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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Sociedade mágico-fenomenista

Há um artigo muito interessante na Zero Hora de segunda-feira, 2 de dezembro, assinado pelo psiquiatra Montserrat Martins, em que aborda a questão da responsabilidade humana nas catástrofes que estão acontecendo em Santa Catarina e, por analogia, em qualquer lugar do mundo.

O articulista cita, inicialmente, a ambientalista Ana Echvenguá, para quem "a responsabilidade não é de São Pedro, é das autoridades que não tomaram medidas para prevenir a tragédia". Os desmatamentos nas encostas dos morros e na beira das estradas, a falta de escoamento para a água, entre muitas outras questões de planejamento, são obrigações dos governantes, já que dispomos de capacidade para prever, cientificamente, os riscos de tragédias decorrentes de fenômenos naturais.

Além da responsabilidade governamental, cabe aos cidadãos a ação participativa para evitar problemas que afetam o coletivo - a simples ação de jogar lixo nas ruas que concorre para o entupimento dos bueiros - é uma forma de negligência. Mais do que cobrar atitude governamental, precisamos cobrar de nós mesmos o que é necessário para melhorar essa situação, adverte o profissional. E segue seu raciocínio: "A vida requer evolução constante, pois não há como ser feliz, individual ou socialmente, sem desenvolvermos nossas capacidades de modo contínuo. e a responsabilidade é proporcional à capacidade de cada pessoa e de cada grupo social, de acordo com seus conhecimentos científicos."

O que mais chamou atenção no artigo é a analogia que o psiquiatra faz do desenvolvimento da civilização com o de uma criança, já que a maturação da inteligência atende a estágios evolutivos - do egocentrismo e imediatismo iniciais, até a compreensão de pertencer a um mundo complexo e interdependente - um longo processo é percorrido. Nas sociedades primitivas, explica o articulista, como nas crianças até dois anos, a inteligência é especialmente prática, tendente a resultados favoráveis e não ao enunciado de verdades. Logo após, se desenvolve o esboço de uma visão de mundo, quando a criança aprende a situar-se "como um objeto entre outros" e constrói as noções de tempo, espaço e causalidade, porém as causas ainda ficam circunscritas a explicações "mágico-fenomenistas".

Segue-se uma etapa de progresso do pensamento e da linguagem, dos dois aos sete anos, em que a criança desenvolve a capacidade simbólica, mas permanece a incapacidade de colocar-se no ponto de vista de outra pessoa bem como a impossibilidade de relacionar entre si diferentes aspectos ou dimensções de uma situação.

No estágio das operações concretas, observado dos sete aos 12 anos, a criança já é capaz de usar a lógica e o raciocínio, porém apenas para situações concretas. Após os 12 anos, instrumentalizado a operações formais, o indivíduo já domina o raciocínio abstrato e a capacidade de lidar com situações e contextos complexos, o que possibilita pressentir e prevenir situações potencialmente de risco.

Eis o nó da questão! O articulista pergunta: "Em que estágio da evolução está uma sociedade que, dispondo de amplas informações científicas, permite uma tragédia como essa (em Santa Catarina), que evidencia a falta de estrutura em cidades e estradas para chuvas mais intensas? Em que grau de egocentrismo imediatista estão nossos representantes públicos e a nossa própria sociedade como um todo, quando ainda expressamos o pensamento mágico de que a culpa é da chuva?"

Parece que continuamos na etapa das explicações "mágico-fenomenistas"!

Um comentário:

Anônimo disse...

Um tema muito oportuno, serve para alertar os governantes municipais que são responsáveis pelos licenciamentos para construção de moradias nas áreas urbanas. Muitas os locais se situam em áreas de rísco - margem de rios, morros, etc., mas mesmo assim a pressão política se sobrepoem ao critério técnico. Resultado: alagamentos, deslizamentos, etc..