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quinta-feira, 26 de março de 2009

Quem quer ser um milionário?

Quem Quer Ser um Milionário? (clique e veja o trailer) é um filme que questiona como anda a fé do espectador logo no primeiro minuto. Não a fé religiosa, mas sem renunciar ao cinismo reinante de hoje em dia, é um pouco mais difícil não torcer o nariz para um filme movido a coincidências incríveis. Ou talvez não, já que o filme de Danny Boyle tem conquistado muitos cínicos por aí.

Já no início, o filme expõe a questão - um garoto crescido numa favela indiana e sem uma instrução especial está a uma resposta de vencer o programa de perguntas que dá nome ao título. Será sorte? Será que ele é um gênio? Será uma trapaça? Ou será o destino?

Boyle adaptou o best seller indiano Q & A (Questions and Answers), de Vikas Swarup e concentrou a ação entre os miseráveis da Índia, focando sua lente em três crianças - os irmãos Salim (Azharuddin Mohammed Ismail) e Jamal (Ayush Mahesh Khedekar) e a menina Latika (Rubiana Ali). Eles crescem encontrando-se e separando-se, com o sentimento de proteção de Jamal (Dev Patel, quando adulto) por Latika (Freida Pinto, na versão crescida) rapidamente transforma-se em amor profundo.

É uma opção curiosa e eficaz a de contar a história de uma pessoa através de um jogo de perguntas e respostas. Cada resposta tem relação com uma parte importante da vida de Jamal e a própria razão de ele estar no jogo é mais do que parece.
Tem se falado bastante da semelhança do começo do filme com Cidade de Deus (2002). Uma discussão sem sentindo. Se o filme de Fernando Meirelles estebeleceu uma nova maneira de filmar a favela e Boyle a seguiu, tanto melhor. O fato é que o filme usa este modelo estético e outros com primor, com uma fotografia notável (como na cena da fuga dos meninos à noite, para apanhar um trem) e uma montagem brilhante.

A história corre assim: por um motivo muito forte, o jovem Jamal se inscreve num programa de perguntas na TV para ganhar 20 milhões de rúpias. Ao longo do programa, o espectador descobre mais sobre a vida de Jamal, sua infância pobre nas favelas de Mumbai (antiga Bombaim) junto a seu irmão Salim e a amiga Latika. E o que se vê é mais do que simplesmente uma retrospectiva da vida de Jamal. E a história de uma comunidade inteira, é a regeneração dela através da própria regeneração de Jamal.

A Índia que não vemos na novela das oito é revelada pela câmera crua e envolvente de Danny Boyle – a marca registrada do diretor - a câmera muito perto do movimento, resultando num efeito estonteante, mas paradoxalmente real demais
que assume na primeira infância de Jamal o ponto de vista das crianças. A impressão de que as imagens são mostradas de baixo para cima, e/ou na altura dos olhos delas, ou seja, como elas vêem o mundo; também muito rápida, insinuando a velocidade que aqueles pequenos precisavam ter para se safar dos perigos.

A cada pergunta feita a ele, Jamal vai buscar a resposta na sua jornada, como um herói das narrativas mais antigas do mundo. Tudo o que ele viveu no passado se transforma em algum tipo de conhecimento ao qual ele atribui significado no momento presente, acionado pelas perguntas do programa e decifrado pelo seu depoimento na delegacia de polícia. Na sua imensa e intensa necessidade de apreender todo e qualquer conhecimento à sua volta, Jamal aguça sua percepção ao longo de sua jovem vida, a princípio para fugir da morte e viver mais um dia. Porém, naquele momento em que está no programa, juntando tudo o que aprendeu, Jamal está no limiar do próximo passo lógico de sua existência: seu renascimento. E a partir daí começará a realmente viver e usufruir dos frutos de sua coragem, lealdade e obstinação.

O processo de individuação de Jamal é compartilhado com o incrédulo oficial de justiça – que pede explicação a cada pergunta que Jamal teria acertado… Como um favelado poderia saber tudo aquilo? Sabia. E o que não sabia, intuía...

Contudo, para o público bastou saber que Jamal veio de um passado nas favelas e que hoje era um servente de chá num call center. Eles sabem por que Jamal sabe as respostas. Há uma solidariedade silenciosa entre eles, e não há perguntas do público para Jamal… Eles simplesmente torcem para que ele ganhe. E vejam a repercussão do filme: os indianos favelados assistiram, torceram e comemoram muito a vitória desse filme na cerimônia do Oscar.

Assistam. Vale a pena. Principalmente se for numa sala de cinema. É muito mais emocionante!

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