! volta a preencher a pauta com algumas anotações e reflexões advindas do final de semana prolongado, tórrido e de muita leitura.

Martha Medeiros, escritora festejada e excelente cronista de Zero Hora, nos ofereceu, no Caderno dominical Donna, um texto comovente por sua profundidade e sutileza, suscitando uma série de indagações - O último a lembrar de nós. Martha faz referência ao livro de Amós Oz, Rimas da Vida e da Morte, em que o autor comenta, a certa altura da narrativa: "A gente vive até o dia em que morre a última pessoa que lembra de nós. Pode ser um filho, um neto, um bisneto ou um admirador, mas enquanto essa pessoa viver, mesmo a gente já tendo morrido, viveremos através da lembrança dele. Só quando essa pessoa morrer, a última que ainda lembra de nós, é que morreremos em definitivo, para sempre. Estaremos tão mortos como se nunca tivéssemos existido."

Esta crônica deve ter mexido com a sensibilidade de muitas pessoas, não só com a minha, por suposto. O que fazemos para preservar a memória das pessoas a quem amamos e já partiram? Lembramos delas constantemente, só no nosso coração, onde estão instaladas para sempre, ou fazemos questão de lembrá-las aos filhos, sobrinhos, netos, bisnetos, amigos comuns e admiradores?

Lendo a crônica da Martha, lembrei de meu pai e de como fazemos questão, em família, de perpetuar sua memória, de tão boas lembranças, ações e atitudes. Só um de meus nove sobrinhos conheceu o Avô Luiz - a Marcela, ainda muito pequena, tinha só três anos quando ele faleceu. Mas todos sabem como o avô era, o que ele fazia, do que ele gostava, o que ele nos ensinava. Sabem mais - podem sentir a felicidade que o avô teria se pudesse conhecê-los e conviver com eles, tal a força do amor deste homem a quem tivemos a honra de chamar de Pai! Talvez seja por isso que, mesmo de maneira inconsciente, frequentemente me refiro a ele, em meus textos, exaltando suas qualidades e relembrando alguns momentos marcantes de nossa convivência...

Martha, em seu texto, também refere que grandes músicos, cineastas, escritores e gente que se notabiliza por alguma razão específica conseguem uma "imortalidade estendida", mas serão sempre lembrados "por sua imagem pública, não mais a privada - não mais a lembrança da voz ao acordar, da risada, do bom humor ou do mau humor, não mais daquilo que lhe personificava a intimidade..."

E fiquei a pensar. Nós somos mesmo muito passageiros, efêmeros, medíocres - Vivemos num mundo cheio de competição e violência e dele não vamos levar nada. Muitos não vão deixar nem mesmo alguma lembrança do que foram na intimidade, porque não tiveram tempo de construí-la.

Inevitavelmente, pensei no modo como gostaria de ser lembrada. Uma mulher terna, doce, que amava a vida, embora, muitas vezes, tivesse medo de enfrentá-la. E perfeita, sim, na capacidade de amar...