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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Canção das mulheres

Ainda em janeiro ganhei um presente lindo - uma caixa com três livros de Lya Luft: Perdas e ganhos, Pensar é transgredir e o Silêncio dos amantes. Nem preciso dizer que considero livros o melhor presente. Ainda mais quando vem de quem amamos. Lya Luft é uma grande mestre na arte de escrever e uma grande mulher. Comum e nada comum. Simples e complexa. Serena e inquieta. Alegre e melancólica. Dual. Como todos, humana. Como poucos, sincera. Como raros, verdadeira.

Pois bem, já tinha lido Pensar é transgredir, que comprei há dois ou três anos, mas emprestei-o e não consegui que voltasse. Agora deve descansar em estante alheia, espero que não cheio de pó. A autora não merece. E é desse livro que copiei a Canção das mulheres (págs. 19-20). Um hino à compreensão e à cumplicidade que precisa existir entre pessoas que se amam:

"Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.
Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.
Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.
Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.
Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.
Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.
Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá está a sua verdade mas talvez seu medo ou sua culpa.
Que se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles, o outro não desconfie logo que é culpa dele, ou que não o amo mais.
Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo "Olha que estou tendo muita paciência com você!"
Que se me entusiasmo por alguma coisa o outro não a diminua, nem me chame de ingênua, nem queira fechar essa porta necessária que se abre para mim, por mais tola que lhe pareça.
Que se me entusiasmo por alguma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.
Que quando levanto de madrugada e ando pela casa, o outro não venha atrás de mim reclamando: "Mas que chateação essa mania, volta para a cama!"
Que se eu peço um segundo drinque no restaurante o outro não comente logo: "Poxa, mais um?"
Que se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.
Que o outro - filho, amigo, amante, marido - não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo nada disso.
Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher."

Aliás, nossos colegas blogueiros, excelentes cronistas, contistas e poetas, poderiam escrever uma Canção dos homens, mostrando como eles se sentem a respeito. Quem se habilita?

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