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terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Relembrando: Rua dos Poetas, n° 1

Em 04 de outubro de 2007, por ocasião da inauguração da primeira quadra da Rua dos Poetas, escrevi Rua dos Poetas, n° 1, em minha página semanal, na Folha Santiago, uma singela homenagem a Caio Fernando Abreu, Manuel do Carmo, Zeca Blau, Ramiro Barcellos, Túlio Piva, Antônio Carlos Machado, Sílvio Duncan, Carlos Humberto Aquino Frota e Jaime Medeiros Pinto:

Santiago. Rua dos Poetas. Noite de 3 de outubro de 2007. No puro ar da madrugada, leve brisa faz balançarem minúsculas estrelas de prata que restaram da festa de poucas horas antes. Suas partículas de luz envolvem Caio, Manuel, Zeca, Ramiro, Túlio, Antônio Carlos, Sílvio, Carlos Humberto e Jaime, nove homens que deslizam lentamente, lado a lado, na solidão da rua, tão diferentes em sua circunstância, tão si-métrica e exatamente iguais na sua arte, prosa-poesia-palavra-poética – afinal, o que é a poesia senão a palavra rítmica que escorregou da frase e caiu na outra linha? E a prosa, não é somente a palavra comportada, tão bela quanto cântico, que insiste em caminhar até o fim da pauta?

Estes homens-poetas, arquitetos de mil-palavras se movem na aragem noturna e comovem uns aos outros, ao contemplarem suas faces esculpidas em bronze, na pedra que os eterniza, humaniza e traz para perto do povo. E caminham, mirando-se no espelho do tempo. Caio relembra outros momentos, outra rua, em que correu, desesperadamente, sua solidão até a uma porta que não se abriu... Manuel, ao caminhar, recorda a sua musa, dourada como o sol, argêntea como a lua... Zeca procura, com o olhar comprido, em íntimas paragens, o encanto das tardes de sonho de outrora... Ramiro sente ainda o cheiro bom de terra e de capim molhados e enxerga, protegendo o fundo da paisagem, o horizonte em fogo, como lenço colorado...Túlio, um pouco atrás, evoca vozes, ternamente mansas, trazidas pela boca do vento, que sopram fantasias e lembranças...

Antônio Carlos perscruta a noite e lembra a tão próxima Vila Flores, terra sagrada, berço e bom abrigo da bela vida passada, sempre tropeada no corredor das lembranças... Sílvio levanta os olhos e avista uma alma de Quixote cruzando o campo, aguda como ponta de faca campeira, revolta de loucura santa... Mais contemplativo, Carlos Humberto reflete sobre o papel da verdade que, se imagem arrancada dos livros de Geografia, ganharia a suavidade dos riachos, falaria com a simplicidade das águas tranqüilas, que não se encrespam de irritação, nem quando as tempestades acabam... E Jaime, feliz, reúne a todos e recita: Eu te agradeço, Senhor, glória tamanha, de viver aqui no terno seio deste povo, terei sempre que agradecer de novo!... E da simpleza do meu gesto me perdoa. Mas é a voz da minha alma que ressoa, neste canto de amor em tom de prece: Obrigado, Senhor! – É Santiago que agradece.

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