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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

As pessoas e as instituições

Reproduzo o comentário do cientista político Murilo Aragão, publicado no blog do Noblat, acerca da crise que desconstroi o Senado Federal por entendê-lo um exercício muito bem fundamentado enquanto análise de performance das pessoas e da instituição.

"Na análise política existe uma disputa entre várias correntes ideológicas. Sem querer mergulhar em um terreno considerado árido para muitos, trago a questão para analisar a crise que envolve o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).


Ou será a crise do próprio Senado? Na análise política, existe uma corrente em que as pessoas são foco central de estudo. Para outra, são as instituições o ponto principal. Na Arko Advice, empresa especializada em análise de cenários políticos desde a década de 80, a fórmula utilizada incorpora as duas teorias.

Ao levar a reflexão para a crise Senado-Sarney, o entendimento do processo se ancora no exame das pessoas e das instituições, a partir de uma perspectiva histórica. Nessa direção, é natural que a “fulanização” da crise perca força gradativamente, uma vez que é necessário, em primeiro lugar, entender a instituição.
Apesar de a imprensa tratar a crise como exclusivamente do Sarney, ela é, na verdade, do Senado. Pois outros focos do problema estão identificados. O presidente da Casa é apenas parte de um grande mal que afeta uma das instituições mais importantes do Brasil.

Lá, em especial, as relações entre indivíduos e instituição revelam-se doentias. A crise nasce de uma disputa de poder e mostra a face perversa de uma aliança de interesses. Mais do que acusar um ou outro, o problema está no funcionamento do Senado e na relação dos parlamentares com a burocracia interna.

Assim, afastar Sarney e retaliar Arthur Virgilio poderia até mesmo diminuir o incêndio. Mas não será suficiente para arrefecê-lo definitivamente. O fato é que não há uma solução viável de curto-prazo já que a crise apresenta aspectos sistêmicos.

Seus focos estão na administração do Senado, mas refletem no destino de determinados grupos políticos. Para não faltar com a verdade, ela atinge – em maior ou menor grau – quase todos os partidos políticos. A única forma de se obter uma melhoria expressiva na qualidade da instituição é a manutenção do controle – por meio da imprensa e da sociedade organizada – do seu funcionamento.

Na prática, a participação qualitativa da sociedade pode fazer alguma diferença. Porém, não é uma solução de curto-prazo. Não devemos esperar uma elevação do nível da política de uma hora para outra. O Brasil é uma federação onde, em matéria de política, pouco une.

Para piorar, em virtude do excesso de detalhes, faz com que exista grande disparidade. Outro fator que impede uma solução rápida é a fragilidade institucional do Legislativo, muitas vezes considerado, equivocamente, um problema. Além disso, os líderes não conseguem passar credibilidade à sociedade. Fica claro que temos dois patamares de avaliação: as características da instituição e a qualidade das lideranças.

Na política, sempre existe uma elevada dose de risco ao se tomar decisões. Por exemplo, a defesa de Sarney errou ao elevar o tom contra oposicionistas. Errou ainda quando censurou o jornal O Estado de São Paulo. A imprensa, como instituição, se sente diretamente atingida com a decisão do clã Sarney.

Portanto, um ato pode acalmar ou acirrar os ânimos. A escalada de acusações pode prosseguir alimentada por novas denúncias. A macro-tendência indica que a crise deve acabar em uma espécie de recuo generalizado. Mas a essa altura dos acontecimentos, com ânimos exaltados, a incerteza é a única tendência."

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