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sábado, 4 de abril de 2009

Como se constrói uma paixão

Hoje, quando o Sport Club Internacional, mais conhecido como Colorado, completa 100 anos, vou contar uma historinha de como nasceu a paixão da família Andres pelo Grêmio. Nada a ver? Tudo a ver! Foi por causa do Inter!

Isso foi lá pelo fim dos anos 60. Meu pai, Luiz Carlos, não tinha preferência clubística. Quando jovem, jogou no Juventude, aqui de Santiago, time da Igreja, organizado pelo Pe. Assis. Mas era só um hobby. Minha mãe, Maria Lidia, também não era ligada em futebol. Nós éramos crianças - Nivia, Nina, Marcia, João Luiz e Carlos Max.

Acontece que tínhamos dois vizinhos que eram colorados doentes - Godofredo Beltrão do Nascimento (Seu Godo) e Agostinho Rodrigues Martins (Seu Neto). Fanáticos. As famílias idem.

Era necessário um contraponto. A Rua Barão do Ladário não podia ser só vermelha...

Antes que eu esqueça, nossas famílias eram amicíssimas, pais e filhos. Pois bem, meu pai começou a torcer pelo Grêmio, de forma a "incomodar" os amigos. Na hora do jogo, o rádio berrava. Se o Grêmio ganhava, era um escândalo, meu pai soltava foguetes, gritava, e nós também, todos gremistas de paixão recente. Até a mãe (seguramente uma das maiores gremistas que conheço, até hoje!). A antena da nossa TV era uma torre, com sete bandeiras do Grêmio, à época do heptacampeonato gaúcho - exageros do Seu Nenê Andres, como era conhecido o meu pai.

Ainda tinha um quarto personagem, o Seu Romano, um negro alto e forte, que também era colorado e vinha participar, diariamente, na Madeireira Andres, da roda de chimarrão e das discussões futebolísticas acirradas... Todos eram "entendidíssimos" de futebol!

Então resolveram os amigos apostar nos resultados dos jogos de Grêmio e Inter. O prêmio - latas de doce de pêssego! A aposta era paga nas segundas-feiras. Lembro que fiquei anos sem poder pensar em comer doce de pêssego, enfarada, de tantas latas que o pai ganhou na época das vacas gordas!

Uma coisa curiosa - se o Grêmio perdia, meu pai não se importava e recebia, de bom grado e sorridente, a flauta dos vizinhos colorados... Agora, se a derrota era do Inter, o Seu Neto aparecia só na terça-feira, para o mate e a prosa. O Seu Godo, só na quinta...e não se falava no assunto. Comentários? Só se fossem sobre a próxima partida...Mas as latinhas eram sagradas! Perdeu, pagou, mesmo sem palavras. Na "impossibilidade" do pai (de cabeça "inchada"), um filho trazia.

Aliás, o bom humor e o espírito do meu pai acerca dos assuntos de futebol era notório e soava estranho para nós, tenros torcedores azuis. Certa feita, o Inter ganhou o campeonato e os vizinhos comemoravam, felizes. Seu Nenê não se apertou, também estourou todos os foguetes que tinha reservado para a vitória que não veio...O João Luiz, meu irmão, não entendeu nada e foi procurar a mãe, com cara de choro: "- Mãe, afinal, a gente é gremista ou colorado?" A mãe o consolou: "- A gente é gremista, filho. O teu pai só está brincando com os vizinhos!". O João ficou aliviado e foi nos encontrar: "- Ainda bem, a mãe disse que a gente é gremista!."

Assim, aprendemos, em família, a respeitar a paixão que nasce das preferências do futebol. Como não vou cumprimentar todos os colorados desta terra, nossos irmãos, cuja paixão hoje faz 100 anos?

São boas recordações. Meu pai, Seu Godo, Seu Neto e Seu Romano, já se foram. Mas o exemplo de amizade, carinho, atenção e saudável maneira de torcer vai permanecer para sempre.

A família cresceu mas continua gremista. Só o Plínio, falecido esposo da Marcia e a Cristina, esposa do Max e sua filha, Ana, preferiram o Inter (com todo o nosso respeito, conforme a melhor tradição e o exemplo do Seu Nenê).

Assim, quando vi o anúncio do Grêmio, em ZH de hoje, cumprimentando o Internacional, lembrei de contar essa história. Chorei às pencas ao escrevê-la. Doce recordação.

2 comentários:

Blog de Edward de Souza disse...

Olá Nivia!

Um artigo delicioso de ler. Confesso-lhe que, assim que vi o título, julguei que você fosse torcedora do Inter. Mas, a forma como vocês começaram a torcer contra é inédita. O bom de tudo, conforme seu relato, era a amizade entre todos. Até as apostas eram originais: latas de pêssegos. No final do seu relato, entendi seus sentimentos. Doces e eternas lembranças daqueles entes queridos que estiveram ao nosso lado e nos propiciaram tantas e tantas alegrias. Um brinde à eles, que nos esperam em outra dimensão: Colorados e grenás.
Abraços minha amiga e parabéns pelo belo texto.

Edward de Souza

Pedro Luso de Carvalho disse...

Cara Nivia,

Gostei muito do seu artigo sobre o aniversário do Internacional, de quem sou torcedor (e secador do Grêmio; às vezes me sinto melhor ao ver o Grêmio perder do que o Inter ganhar, o que, aliás, também acontece com os gremistas); uma bela história a tua, de como se formou uma família de gremista,sem deixar de curtir as amizades formadas em torno dessa paixão grenal.

Um grande abraço,
Pedro.