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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A Reforma Ortográfica

O acordo celebrado pelos países de língua portuguesa criou polêmicas e principalmente inseguranças por um pequeno (ou grande) problema - os linguistas esqueceram da complexidade da língua, das muitas exceções que ela possui... Assim, as regras não ficam claras e permitem confusões. Imaginem só, se para quem conhece já é difícil, para aqueles que não se preocupam muito com a ortografia ou têm deficiência advinda de alfabetização é um caos. Porém, lei é lei e regra é regra. Cabe-nos cumpri-las, desde que a lei e a regra sejam claras.

Comenta o sempre ácido Reinaldo Azevedo, em seu blog, que na Folha de São Paulo de hoje há uma excelente reportagem de Luiza Alcantara e Fábio Takahashi que dá conta do ridículo a se submeteram os "reformadores" (grifo dele) da língua ao "esquecerem" de enquadrar alguns vocábulos nas novas regras.

Eis alguns exemplos, segundo a Folha: "Re-editar" ou "reeditar"? "Coabitar" ou "co-habitar"? As principais dúvidas que o texto do Acordo Ortográfico, em vigor desde o dia 1º, havia deixado foram esclarecidas pela publicação da segunda edição do dicionário da ABL (Academia Brasileira de Letras), que começou a ser distribuído ontem nas livrarias. O "Dicionário Escolar da Língua Portuguesa", editado pela Companhia Editora Nacional, tem 1.311 páginas e cerca de 33 mil verbetes. "O que está no dicionário vai ser adotado pelo Volp [“ Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa"], diz Evanildo Bechara, membro da ABL e da comissão de língua portuguesa do Ministério da Educação que trata do Acordo. Volp é o documento que registra a grafia oficial das palavras. A nova versão, com cerca de 370 mil palavras da língua portuguesa, será publicada até o início de março."

Bechara alcançou, finalmente, a celebridade. É uma pena que seja este lastimável acordo o motivo. Tanta lambança se fez na língua para, no fim das contas, optar-se, como se verá, pelo arbítrio. As principais dúvidas que o dicionário esclarece são em relação ao uso do hífen. De acordo com Bechara, o Acordo não tratava dos prefixos "re", "pre" e "pro" por "esquecimento".

Palavras com esses prefixos, segundo o novo dicionário, devem ser grafadas sem hífen, como "reeditar" e "preencher" - e não "re-editar" e "pre-encher", como interpretaram alguns estudiosos no Acordo. Embora o Acordo tenha sido assinado por todos os países lusófonos - menos Timor Leste, que deve assiná-lo brevemente, a ABL afirma que as palavras que geraram dúvidas não foram discutidas com as outras nações. Mas estão valendo no Brasil assim mesmo. "O Acordo diz que duas vogais têm que estar separadas por hífen, mas se esqueceu do [prefixo] "re". Teria que estar separado, mas isso se choca com a tradição lexicográfica, tanto em dicionários brasileiros como em portugueses", diz Bechara. "Se o Acordo quisesse contrariar essa tradição, teria sido explícito, o que não ocorreu. Logo, a conclusão é a de que houve um esquecimento."

E prossegue Reinaldo, em sua crítica peculiar: "Ah¸ bom! Então se muda a regra, mas, em alguns casos, fica-se com a tradição lexicográfica. Mais ainda: o Brasil decide para os brasileiros o que não foi debatido com os outros países. Entendi. Os portugueses, que odiaram algumas mudanças, já podem apelar à “tradição lexicográfica” para não aderir. E vejam que mimo: essa porcaria está em debate desde o governo Sarney, mas os çábios simplesmente esqueceram de algumas palavras ao criar suas regras.

Continuemos seguindo a reportagem da Folha de São Paulo: A tradição é um dos princípios do Acordo, segundo a ABL. O quarto e último princípio geral afirma que o Acordo deve: "Preservar a tradição ortográfica refletida nos formulários e vocabulários oficiais anteriores, quando das omissões do texto do Acordo". "O texto do Acordo é curto, não ia abranger as mais de 300 mil palavras que há no Volp", afirma Bechara.

E lasca Reinaldo: "Prestem bem atenção ao que vai em negrito. Será importante mais abaixo. Outra dúvida que o dicionário esclarece é a grafia da palavra "abrupto". O dicionário diz: "Ab-rupto" é preferível a "abrupto'" - ou seja, as duas formas são consideradas corretas, mas o ideal é usar a hifenizada. Para Bechara, "ab-rupto" não deve causar estranhamento". As escolas devem priorizar a forma com hífen, disse. Por que, então, o “abrupto” não pode se manter como é em nome da “preservação da tradição ortográfica refletida nos formulários etc.? O “ab-rupto” é de tal sorte ridículo, que decidiram deixar para a livre escolha do vivente. Imagine-se, leitor, a escrever “Abriu a porta ab-ruptamente”. Ou ainda: “Tomou-a ab-ruptamente nos braços e...” Bem, quem faz isso não pode dar um beijo na moça, né? Um “ab-rupto”, no máximo, dá beliscões e pisadelas..."

E a Folha continua: "Outro ponto questionável do Acordo que o dicionário esclarece é o caso da acentuação em palavras como "destróier". "O Acordo diz que paroxítonas com ditongos abertos, como "ei" e "oi", perdem o acento. É uma regra específica, mas esqueceu que tem paroxítonas com esses ditongos que terminam em "r", que são obrigatoriamente acentuadas. Como "destróier". Essa regra se choca com a regra específica, mas, entre a regra específica e a geral, ficamos com a geral. Então, o acento continua nessas palavras."

Reinaldo dá o troco: "Ah, bom... Mas ainda há um ponto que causa confusão: "co-herdeiro" ficou grafada como "coerdeiro" no dicionário, embora no Acordo a indicação fosse para escrever "co-herdeiro". A Folha tentou falar com a ABL ontem à noite, mas ninguém foi localizado para comentar o caso. Estavam se empanturrando com chá & bobagens... "Coerdeiro"? Se decidirem por isso, nessa palavra ao menos, hei de me declarar em desobediência civil. Como diria aquele professor da USP que acha o terrorismo criativo, praticarei atentados escrevendo "co-herdeiro", "co-herdeiro", "co-herdeiro"...

Os interessados em consultar o dicionário devem ficar bastante atentos: os verbetes considerados corretos e esclarecedores aparecem apenas na segunda edição da obra. A primeira, com 15 mil exemplares (já vendidos), foi publicada com verbetes errados. O problema é que não há na capa selo ou identificação que diferencie as edições – isso ocorre apenas na primeira página, onde está escrito "2ª edição". E o Ministério Público não vai entrar na parada para tornar obrigatória a troca da estrovenga, sem custo para quem foi enganado na primeira edição? Quem comprou a primeira edição deve encontrar a partir de hoje os verbetes que saíram incorretos corrigidos no site da empresa (www.editoranacional.com.br). Caso não esteja no ar, o consumidor pode entrar em contato pelo telefone 0/xx/11/2799-7799 ou pelo e-mail (
atendimento@editoranacional.com.br). Bando de prepotentes trapalhões."

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