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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Crônica de uma morte anunciada

O jornal mais famoso do mundo, o The New York Times, está em agonia. E segue a passos firmes para um desfecho provável - vai fechar ou ser vendido. Foi engolido pela crise econômica, pela má-gestão e pelo avanço da internet, o fenômeno arrasa-quarteirão de todas as mídias.
Segundo reportagem da revista Veja, na quarta-feira passada, no alto da página 6 do caderno de economia do Times, uma reportagem noticiou que o grupo proprietário do jornal teve um prejuízo de 74,5 milhões de dólares no primeiro trimestre do ano, advindo da queda na receita publicitária em papel (28,4%) e na internet (8%) e lembrou que o prejuízo de agora é superior ao registrado no primeiro trimestre do ano passado, que ficou em 335.000 dólares. O conteúdo da reportagem é expressão de duas marcas do Times, uma legendária, outra tenebrosa: a excelência de seu jornalismo, que acaba de lhe render cinco Pulitzer, o prêmio mais prestigiado da imprensa americana, e a sua dramática situação financeira. Tão delicada que já se ouve uma pergunta que, pouco tempo atrás, era impensável: o Times vai fechar ou ser vendido?

Pelo mundo afora, os jornais ressentem-se de uma combinação de fatores desfavoráveis: a recessão mundial, que reduz os gastos com publicidade, e o avanço da internet, que suga anúncios, sobretudo os pequenos e rentáveis classificados, e também serve como fonte, em geral, gratuita, de informações. Mas em nenhum outro lugar a tormenta é tão assustadora quanto nos Estados Unidos. A crise econômica diminuiu drasticamente os dois maiores anunciantes – o mercado imobiliário e a indústria automobilística – e a evolução da tecnologia, com seu impacto arrasador na disseminação da informação, se dá numa velocidade alucinante no país. (Agora mesmo, o Twitter, misto de microblog com site de relacionamento passou a ser usado por celebridades, e explodiu: captura 8.300 novos adeptos por hora.)

No New York Times, a recessão e o estrago da internet se somaram a decisões duvidosas do grupo empresarial, como a compra do Boston Globe e a construção de uma suntuosa sede na Oitava Avenida, no coração de Nova York. Hoje, o grupo deve 1,1 bilhão de dólares. Já vendeu parte do novo prédio, por 225 milhões de dólares, e tomou emprestados 250 milhões com o bilionário mexicano Carlos Slim, dono da Claro e da Embratel no Brasil. Em 2002, o Times valia 5 bilhões de dólares e sua ação, 52 dólares. Hoje, seu valor caiu para 700 milhões e sua ação é negociada por volta dos 4 dólares – preço de sua edição dominical na banca. "Os analistas acham que, com a venda da sede e o empréstimo, o Times ganhou dois anos de sobrevida", diz Penny Abernathy, que trabalhou com Arthur Sulzberger Jr., da família que controla o jornal desde 1896.

O fechamento de um jornal é o fim de um negócio como outro qualquer. Mas, quando o jornal é o símbolo e um dos últimos redutos do bom jornalismo, não importa quanto isso custe, como é o caso do Times, morrem mais coisas com ele. Morrem uma cultura e uma visão generosa do mundo. Morre um estilo de vida. Nos EUA, a agonia dos jornais tem impacto especial pelo papel histórico que tiveram na construção da democracia e na introdução de uma relíquia constitucional – a garantia da liberdade de expressão, que ocupa lugar vital nos valores americanos. O dramático é que muitos leitores não parecem incomodados com a ameaça sobre os jornais. Uma pesquisa mostra que 42% dos americanos sentiriam "pouco" ou "nada" se seu jornal fechasse.

Especula-se que o Times poderia operar só na internet de segunda a sábado, preservando em papel a edição dominical – nela, anúncio avulso em cor e página inteira custa 270.000 dólares. Mas ninguém descobriu como viabilizar-se financeiramente na internet, arrecadando o bastante para bancar um jornalismo de alto padrão. O site do próprio Times é um bom exemplo. É uma pérola do jornalismo on-line. Com 20 milhões de visitantes por mês, oferece perfis e gráficos interativos, tem um arquivo com matérias do século XIX, áudios e vídeos de qualidade irretocável e oferece links até para a concorrência. Mas não se sustenta. Para mandar repórteres ao Darfur, à Amazônia ou ao Tibete, o Times gasta 200 milhões de dólares por ano. Sai caro, mas talvez isso esteja ficando desimportante aos olhos de um público aparentemente satisfeito com a qualidade – deplorável – do que se produz na internet. A febre atual nos EUA é o "jornalismo cidadão", já com mais de 450 blogs. O "jornalismo cidadão" é feito por qualquer um que tenha conexão com a internet e seja alfabetizado (ou quase). É até divertido. Mas será pior um mundo em que iniciativas amadoras substituam o jornalismo profissional na busca, seleção e difusão de informações de qualidade.

O Times, segundo a reportagem de Veja, está se contorcendo para manter o padrão do seu trabalho. "Já cortamos na cobertura nos arredores de Nova York", diz Bill Keller, o diretor do jornal. "Mas o grosso da nossa cobertura, que é a reportagem no exterior, em Washington, em economia, na cultura, isso não foi afetado. A empresa trabalha para preservar o jornalismo." Quem acha que a internet é o nirvana da democratização da informação precisa lembrar que o Google tem seu quase monopólio – e divulga notícias de "25.000 fontes" sem pagar um tostão por elas. E quem acha que a internet, por sua natureza virtual, dissemina mais informação e eleva a cultura das massas precisa ir devagar. O site do Times, com seus 20 milhões de usuários, é o maior site de jornal do mundo. Mas, em média, seus visitantes ficam no site 35 minutos por mês. Ou 1,10 minuto por dia. Não dá tempo de ler nem um gibi. É como se os internautas passassem numa banca, dessem uma olhada nos títulos expostos e fossem embora. Sem ler nada.

Isso é perturbador. Amo o jornal impresso. Adoro manuseá-lo. Pegá-lo várias vezes durante o dia. Sempre a algo mais a ler, a compreender. É inspirador. Não sei como estará a situação dos jornais brasileiros. Não muito melhor, por certo, já que a aldeia é global...


Fonte: Revista Veja

Um comentário:

helo flores disse...

É, menina...sinal dos tempos.
Também tenho muita pena, gosto do contato com o papel, de manusear jornais e revistas, enquanto leio. Mas há coisas que vieram prá ficar.

Fico contente por acompanhares o blog, a idéia é mesmo esta de também passar um pouco do que vejo por aqui.
Obrigada pelo carinho e um grande abraço. Também acompanho o teu blog, direto. É um jeito gostoso de ficar a par do que está acontecendo por aí e de ter uma opinião crítica sobre as coisas do mundo.
Gosto mesmo de ler o que escreves.

E os filmes...ah...os filmes. Nem me fala.
Tens toda a razão, assisti ontem a Nunca é tarde demais. Não canso de gostar cada vez mais de um e de outro. Quanto mais velhos ficam, melhores se tornam.
Beijão.
Helô