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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Endeusamento e autoendeusamento

Froilam de Oliveira aborda, em seu Contraponto, com propriedade, uma situação que se desenrola no âmbito da "blogosfera", como diz ele - "o endeusamento que ela vem fazendo de certas pessoas. Endeusamento e autoendeusamento." E questiona se está contribuindo para isso. Certamente que não, Froilam. Estás radicalmente apartado desse processo por tua coerência e autocrítica constantes. O "endeusamento" e o "autoendeusamento" são fenômenos comuníssimos na mídia, seja em que veículo for. Rádio, jornal, TV ou qualquer mídia eletrônica. Na blogosfera o mecanismo está sendo notado agora porque o meio é relativamente novo entre nós, na província. Endeusamento e autoendeusamento também podem ser processados na língua com uma variedade de significados, todos apropriados - competição (do tipo vamos ver quem é o(a) melhor, quem tem mais seguidores, quem recebe maior número de comentários, quem tem mais acessos); autoafirmação; ciúme de outrem que se destaca por sua inteligência, competência, aceitação pública e credibilidade; autossuficiência; arrogância; despeito etc. E o blog, por seu formato, se presta exemplarmente para essas demonstrações porque, na maioria das vezes, é utilizado como diário.

Como muito bem argumenta José Saramago, em seu livro de memórias Cadernos de Lanzarote, o diário é um instrumento particular de comprazimento próprio. E segue: "Escrever um diário é como olhar-se num espelho de confiança, adestrado a transformar em beleza a simples boa aparência ou, no pior dos casos, a tornar suportável a máxima fealdade. Ninguém escreve um diário para dizer quem é. Por outras palavras, um diário é um romance com uma só personagem. Por outras palavras ainda, e finais, a questão central sempre suscitada por este tipo de escritos é, assim creio, a da sinceridade."

Pois bem, no universo da mídia (e dos blogs, portanto) a competição é elemento presente. A necessidade de afirmação, também. A de demonstrar superioridade, idem. Blogs gestam e geram Narcisos. Nem todos(as), obviamente, são Narcisos. Mas alguns não podem prescindir de admirar sua imagem nas águas ou, mais especificamente, nas ondas da "blogosfera".

Acho particularmente uma delícia observar e detectar essas "crises" de estrelismo. Elas me divertem muito, me desculpem o Froilam e seu amigo radialista. Os Narcisos e seus coadjuvantes ou compactuantes não devem ter mais nada a fazer ou a aprender do que observar sua imagem reproduzida num comentário elogioso ou até mesmo num insulto, desde que seu nome seja mencionado.

Remédio para a idiossincracia o Froilam já receitou - Autocrítica. Um pitada por dia já é suficiente, porque o princípio ativo acumula no organismo e recupera o vivente, se já não estiver irremediavelmente contaminado!

Ah! Esqueci de uma coisa importantíssima. Da liberdade de expressão. Cada um é dono de seu próprio nariz. Escreve e fala o que quer, quando quer e como quer. Da mesma forma, também podemos exercer o direito de escolher ler e ouvir.

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