Acompanhando Interface Ativa!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Como salvar os jornais (e o jornalismo)

Walter Isaacson, ex-editor da revista Time e atual presidente do Instituto Aspen, em recente palestra na Universidade de Riverside, Califórnia, abordou a crise que assola o jornalismo impresso, especialmente no que se refere à disseminação das informações na internet e à gratuidade dos serviços prestados, levantando algumas questões que considero muito pertinentes e passíveis de discussão mais profunda.

Inicialmente Isaacson menciona "um fato chocante e algo curioso a respeito desta crise - os jornais têm hoje mais leitores do que nunca. O seu conteúdo, assim como o das revistas de notícias e de outros produtores do jornalismo tradicional, é mais popular do que jamais foi - até mesmo (na verdade, especialmente) entre o público jovem."

E levanta o problema específico: "um número cada vez menor de leitores está pagando pelo que lê. As organizações jornalísticas estão distribuindo gratuita e alegremente as suas notícias. De acordo com um estudo realizado pelo Centro de Pesquisas Pew, no ano passado houve uma virada marcante: nos Estados Unidos, as notícias gratuitas disponíveis na internet foram mais procuradas do que os jornais e revistas pagos que publicavam o mesmo conteúdo. Quem pode se espantar com isso? Até mesmo eu, um antigo viciado em publicações impressas, deixei de assinar o New York Times, porque se o jornal não acha justo cobrar pelo acesso ao seu conteúdo, eu me sentiria um tolo pagando por ele."

Tradicionalmente, jornais e revistas trabalham com três fontes de receita: as vendas nas bancas, as assinaturas e a publicidade. O novo modelo de negócios fia-se apenas na terceira dessas fontes. O resultado é uma cadeira de um pé só, de equilíbrio sempre tênue, por mais forte que esse pé seja. Quando o seu apoio fraqueja - o que incontáveis editores viram ocorrer como resultado da recessão - a cadeira não pode se manter de pé.

E segue Isaacson em sua elaboração do processo da crise: "Nos últimos meses, testemunhamos o fechamento completo de uma série de jornais locais, vimos a Tribune Company (dona do Los Angeles Times) pedir concordata, a Lee Enterprises ser retirada da lista da Bolsa de Valores de Nova York e o anúncio de uma nova rodada de demissões de fim de ano na Gannet e em outras empresas, reduzindo sua força de trabalho em 10% ou mais.

Henry Luce, cofundador da revista Time, desdenhou da noção das publicações gratuitas que dependem apenas da receita proveniente da publicidade. Ele chamou esta fórmula de "moralmente repugnante" e também de "economicamente inviável e derrotista". Isso porque ele acreditava que o bom jornalismo exigia que o compromisso primário de uma publicação fosse com os seus leitores, e não com os seus anunciantes. Num modelo em que a única fonte de renda passa a ser a receita publicitária, o incentivo é perverso. Ele é também inviável e derrotista porque, afinal, o elo de uma publicação com o público leitor vai definhar se ela não sentir que a sua renda é diretamente dependente desse público. Os jornais acabarão produzindo vários cadernos especiais sobre decoração e jardinagem, coisa que desejam os anunciantes, e terão de se livrar dos cadernos de resenhas literárias, como já fizeram o Los Angeles Times e o Washington Post."
Uma opção de sobrevivência adotada por publicações como o Christian Science Monitor e a Detroit Free Press, é eliminar ou reduzir drasticamente as suas edições impressas e se concentrar nas suas páginas gratuitas disponíveis na internet. Essa será uma das tendências para o futuro. Outras podem tentar suportar a crise eliminando a concorrência e rezando para que possam garantir uma fatia do mercado publicitário que viabilize a sua existência enquanto sites gratuitos.

A proposta de Isaacson é diferente: as organizações jornalísticas deveriam serem pagas pelos usuários em função dos serviços prestados e do jornalismo produzido. E arremata: "se isso ocorrer, a implosão da publicidade em 2008 trará consigo o benefício de ter criado uma estratégia de negócios que permita às publicações o estabelecimento de um vínculo mais forte com os seus leitores."

Atualmente, a maioria dos jornais e revistas (no Brasil, inclusive) cobram pelo acesso às suas edições eletrônicas por meio da exigência de uma assinatura mensal e essa é uma tendência mundial. Mas Isaacson não crê que essa seja a única maneira de cobrar pelo acesso ao conteúdo. Uma pessoa que deseja acessar a edição do dia de um jornal ou que é levada a um artigo interessante por meio de um link dificilmente vai pagar o preço de uma assinatura e se submeter às inconveniências dos desajeitados sistemas de pagamento atuais. Ele acredita que a chave para atrair renda por meio dos serviços oferecidos na rede seja estabelecer um sistema de micropagamento simplificado, algo como moedas digitais ou um sistema semelhante a um bilhete único ou uma carteira eletrônica - um sistema de interface extremamente simples que permita, por meio de um clique, as aquisições casuais de jornais, revistas, artigos, acesso a blogs ou vídeos, a preços ínfimos ou seja quanto for que o seu autor deseje cobrar.

