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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O Soberano

“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores superiores de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil.

Título I
Dos Princípios Fundamentais

Artigo 1º. A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania;
II - a cidadania;
III- a dignidade da pessoa humana;
IV- os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V - o pluralismo político.

Parágrafo único. Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
Essas são, como sabemos, as primeiras palavras da Constituição que nos rege, e que foi assinada em 1988. Nelas podemos ver claramente quem é o soberano deste país: o povo. Nós: eu, tu, ele, nós.

Ontem, o atual Presidente da República nos ofendeu, de várias maneiras. Usando, naquele seu tom ora exaltado e furibundo, ora que se pretende irônico, termos escatológicos pouco recomendáveis para uma cerimônia oficial, além de palavras chulas para tentar explicar como devem se comportar, com a sociedade, as autoridades responsáveis pela condução da política econômica do país.

Do longo amontoado de hipérboles e comparações esdrúxulas, depreende-se que o Brasil está muito mal. Desta vez a comparação não foi com um jogador que bateu mal o pênalti, ou com um goleiro que entregou o time, desta vez a coisa ficou mais séria: era questão de saúde. Ao se comparar com um médico, o responsável pela condução do Brasil até 2010, deixou escapar que a situação do paciente é preocupante. Se não houvesse necessidade de esconder algo do brasileiro, nem à Sua Excelência ocorreria emitir opinião bastante controversa: que se deve enganar os pacientes.

Quando reclamamos do tratamento que ele nos dispensa, aparece logo um fervoroso militante para dizer que devemos respeito à instituição da Presidência da República e a seu ocupante. Evidentemente que sim. Para isso somos, e queremos ser, uma Nação Civilizada. Mas respeito é via de mão dupla. Ele que nos respeite, que nós o respeitaremos.

A maior prova que houve um tremendo desrespeito está na censura feita no site do Palácio do Planalto. Dizer que a expressão de baixíssimo calão usada por Sua Excelência estava inaudível é mentira tão cabeluda que até assusta. Se num caso desses, em que as palavras foram muito bem pronunciadas diante de microfones, o som perfeito, nenhuma interferência, querem nos convencer que o que foi dito não foi ouvido, imaginem aquilo que se passa longe dos microfones.

Não pensem que me move qualquer moralismo. Sou carioca e com idade para ser avó. Palavrões, já ouvi muitos, e já disse alguns. O mundo, desde meus verdes anos, mudou muito; palavrão, no cinema americano contemporâneo, é vírgula, é quase pausa para respiração dos atores. No cinema europeu quase todo é a mesma coisa. Na televisão brasileira então, nem se fala. Mas um Chefe de Estado, numa solenidade oficial, dentro de um dos templos da Cultura Brasileira como é o Palácio Gustavo Capanema, dizer o que esse senhor disse, isso é inédito até nos países mais liberados do mundo. É o tal do respeito à instituição da Presidência da República. Que tem que ser respeitada em primeiro lugar pelo Ocupante, que deve esse respeito ao Soberano.

Nós, como O Soberano que somos, vamos ensinar a ele e a seus adoradores como se faz, atentos, analisando, criticando, mas sempre respeitando. Nós, O Soberano, somos educados e civilizados."

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Souza é colaboradora do Blog do Noblat, onde escreve semanalmente.

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