O sistema poderia ser empregado, entende Isaacson, para todos os tipos de mídia: revistas e blogs, jogos e aplicativos, transmissões televisivas e vídeos amadores, imagens pornográficas e monografias programáticas, reportagens de cidadãos jornalistas, receitas de grandes chefs e músicas de bandas alternativas. Isso não apenas garantiria a sobrevivência das formas tradicionais de veiculação de mídia como também estimularia os cidadãos jornalistas e os blogueiros. "Eles enriqueceram muito o nosso universo de informações e ideias, mas a maioria deles não ganha muito dinheiro com isso. Como resultado, tendem a insistir na atividade simplesmente para satisfação pessoal ou como forma de cumprir algum dever cívico e costumam vir da elite privilegiada."

Mas um sistema de micropagamento também ofereceria uma outra opção. Jornais que avaliassem o valor da sua produção diária na casa de US$ 0,10 - e cujos leitores concordassem com este valor - poderiam acabar cobrando US$ 0,10, aumentando assim sua chance de sobreviver e até de prosperar. As pessoas trabalhando num jornal como esse sairiam de suas camas todos os dias motivadas pelo digno incentivo de produzir um jornal que os leitores considerassem valer ao menos US$ 0,10. Aqueles que acreditam que todo o conteúdo deve ser gratuito devem refletir sobre quem abriria sucursais em Bagdá ou voaria até Ruanda para trabalhar como freelance dentro de um tal sistema.

Durante as últimas semanas, por exemplo, estive muito interessado nos acontecimentos na Faixa de Gaza e como esses afetariam o status do Hamas. Procurei as reportagens inteligentes e matizadas de Ethan Bronner, do New York Times, de Griff Witte e Jonathan Finer, do Washington Post, e de Ashraf Khalil, do Los Angeles Times. Todos eles são muito informados sobre a região. Têm a coragem e a engenhosidade de chegar até a Cidade de Gaza e as muitas vilas mais ao sul. Eu valorizo isso enquanto leitor e acredito que o mundo como um todo valorize o fato de os seus jornais estarem dispostos a pagar seus salários e suas despesas - e contarem com os recursos necessários para tal finalidade - para que eles possam satisfazer nosso desejo por informação independente.

Assim, espero que 2009 seja o ano em que alguns bons jornais e outros criadores de conteúdo valioso comecem a cobrar pelo acesso ao mesmo. Também digo isso porque amo o jornalismo. Acredito no seu valor para a sociedade e acho que ele deve ser valorizado pelos seus consumidores. Acho que precisamos dele para preservar a saúde das nossas comunidades locais, da nossa democracia nacional e do nosso mundo.

Nessa nova era digital, a definição do jornalismo está mudando. Não se trata mais de algo que é escrito na pedra e concedido ao público pelos altos sacerdotes da profissão e pelas principais empresas de mídia. Ele pode assumir formas que sejam, felizmente, mais pessoais e opinativas e cheias de atitude. O jornalismo tem a habilidade de ser mais interativo, colaborativo, "wikipédico", produzido pelos leitores e de borrar a distinção entre o jornalista sagrado e o cidadão consumidor.

Mas certas características definidoras do jornalismo não deveriam ser mudadas. Esses valores centrais permanecem no núcleo do jornalismo do qual nós necessitamos enquanto comunidade humana. O jornalismo precisa tentar preservar sua credibilidade. Seus praticantes precisam ter a mente aberta e ser honestos conforme reúnem e transmitem informações, seja da Faixa de Gaza ou da prefeitura local. Nós, leitores e consumidores, precisamos poder confiar neles - precisamos saber que eles estão tentando servir a nós e não a algum objetivo secreto. Eles precisam ter como objetivo a verdade. "A ideia de que haja algo como a verdade foi muito mal falada nos últimos 30 anos", disse Kurt Andersen na conferência realizada no Instituto Aspen no último verão, "mas ainda acho que a busca pela verdade é aquilo que deve mover os jornalistas".

Por quê? Porque o verdadeiro objetivo do bom jornalismo deve ser o serviço ao leitor. O que me traz de volta à minha esperança de que este seja o ano no qual os micropagamentos se tornarão aceitos e os leitores começarão a pagar pelo jornalismo que desejam. Assim, os jornalistas se sentirão dependentes principalmente dos seus leitores, em vez de procurar cada vez mais agradar aos anunciantes e contemplar outros objetivos. A cobrança pelo conteúdo obriga os jornalistas a manter a disciplina: eles precisam produzir material que as pessoas de fato considerem valioso. Suspeito que afinal descobriremos o caráter libertador desta obrigação. A necessidade de ser valorizada pelo público - servir a ele antes de mais nada, sem depender unicamente da renda publicitária - permitirá à mídia orientar-se novamente pelos princípios originais do jornalismo."

Bom tema para discussão. Pessoalmente entendo que todo trabalho jornalístico deve ser remunerado, seja em que mídia for, mas nada impede que os seus autores o ofereçam gratuitamente ao público leitor. Talvez a discussão maior esteja justamente na qualidade da informação veiculada.

Nenhum comentário: